Nos primeiros dias de cada ano temos sempre tendência para definir novos objetivos ou propósitos, alguns deles não realizados em anos anteriores. Este novo arranque que também nos acontece quando fazemos anos, um ano novo particular, repõe ilusoriamente o conta quilómetros a zeros. É assim que todos, ou quase, lidamos com as nossas insuficiências e reprogramamos as nossas ambições de felicidade.
O tempo não para e ano a ano temos um novo ano que é vivido com sucessos e insuficiências, é a vida.
Como podemos contrariar esta progressão no tempo? Como podemos ficar presos naquele ano que foi admirável e que guardamos com nostalgia nas nossas memórias? Descobri a resposta para estas duas interrogações com a minha tia Elvira que já ultrapassou os noventa anos. Dizia-me que aos vinte e quatro anos tinha tirado um retrato no famoso fotografo silvense Borlinha, mostrando-me uma foto de mil novecentos e cinquenta e cinco, e que dessa data em diante não se tinha deixado fotografar. A sua imagem que se eternizou enquanto jovem adulta era exibida com orgulho pela mulher idosa, pela minha tia.
Associei esta ambição de congelarmos a nossa imagem física enquanto jovens à leitura doAdmirável Mundo Novo(Brave New World na versão original em língua inglesa) de Aldous Huxley, escrito em 1932, dado que os habitantes deste novo mundo mantêm até à morte uma aparência jovem na casa dos trinta anos, com exceção de uma mulher, mas isso faz parte do romance. Como a história decorre no ano de 2540, ainda nos faltam muitos anos novos até lá, e, por isso, nada nos garante que as fotografias tiradas anteontem, ontem ou hoje com as idades de vinte e tal quase trinta anos não sejam necessárias à reconfiguração informática da nossa própria imagem e fundamentais para mantermos identidade num mundo admiravelmente novo.
Regressemos a 2022 e à vontade coletiva de regressarmos a 2019, tal como na fotografia da minha tia. Era bom? Talvez não, era mau. Perdíamos tudo o que aprendemos sobre os nossos limites, as novas formas de nos olharmos por dentro. Todos aprendemos muito nestes dois últimos anos, por isso quando oiço que vamos regressar a dois mil e dezanove compreendo a ambição, mas fico apreensivo ao imaginar que tencionam apagar toda uma nova maneira de olhar o mundo, a verdade desnudada e ao natural (para fugir ao cliché da verdade nua e crua) da globalização num mesmo mar em muitos barcos distintos, alguns sem remos nem motor.
Que dois mil e vinte e dois seja um ano admirável!








