Um olhar sobre o associativismo

Por estes dias de fevereiro e março, em que uma série de associações e coletividades do concelho, algumas delas octogenárias e outras nonagenárias, têm o seu aniversário, vale a pena avaliar a sua situação nas presentes circunstâncias marcadas pela pandemia.

O que se verifica é que o movimento associativo em geral viu agravada a sua periclitante situação económica. Muitas coletividades têm parte da sua sobrevivência dependente do funcionamento de um bar/ café e da realização de atividades sociais e de entretenimento, sendo que tudo se encontra suspenso, total ou parcialmente, desde há um ano. Segundo os dados da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto, a maior estrutura nacional associativa, estima-se que 10 mil coletividades estejam em risco de encerrar, o que levará a 20 mil despedimentos.
A questão já chegou ao presidente da República e à Assembleia da República mas como que tem passado à margem… no rol infindável de prioridades que o são e outras que assim parecem…

E no entanto… e no entanto, convido os leitores, por um momento, a pensarem no que seria o nosso País sem as nossas associações, coletividades, sociedades, clubes… O que seria o nosso País sem essa imensa massa voluntária, que envolve cerca de 425 mil dirigentes? E ainda o que seria de tantos de nós, dos nossos filhos, dos nossos pais ou avós, sem esses espaços de apoio social, de cultura, de desporto, de recreio?

Do ponto de vista económico, esta também não é uma questão menor. A economia social, como também é chamada, enquadra mais de 60 mil entidades, das quais 33 mil são coletividades de cultural, recreio e desporto, o que representa milhares de postos de trabalho, diretos e indiretos.

Apesar disto, o movimento associativo popular não foi considerado um eixo a merecer atenção e apoios direcionados, à semelhança do que tem sido feito para muitos sectores económicos e sociais. Na verdade, o movimento associativo encontra-se entregue à sua sorte, dependente da maior ou menor capacidade financeira das associações e do espírito de desenrascanço dos seus dirigentes.

O que na prática significa que muitas associações terão de ir de mão estendida a uma qualquer entidade local, regional ou nacional, quase mendigando um apoio que deveria ser seu por direito próprio, advindo do seu papel social.

Não é esta a leitura de muitos autarcas e outros governantes que frequentemente olham para as associações, clubes e coletividades como uma espécie de sorvedouros de dinheiros públicos, sem pesarem a sua representatividade e importância social. E a sua contribuição para o desenvolvimento das comunidades e do País. O movimento associativo, tal como os restantes sectores económicos, sociais e culturais, merece um olhar diferenciado que não se pode esgotar na oferta quase simbólica de produtos de desinfeção e equipamentos de proteção – que pouco mais tem sido feito. Necessita de apoios e de legislação apropriada que enquadre a sua situação – como é que, por exemplo, já no mês de março, as associações não têm ideia se/e quando poderão realizar as suas assembleias obrigatórias, para apresentação das contas?

No caso do concelho de Silves, entendeu a Câmara Municipal manter no ano passado os pagamentos já previstos por via dos programas de apoio às associações, consciente das dificuldades que as mesmas enfrentariam sem esse suporte financeiro. Mas, em 2021 o problema volta a colocar-se e em muitos casos com mais gravidade, exauridas que estão muitas associações e coletividades sem possibilidade de angariarem receitas pelos meios habituais.

A nível local, urge que a autarquia de Silves se inteire das novas dificuldades que algumas associações enfrentam, com as alterações provocadas pela situação pandémica, para que se possa assegurar que atravessam estes tempos de incerteza com o mínimo de conforto financeiro. Muitas necessitam de apoios extraordinários que não cabem nos limites dos programas de apoio desenhados para épocas “normais”. Que se ajude agora para mais tarde se exigir.

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