Vamos andando

Ser português é ir andando (reconheço que a frase não faz sentido, mas os leitores portugueses entendem). Para nós, a felicidade parece esconder-se verticalmente na quase imperceptível sombra dos corpos ao meio-dia. Quando a agarramos, mal damos por ela.
Contemplamo-la nos primeiros degraus de uma imensa escadaria cujo topo ainda demora a alcançar. Curiosamente, nos outros, cremos observá-la amiúde numa desconfiança velada de inspector tributário. Na verdade, por cá, estar, ou aparentar estar feliz, até dá azo a falatório, ou a um deliberado inquérito ao visado.
– Andas (o apelo ao movimento) muito contente ultimamente (sim, porque feliz, também já soa a exagero).
Palmada nas costas: – O que se passa contigo, hum, conta lá vá? (aquela curiosidade para saber a receita, conjugada de admiração pelo invulgar estado de espírito).

O alegado feliz até se sente mal. Aquela sensação de escrutínio, sobre a sua actual condição emocional. Pior, a vergonha por ter deixado transparecer um estado de alma, que na praxis quotidiana do nosso país, dá lugar a prestação de contas aos membros da comunidade em geral.
-Ora essa, ó António! Que disparate, vamos andando pá.
-Não me enganas. Ui, ui, o que se passa…
O sinónimo português de felicidade é, “vamos andando” (no plural, porque temos duas pernas e esta condição emocional, requer movimento).
Em Portugal não se está coisa nenhuma no que respeita a estados de espírito de cariz animado. A menos que se esteja com os copos, aí está-se, qualquer coisa, bêbado.
Na verdade, nem sempre vamos andando, por vezes, vai-se indo, no entanto, esta expressão já deixa antever uma certa melancolia, algo que já se vai aproximando de um estar qualquer coisa, que, em bom rigor, já resvala para um estado de alma que pode dar azo a perguntas.
O verbo ir e andar, juntos, servem muito bem para satisfazer a curiosidade alheia sobre o que nos vai na alma sem necessidade de mais conjecturas. Se a conversa se entabular com o verbo estar, é porque, aí sim, o interlocutor sente necessidade de desabafar, porque está triste, ou está constipado, ou cansado. Estar feliz, ou estou feliz, dito espontaneamente, é uma resposta em que a probalidade de a ouvir do interlocutor é reduzida, de 1 para 100, talvez.

Na verdade, o pendor para a alegria ou para a felicidade por cá não vende. Um jornal que promovesse somente a boa disposição provavelmente iria à falência.

A felicidade, a existir, não é para ser pronunciada, é algo que deve ser sigiloso e vivido na calada.

Vai-se andando, cabe bem dentro da mala e contém tudo, alegrias e tristezas.
Não é fácil para um português assumir o seu estado de espírito no formato normal, ou seja, no presente do indicativo do verbo estar: Estou. Muito menos no que respeita à felicidade, até porque parece haver um certo pudor em assumi-la quando a julgamos sentir. Na verdade, que me desculpem os leitores, e para ser mais preciso, até “estamos” muitas vezes, mas em trânsito, porque vamos andando, e como tal, no fim da viagem, logo pensamos acerca disso. Para já o que importa é o caminho, o ir andando sem saber ao certo o que isso significa, e não aborrecer as pessoas com a nossa felicidade ou a falta dela.
Afinal ser português é, entre outras coisas, ir andando.

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