Paulo Nunes Matias – o percurso de um messinense na defesa da Liberdade

Naquele sábado, 21 de Dezembro de 2002, os sinos da matriz de S. B. de Messines não dobraram a finados, tal não impediu, porém, que muitos comparecessem na derradeira despedida de uma figura carismática da terra – Paulo Nunes Matias.

Comerciante desde tenra idade, logo ali ao lado da igreja, ainda que anticlerical, era uma figura sobejamente conhecida e respeitada, afinal o seu nome a e sua loja não conheciam fronteiras, nem credos. Apesar de profundamente anticlerical tal não impediu que se associasse ao cortejo fúnebre o padre Brito, em homenagem a um ser humano de excecional generosidade, que o peso dos anos fez vergar poucos dias depois de completar 89 primaveras. Lutador pelos seus ideais Paulo Nunes Matias nunca se curvou perante as adversidades, muito menos na defesa daquilo em que acreditava, o que lhe valeu a prisão e depois a vigia constante de todos os seus passos, pela polícia política, durante 36 longos anos.

Paulo Matias

Nasceu a 8 de Dezembro de 1913 na rua Miguel Bombarda, em São Bartolomeu de Messines. A República transmutara o nome à secular rua do Prior, e republicanos eram também os progenitores do petiz. O pai, José Gonçalves Matias, dedicava-se ao comércio, enquanto a mãe, Emília das Neves Nunes Matias, era doméstica.

A aldeia, um grande pólo comercial, crescia sobremaneira por aqueles anos, de tal forma que no início da década de 1930 se acreditava que a promoção a vila e a sede de concelho era inevitável. Porém, contra as expectativas, o Código Administrativo de 1936 não contemplou tais veleidades. O centralizador Estado Novo substituíra a partir de 11/4/1933 a Ditadura Militar, instaurada a 28/5/1926. As forças democráticas haviam capitulado, no reviralho de 1927 e na revolta da Madeira, quatro anos depois. Aqui ao lado, em Espanha, a Guerra Civil lavrava com intensidade – os tempos eram ditatoriais. Em 1937 um atentado contra Salazar saiu gorado. O regime opressor impunha-se e musculava-se. Em São Bartolomeu de Messines vários oposicionistas são presos por aqueles anos, alguns mesmo deportados, como os anarquistas António Neves Anacleto ou José Correia Pires, este último para o Tarrafal. Em Fevereiro de 1938 ocorreu mais uma leva. Ao todo oito presos na aldeia. Com o endurecimento da vigilância da PVDE, a antecessora da PIDE e perante os inúmeros indícios de atividade comunista no Algarve, foi identificado, como um dos alvos a aprisionar, Firmino Rita, um sapateiro de Faro, distribuidor da propaganda comunista no sotavento. Porém, avisado por um «polícia amador», fugiu, sendo transportado para S. B. de Messines. Ocultando-se em casa de Sebastião da Silva, João António Gonçalves e Paulo Matias vão transportá-lo para Porches, saindo depois para Algoz, Tunes e Lisboa.

Logrado o desígnio do comandante da PSP de Faro, Rosa Mendes, de prender Firmino Rita, vai ocupar-se dos seus amigos próximos, empreendendo uma vasta operação no Algarve. Sobre tortura persistente, obtém informações preciosas, que levam à prisão, a 3 de Fevereiro, em Vale de Santa Maria, Albufeira, de João da Veiga. Delegado do PCP, Veiga era guardião de inúmera informação, livros, jornais, correspondência e endereços, de imediato apreendida. A «sorte grande» saíra à PVDE e segundo Maria João Duarte, em «Silves e o Algarve – Uma história de oposição à Ditadura», a «captura de João da Veiga arrastou para a prisão quase toda a organização do PCP no Algarve».

