Alergia Breve

Alergia breve. É sempre a mesma coisa. Todos os anos, Primavera alta e Verão baixo, lá vem ela.

Breve, gostaria que fosse. Este ano, parece o romance quase homónimo de Virgílio Ferreira, Alegria Breve. Nunca mais acaba. 275 páginas. Ou dias.

A alergia breve começa pelo pingo doce. Presumo. Ainda não o provei. Um após outro, o pingo vai empapando lenços de papel, a devastar hectares de eucaliptal. Seca a terra. Seca o rechonchudo que me abriga.

A seguir, vem o espirro tonitruante. Uma ventania saída da alma. Revolve a atmosfera. Infinitas gotículas suspendem-se da nuvem gigantesca. Diz quem sabe e arma zaragatas, perdão, zaragatoas. Só existe dentro de mim e que só eu tenho o dom de a produzir. Não sou só eu. Há outros.

A alergia este ano não é breve. É um fenómeno naso-atmosférico persistente e devastador. Não se faz anunciar.

Inicia-se com subtis cócegas remotas que se insinuam por dentro. Do fundo do narigal, ganha volume um princípio de ciclone. Depressa se converte em fornicoques. Apropria-se do caixote toráxico. Todo o corpo estremece em sucessivos abalos telúricos. Descontrola-se. Explode num cogumelo gigantesco, quase imperceptível à vista desarmada, tonitruante ao ouvido. ATCHIM… ATCHIM!… Parece uma saudação em japonês vernáculo. Antes fosse.

Ai a minha coluna! O meu disco rígido de abominação põe-me a gritar contra o mundo! Está aqui o malvado, entre a L4 e a L5, a dizer-me com cinismo irritante – cá se fazem, cá se pagam!

Estará a referir-se aos pesos que carreguei? Às flexões acrobáticas em cama elástica? Aos saltos em prancha dos Três Ursos para a água salgada? Às argolas que o saudoso Fernando Silva me obrigava a fazer para encher os peitos? Estes mesmos que agora parecem de ama de leite que amamentou quinhentos bebés de leite, abandonados na roda dos expostos? Não sei, não.

A bomba de urânio sobre Hiroxima ao pé disto quase parece um espirro. Os fascistas japoneses temeram-na e assinaram a rendição incondicional que pôs fim à segunda guerra mundial. Faz hoje, a 2 de Setembro, três quartos de século. Parece que foi ontem. As vítimas de Hiroxima e Nagasaki foram quase todas civis.

Sinto-me como o protagonista de Alegria Breve, de Virgílio Ferreira. No fundo do quintal (sim, chamar jardim a um quintal é bizarria de novo teso, a armar em velho rico), Jaime Faria enterra a sua mulher debaixo de uma figueira. E com ela a esperança num mundo melhor. Vê a sua aldeia definhar, a desaparecerem os habitantes.

Dizia, há pouco que há outros. Não sou só eu. Um vizinho também tem os mesmos acessos telúricos. Nunca o covidei para casa. Mas o senhor, coitado, do alto da sua varanda muito próxima, tem as mesmas explosões em japonês vernáculo. ATCHIM… ATCHIM!… As mesmas tonitruâncias. Os mesmos cogumelos invisíveis.

Ignoro se o senhor já armou zaragatoa no seu narigal. Espero que sim e que esteja asséptico. Como eu e as minhas, felizmente, em casa. Merecemos a boa vizinhança. E não vizinhança em unidade de cuidados intensivos. O Diabo seja cego, surdo e tudo.

A visão que Jaime Faria tem é muito bela. Mas é um olhar existencialista de um mundo que vai desaparecer. Eu gostaria de manter a minha esperança. Não me está a apetecer ter como destino enterrar a minha mulher ao fundo do quintal. Depois de mim, claro. Ela não o merece. Muito menos eu que nunca armei zaragatoas em parte alguma. Nem no quintal, nem na rua, e gosto da gente.

Continuo a sair açaimado para não me verem o pingo doce. Nem ouvirem o espirrar triste e, por ora, inexistente.

Mas os tempos são preocupantes. Tantos meses resguardados e há pouco saídos para a liberdade, estaremos de novo condenados a alegrias breves e alergias duradouras? Tenhamos juízo.

Os negacionistas da pandemia não andam longe dos fascistas que, em nome da liberdade, a sufocaram. Tal como fizeram os países do Eixo, Alemanha, Itália e Japão, até ao fim do horror da segunda guerra mundial.

Os Ventureiros deste mundo, que estão cada vez mais a levantar a cabeça, gostam de chafurdar nas debilidades da democracia, no ‘estou-me a cagar’ da ignorância, nas trevas da amnésia colectiva. Cuidado com eles.

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