Em crise pede-se amor, requere-se amor, compaixão (nada tem que ver com caridadezinha), por nós e pelos outros.
Trata-se de dar e estar ao serviço, e só conseguimos fazer isso se olharmos para os nossos próprios medos, reconhecermos quais são, e seguir agindo com a vulnerabilidade de um coração aberto, disposto a dar, apesar dos medos e receios identificados.
A pergunta primeira, aquela que se coloca antes de sermos completamente engolfados pelas notícias que saem em catadupa – sem nenhuma novidade quanto a descobertas específicas, apenas entorpecimento mental que se aloja no corpo e requisita congelamento do espírito – é: Quem sou eu relativamente à situação presente?
Somos capazes de estar presentes com o que sentimos? Sem querermos consumir seja o que for – dos chocolates às notícias? Sem querermos fugir porque há qualquer tarefa que requer urgência – nem que seja a de calar a ansiedade e os receios?
O que é que eu sinto e quem sou eu enquanto ser humano, pessoa, nesta situação? Posso permitir-me tomar consciência, para então depois acercar-me mais para fora e relacionar-me com as circunstâncias mais externas, colectivas, globais?
Estar no centro do furacão sem consciência é enrolar-se nele, não há ponto focal, não há capacidade de observação, de indagação, de questionamento, o que há é reacção, reactividade. Sem presença consciente não há raízes que ancorem qualquer visão possível de um presente-futuro desenvolver-se. E para se ser presença consciente é necessário cultivar observar momento-a-momento, não viver nas experiências do passado, não avaliar o presente à luz do passado. Para se cultivar presença consciente é necessário principalmente estar-se aberto e disponível, com a vulnerabilidade que isso requer para o que se passa aqui-e-agora.
A fragilidade posta a nú da nossa interconectividade e interdependência requer que olhemos para nós e para os outros, as nossas limitações individuais e colectivas, com reverência e humildade. E requer depois que cuidemos de as superar, de as fortalecer, de seguir um caminho em que o mais fraco do colectivo é muito mais reconhecido, muito mais amparado, tem acesso a muito melhores condições do que até agora. É assim que sabemos que os nossos alicerces são fortes e que os embates não atacam mais uns em detrimento de outros.
Se voltamos a conversas divisórias – seja porque que questão e em que campo for – é porque as soluções apresentadas não acompanham, não reconhecem e nem respondem ao que nos está a ser pedido.
Está espelhado pelos países mundo fora que é a acção através do coração, de estar disposto a dar, que tem permitido agir e superar esta crise. Não tem sido a economia, nem os grandes grupos económicos – que pedem que Governos afora salvem os números. Aliás, praticam o querer receber, dar não é muito a sua política.
Tem sido a colaboração cívica, as pessoas que se juntam para conseguir arranjar material que os hospitais não têm (porque os governos já não investiam em necessidades básicas e mínimas), para suprir as dificuldades dos serviços, para ajudar os vizinhos que vivem sozinhos e não podem ir às compras, as empresas e as pessoas que as constituem que continuam a trabalhar fazendo face às necessidades do momento, e claro também a colaboração de entidades governamentais – muito em parte pelas pessoas que aí trabalham incansavelmente – que não se limitam a ser instituições!, etc. Devia haver uma economia baseada no coração e não na finança. Mostram os factos que é a humanidade que aí reside no coração que faz a diferença.
Talvez seja verdade que aprender a criar é o maior desafio do homem. E neste caso criar um lugar que beneficie todos e todas.