 

A prisão

Ficha prisional

A 4 de Fevereiro era preso, em Messines, Sebastião Nunes da Silva (34 anos, assentador dos caminhos de ferro) e quatro dias depois Paulo Nunes Matias (empregado de comércio), João António Gonçalves (22 anos, empregado de comércio), Manuel António Carneiro (50 anos, sapateiro), António Pedro Lebre (51 anos, ferreiro), José Mascarenhas Corte Real Cabrita (30 anos, ajudante de farmácia). Por sua vez, dia 12, era a vez do regedor conduzir à esquadra da polícia, em Faro, Francisco Eugénio Cabrita (55 anos, empregado de comércio) e Cláudio da Encarnação (49 anos, pedreiro dos caminhos de ferro).

Para jornal «O Algarve», de 27/2/1938, tratavam-se de «maus portugueses, de ideal tôrvo» e amigos de «Moscovo». O mesmo periódico avançava que se havia provado a existência de dois comités regionais do PCP, um em Silves e outro em Faro. Silves ligava com Algoz, Albufeira, Portimão e Messines. Por sua vez, Faro ligava com Santa Bárbara de Nexe, Messines e Silves.

As prisões chocaram os messinenses e ficaram gravadas na memória de todos. António Neto Guerreiro, então com 9 anos, vai recuperar o episódio mais de 65 anos depois, no seu romance «O Senhor Comendador», publicado em 2003: «Numa dessas noites chuvosas e frias de inverno do mês de Fevereiro [1938] dos anos de terror em Portugal, lá pelas três horas da madrugada, (…), a Polícia Internacional e de Defesa do Estado bateu à sua porta. Àquela hora não era comum alguém vir acordar as pessoas; todos em casa ficaram assustados. (…) É a polícia, abra a porta em nome da lei – disse o chefe. (…) Uma patrulha de três homens fortemente armados, (…). Eles iriam levá-lo! Acorrentado, (…) sob a mira dos fuzis, como se fossem criminosos ou bandidos da pior espécie. (…) homens prisioneiros, de uma famigerada política suicida e retrógrada imposta aos portugueses».

Presos «a bem da nação» e arguidos «no crime Político-Social (Organização Comunista)», foram colocados à disposição do diretor da PVDE, em Lisboa. O «criminoso» Paulo Nunes Matias, com 24 anos de idade, era acusado de constituir um elemento comunista, ligado a Faro e Silves, cidades de onde recebia «material de agitação e propaganda que distribuía não só pelos seus camaradas de Messines, como também espalhava pelos arredores daquela povoação, teve várias reuniões de carácter revolucionário e clandestinas, deu fuga ao agitador Firmino Rita que anda fugido à Polícia, subvencionou a alimentação do referido agitador enquanto o mesmo esteve refugiado em Porches, etc. etc.». Conforme se lê no relatório do comandante da Polícia de Faro, o tenente José Rosa Mendes.

Em Maio o processo transitava para o Tribunal Militar Especial. Entretanto Paulo Matias era enviado para Lisboa, recolhendo à 1ª Esquadra a 16/2/1938 e entregue no mesmo dia à Diretoria da PVDE. Transferido para o Forte de Caxias a 3 de Junho e posteriormente para o Depósito de Presos de Peniche a 13 de Agosto. Regressou à 1ª Esquadra, em Lisboa, a 29 de Novembro, sendo julgado no dia seguinte no Tribunal Militar Especial. Condenado a uma multa de 600$00, uma autêntica fortuna para a época, que não sendo paga no prazo legal seria convertida em 30 dias de prisão «correccional e na perda de direitos políticos por 5 anos», conforme consta na sua biografia prisional. Foi restituído à liberdade a 3/12/1938, após pagar a coima. Uma pena pesadíssima para o crime de ousar pensar e como senão bastasse, diferente.

Para o espírito aberto de Paulo Matias, que nascera antes do seu tempo, ainda por cima num regime cada vez mais conservador e retrógrado, a liberdade concedida a peso de ouro, foi também ela amarga. A má alimentação que experimentara durante 10 meses de cárcere, com as refeições a serem servidas numa lata com 1 cm de ferrugem, como frisava, tornaram-no num alvo fácil para a tuberculose. Saiu da prisão gravemente doente, nas vésperas de completar 25 anos de idade. Mas, Paulo Nunes Matias não vacilou perante mais uma vicissitude. De regresso a Messines lê com avidez revistas sobre alimentação e natureza e consegue sozinho domar o bacilo de Koch. Todavia, o regime não lhe perdoa a desfaçatez e vigiará diligentemente, a partir de então, todos os seus passos. O Estado Novo persegue-o, até na toponímia, a rua da loja passara a ostentar o nome de Dr. Oliveira Salazar, a partir de 7/12/1934.

