Não é segredo que um dos maiores receios de George Washington e dos pais fundadores dos Estados Unidos da América (EUA) era que demagogos tentassem aproveitar o caos e confusão de uma nação recém criada. Eram referidos como o mais venenoso que existe para a constituição das democracias. Muito próximo da famosa Convenção Constitucional de Filadélfia, em 1787, Washington escreveu ao seu amigo Marquis de Lafayette, a explicar que o propósito crítico da participação nesta convenção seria impedir que um demagogo ganhasse demasiado poder num país que ainda era instável, consequentemente destruindo-o. A eleição, mesmo que justa, de políticos com interesses próprios e egoístas, poderia acabar com o governo central e as suas leis constitucionais, para o alcance destes interesses e glorificação própria.
As eleições nos EUA terminaram no passado dia 3 de novembro. O processo político e democrático terminou nesse dia, sendo que a contagem de todos os votos prolongou-se por mais alguns dias, devido à grande afluência de votantes e também devido ao grande aumento de votos por correio, fruto das limitações da Covid-19. Paralelamente um outro processo teve início, a descredibilização total no sistema, pelo atual Presidente dos EUA, Donald Trump. O candidato democrata Joe Biden ganharia as eleições, mas Trump não admitiria a derrota, com a justificação de fraude eleitoral, mesmo que sem qualquer prova. Este é precisamente um dos acontecimentos que Washington e os seus companheiros temiam. Os americanos estão descontentes com as condições gerais de vida dos últimos anos e várias frações da sociedade são assoladas por desigualdade económicas e crescente marginalização. Estas condições são terreno fértil para o aparecimento de novas alternativas políticas ao chamado establishment.
O descontentamento geral é legítimo. De facto o poder de compra diminuiu bastante no ocidente, fruto de uma estagnação dos ordenados e de uma contínua subida dos preços. Esta será a geração que irá viver com menos do que a anterior. Como em tantos outros momentos da história, existem movimentos ou indivíduos com a arte de manipular o descontentamento para proveito próprio ou para qualquer outro objetivo.
A história está repleta de exemplos, de todos os espectros políticos. De facto, o grande desestabilizador dos nossos tempos teve como principal catalisador a crise financeira global e a perda de importância para as novas potências no oriente. Vale a pena mencionar que, além do conhecido descontentamento, e como tinha sido mencionado anteriormente, estes movimentos alternativos proliferam em confusão e divisão. Hoje em dia, têm o particular benefício da internet e redes sociais, para espalhar desinformação, uma incrível arma criadora de caos e divisão.
Yuval Harari escreveu esta semana no New York Times sobre teorias da conspiração, a sua forma de funcionamento e como estas se conectam com os movimentos demagogos e populistas. É observável que todos estes movimentos tinham direta ou indiretamente alguma teoria da conspiração no seio da sua ideologia ou modo de atuação. Como explicou e bem Harari, existem vários exemplos disso, como a conspiração dos judeus no centro da ideologia Nazi. A obsessão de Hitler com os judeus e a retórica que tinha sobre este grupo foi um dos pilares que permitiu a sua subida ao poder. A retórica de que os judeus controlavam o sistema financeiro e produtivo global, e que era por isso que os alemães estariam a sofrer. Era uma cabala global que tinha de ser impedida.
Seria importante mergulhar um pouco no modo de atuação destes movimentos. A maneira como funcionam é quase esquizofrénica, porque se contradizem constantemente. Tal acontece porque navegam de acordo com as oportunidades momentâneas que se apresentam, e não com algum traço ideológico ou estratégico definido. O interesse próprio é muito importante para serem demasiado rígidos. Uma falsa perceção acerca destes movimentos é que são extremamente ideológicos, mas, na verdade, são muito flexíveis. Irá depender da real oportunidade que os diferentes acordos ou decisões oferecem, e isso é observável em vários momentos da história dos regimes nacionalistas, comunistas, fascistas, nazi, entre outros. Acordos que foram feitos mesmo com forças completamente antagonistas, como por exemplo, um dos mais famosos, o acordo entre a Alemanha nazi e a URSS comunista de Estaline. Fazia sentido na altura, mesmo que o comunismo fosse a principal ideologia que Hitler queria se livrar da face da terra (e considerando que o espaço vital geoestratégico da Alemanha seria o leste ocupado pelos povos eslavos, tidos como inferiores). Claro que os alemães poucos anos depois acabariam por invadir a URSS na mesma, com a operação Barbarossa.
Em Portugal (e não querendo criar especial paralelismo com qualquer outro movimento mencionado), conseguimos observar ao vivo e a cores essa atividade esquizofrénica, com o Chega. André Ventura contradiz-se quase semanalmente, não porque se esquece do que disse anteriormente, mas porque naquele momento seria o caminho mais eficaz para atingir o objetivo. É verdade que políticos realizam compromissos com outras forças partidárias, mesmo que opostas. No entanto, aquilo que é referido é uma mudança abrupta de ideais e estratégias, sob forma de pactos ou acordos com forças completamente opostas ao movimento.
Uma outra característica comum é a descredibilização total do sistema político vigente. Essa é a razão para ser sempre mencionada uma total mudança de regime, tanto nos seus programas políticos apresentados, como quando atingem o poder. A nova forma de funcionamento dos seus sistemas normalmente está associada a medidas fraturantes. Os seus programas pretendem modificar constituições com estas medidas, porque estes prosperam principalmente com a divisão para reinar. Por tal, estes novos sistemas estão sempre ligados à expulsão, exclusão, diminuição ou marginalização de algum ou alguns grupos de pessoas, classes, etnias ou raças. O endurecimento das novas constituições resulta sempre em atrocidades, porque criam sociedades mais violentas, menos permissíveis. Aconteceu em qualquer regime que se caracteriza com estes parâmetros.
Por último, referem-se sempre como símbolos da democracia e amantes da liberdade. Adotam quase uma novilíngua (George Orwell), com contradições. Por exemplo no caso de regimes comunistas, é utilizada muito a palavra democrático nas designações dos países, apesar de não o serem. Movimentos nacionalistas, que se dizem defensores das respetivas constituições nacionais, apresentam constantemente propostas legislativas inconstitucionais. O significado das palavras não é o mais importante, mas sim o seu objetivo final, que é a deturpação para fins políticos. É outra forma de disseminar ainda mais o caos e a confusão.
Como se sabe, as pessoas procuram estes movimentos alternativos quando as diferentes soluções chegadas ao centro começam a falhar. O tipo de sociedade que a maioria das pessoas pretende, normalmente não está ligado com movimentos como o alt-right ou o nacionalismo extremado. Esta razão seria suficiente para a não proliferação destes movimentos? Não.
É necessária uma reforma ao centro quando a confusão e o caos começam, e acima de tudo, é necessária uma população bem informada. É aqui que uma maior regulação da internet também entra, no que toca a desinformação e as conhecidas fake news. No fim do dia, é a razoabilidade e a informação credível que devem imperar.








