Gaitinhas

A contagem das laranjas era feita pelo Gaitinhas, que sabia os números todos até mil, segundo afiançara Sagui, o que causava a admiração dos companheiros.
Esteiros (1941), Soeiro Pereira Gomes

 

João da Fonseca, o Gaitinhas dos Esteiros, tem 91 anos e vive num lar de idosos em Vila Franca de Xira, não muito longe de Alhandra. O senhor João da Fonseca sofre de uma das formas de demência, denominada de doença de Alzheimer. Conversa com as funcionárias da instituição de solidariedade social, com os outros utentes e com os familiares, principalmente com um neto, professor na margem sul, que o visita com assiduidade, por vezes em francês, numa rememoração dos tempos de emigração.

O senhor João, como é conhecido no lar, recorda vivências da sua meninice, apesar de nunca ter sido menino, e interroga, frequentemente, todos aqueles com quem interage, se a sua mãe ainda está doente. O seu pai permanece ausente nas suas recordações. O neto descreve que, do que conseguiu apurar, o seu bisavô Pedro da Fonseca, passou pelo Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, nos anos trinta, acabando por desaparecer na clandestinidade e morrer em quarenta e nove, com quarenta anos de idade. Do que conhece, o avô nunca conheceu o seu, dele, pai. Mas, conta, com um sorriso no rosto, que o seu avô voltou a estudar, já em adulto, terminando o ensino básico.

Por vezes, o senhor João fica, em permanente silêncio, olhando as imagens, sem som, da televisão da sala de convívio, em que jovens africanos, alguns ainda crianças, mareiam, no mar mediterrâneo, em botes acarretados de vida e de sonhos, em busca de destinos europeus. Emociona-se, não se sabe se é a presença do mar, um imenso rio; da miséria, como uma humidade permanente que nos tolha os corpos; ou dos sonhos de liberdade e de justiça. Nestes momentos, esboça um pequeno sorriso, sinónimo de contentamento, e diz, numa frase entrecortada, que eles vão fugir, desaparecer. Revive a sua vida de jovem invisível pelas ruas de Lisboa e, mais tarde, em terras de França.

As notícias televisivas, na leitura dos jornais, exibem as projeções da população portuguesa para o ano 2100, com um título deveras altissonante: «Em 2100 estes 23 países vão ter menos de metade da população. Portugal é um deles» (DN/Lusa, 15 de julho de 2020). Como a inferência estatística é impotente para prever o futuro. Numa população mundial com mais de 9 mil milhões de pessoas, em 2100, como seria plausível que em Portugal, acreditando nas atuais condições de habitabilidade, a população diminuía para metade?

Quantos filhos, netos e bisnetos destes homens e destas mulheres que atravessam hoje o mediterrâneo viverão como cidadãos portugueses de pleno direito nesta extensão de terreno que se convencionou chamar Europa, que se convencionou chamar Portugal?

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