Em 1941 a polícia política aponta-o como um indivíduo «com ideias comunistas». A 12 Janeiro de 1942 contraiu matrimónio com Rosa de Sousa Lima, natural dos Matos, Paderne. Em 1953 o nome do seu pai é referenciado num relatório da PVDE, sendo efetuada vigilância também aos seus dois irmãos, Manuel e Arnaldo Nunes Matias, todos considerados desafetos à situação política ditatorial. Paulo Matias encontra-se nessa altura em África. No final do ano e já em Messines, uma coincidência quase lhe arrebata o filho do mundo dos vivos. No adro da igreja encontram-se todos os alunos da escola, enquanto os sinos tocam a rebate, inexplicavelmente o badalo de um deles, com 8 kg (pesado na balança da loja), solta-se e acerta em cheio no pequeno José Paulo Matias, o único que não recebera o sacramento do baptismo. Mas Paulo Matias não se convence dos desígnios dos céus, de braço dado com conservadorismos ditatoriais terrenos.

 

As «eleições» de 1958

 A 12 Junho de 1958, durante a campanha eleitoral para a presidência da República, a PIDE apreende em S. B. de Messines 3 cartazes que se encontravam às portas de João António Carneiro e Paulo Matias. Propalavam – «Tornai-vos conscientes! Amordaçados falai: – o medo acabou! Votai no General Humberto Delgado» e «Professores, estudantes votai pela actualização da cultura, lutai pela verdadeira civilização portuguesa: – votai no General Humberto Delgado».

O diligente agente acrescentou no seu relatório que a mulher de Paulo Matias, Rosa Lima, havia protestado dizendo «neste País não há liberdade, isto é uma miséria, etc.». Na localidade tinham sido ainda afixadas várias fotografias de Américo Tomás e duas de Delgado. Todavia, as primeiras foram sujas e rasgadas, enquanto as segundas permaneceram intactas, suspeitando o agente que «tenha sido o Silvério de Jesus Martins, quem rasgou as fotografias do candidato da União Nacional, em virtude deste indivíduo ter ali passado às 4,30 horas do dia 2, estando antes disto intactas, as citadas fotografias». Uma semana antes a 6 de Junho, o posto de vigilância da PIDE, de Faro, informava Lisboa que Paulo Matias aguardava em Messines, juntamente com José Nobre Ruivo e João António Carneiro, o candidato Arlindo Vicente (apoiado pelo PCP), aquando da sua passagem pela localidade.

Ficha da PIDE

Paulo Matias é frequentemente mencionado nos relatórios semanais e extraordinários da Polícia Política do regime, seja no apoio a outros desafetos da «situação», ou em reuniões à porta fechada no café Machado, como entre 12 e 15 de Dezembro de 1955, aquando a visita de Sidónio Nunes Pacheco, que se prolongavam até de madrugada, juntamente com Fernando Cortes Machado e Francisco Martins Benedito. Ou na esplanada do café de Romeu Dias Caetano, em Agosto de 1961, na sequência do regresso de António Mateus de Luanda. Aqui vinha a reunir todas as noites com o médico José Ventura Duarte, Fernando Cortes Machado, ou José Lopes Dionísio. Suspeitando o empenhado informador da PIDE, «a bem da nação», claro está, que «os referenciados efectuem reuniões de carácter político pois que, normalmente, cerca das 23.00, abandonam o café, umas vezes isolados, outras em conjunto, para não mais serem vistos nessas noites».

Ainda em Junho de 1961 foi tido como o fornecedor das listas do candidato oposicionista distribuídas em toda a freguesia de Paderne. Note-se que eram os eleitores que no dia das eleições transportavam o voto das suas residências, os boletins não estavam disponíveis nas mesas de voto e eram impressos a expensas das candidaturas. A polícia segue atentamente toda a sua atividade, arquivando ao seu processo, por exemplo, a oferta de 50$00 que fez ao jornal «República» (dirigia-se a um público conotado com a contestação ao regime), com vista à aquisição de uma nova rotativa por aquele periódico.

Em 19/6/1962 a PIDE informava, na sequência de um pedido de autorização de venda de pólvoras, certamente na loja, que «não oferece garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado». Já em Setembro o vice-presidente da Câmara de Silves atestava que apesar de desafecto «à actual Situação Política o indivíduo em referência tem tido bom comportamento moral e político».

Em 1968 a PIDE atualiza a sua ficha biográfica, bem como a de sua mulher, na sequência da prisão do filho José Paulo Matias, em Irún (ver «Terra Ruiva» de Maio de 2020). Mas, Paulo Nunes Matias não é homem de intimidações ou receios e em março de 1969 é um dos subscritores de um «Comunicado à Nação», na qualidade de membro da Comissão Democrática Eleitoral, do distrito de Faro. No manifesto os subscritores incitavam a população a inscrever-se nos cadernos eleitorais para poderem exercer o seu direito de voto nas eleições para a Assembleia Nacional, a realizar em Novembro.

Paulo Nunes Matias exulta com a revolução democrática, que lhe trás o filho de volta, exilado desde 1968. Cidadão activo até então, não prescindirá de exercer a sua cidadania, intervindo nas causas sociais e políticas, mantendo-se fiel e coerente com os seus princípios.

Nos dias em que se voltam a ouvir vozes a categorizar de maus e bons portugueses, consultar processos da Polícia Política é tão entusiasmante, como repulsivo. Se por um lado a informação que contêm permite-nos conhecer detalhadamente a vida dos visados, é repugnante imaginar que concidadãos, não raras vezes vizinhos e amigos, se dedicavam a vigiar e vasculhar a vida dos seus semelhantes, numa atitude egoísta e mesquinha na defesa de um regime que promovia, entre outros aspetos, a aniquilação da liberdade de pensamento e de consciência. Um regime que protegia meia dúzia de privilegiados e humilhava a maioria dos portugueses.

Ninguém escolhe o tempo em que nasce e Paulo Nunes Matias, como tantos outros, sofreu as consequências de ousar pensar diferente, num período em que tal era crime. Mas o mais chocante é pensarmos que afinal tudo se pode repetir, e repete nos nossos dias nos diversos regimes autoritários por esse mundo fora. Afinal, o egocentrismo, o nacionalismo exacerbado, o ódio, a indiferença, mas também a maldade e a estupidez humana não têm limites.

Volvidos que são 47 anos da devolução do país a todos os portugueses, a 25 de Abril de 1974, lembramos e prestamos a nossa homenagem a Paulo Nunes Matias, e a tantos outros que lutaram e não raras vezes perderam a vida para que hoje fossemos mais iguais entre todos.

 

Parabéns «Terra Ruiva»

Com a presente edição ( de abril) o «Terra Ruiva» entra no 22º ano de publicação. Um jornal não se destina apenas aos leitores do presente, ele constitui também uma fonte de informação imprescindível para os ledores do futuro. Da mesma forma um periódico não noticia somente o que aconteceu, ele tem a capacidade de criar o próprio acontecimento, denunciando situações ou propondo soluções para os problemas com isenção e rigor. A Democracia não subsistirá sem uma imprensa forte e aguerrida, e esta última só é possível com leitores exigentes e jornalistas empenhados. A nível local a importância dos periódicos é ainda mais premente, na exigência pela construção de um concelho assente nos caminhos do futuro, reivindicando estratégia e ambição pluripartidária. Apesar de termos colaborado nos primeiros números do «Terra Ruiva», a nossa participação só se tornou reiterada depois de Janeiro de 2001, são por isso 20 anos de publicações, num total de 190 artigos. A todos os que nos seguiram e seguem atentamente o nosso reconhecimento. Ao «Terra Ruiva» muitos anos de vida. Afinal ele não só é indispensável na atualidade, como constituirá uma janela no futuro, sobre o passado, dos nossos dias.  

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