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Formação de Públicos- “A compaixão e a educação são as únicas vacinas para a humanidade”

Terra Ruiva
Última Atualização: 2020/Jun/Ter
Terra Ruiva
6 anos atrás
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“A compaixão e a educação são as únicas vacinas para a humanidade” – Júlio Resende (pianista)

Num mundo em que a vida, de todo o tipo, continua a ter tão pouco valor, é fundamental fazermos tudo para que as nossas crianças cresçam com o consumo de bens culturais e não apenas com o consumo de bens materiais.
Nem todos temos a sorte de nascer em famílias de elite, onde os bons livros, a boa música, a História, a Arte e a Filosofia fazem parte da educação diária. Então, está nas nossas mãos, enquanto pais, avós e Escola e, como já referi noutro texto e aqui sublinho, nos meios audiovisuais, a responsabilidade de estimular a formação de públicos amantes da Cultura. E isso, na minha opinião, surge ainda antes do nascimento. Deve começar ainda no ventre da mãe o escutar de sons de qualidade: música, histórias, pensamentos felizes…
Muitas vezes desvaloriza-se o subconsciente das crianças. Deveríamos dar-lhe muito mais atenção. A criança absorve tudo, o bom e o mau. É nossa responsabilidade proporcionar-lhe mais estímulos elevados do que primários. Como vão ser melhores do que nós e lutar por uma sociedade melhor, se não forem estimulados a pensar e a sentir o Outro e a Natureza?

Na minha opinião, é fundamental proporcionar às crianças e aos jovens situações que os levem a questionar o que a família e os pares reproduzem. Aí entra a Escola. Pretendemos uma escola para todos? Então, porque se limitam as visitas de estudo, penalizando os professores que ainda as pretendem fazer, e com encargos para as famílias? Não seria melhor uma escola onde, ao longo dos anos de escolaridade, os alunos – todos – fossem conhecendo o seu país, o que nele se faz de melhor ao nível das Artes Performativas, Arquitectura, Museus, Oficinas de Escultores e Pintores, em vez de consumirem só e apenas o lixo que lhes é imposto pela rádio e pela televisão em busca de audiências fáceis?

Não nasci numa família que me levasse a concertos ou ao teatro. Educaram-me o melhor que puderam, naturalmente, acima de tudo na honestidade e na lealdade, mas não na Arte. Essa bebia-a da televisão e dos livros: das transmissões dos concertos de Karajan, dos documentários sobre a vida e obra de grandes compositores; das óperas com a grande Callas e dos bailados com os imensos Nureyev e Margot Fontain ou Barishnikov; do teatro com Amélia Rey Colaço – “As Árvores Morrem de Pé” – ou Ruy de Carvalho, Eunice Muñoz, Fernanda Borsatti e tantos outros; de programas que eram pura poesia, como o de Vitorino Nemésio, João Villaret, Ary dos Santos ou Natália Correia; a introdução aos desenhos animados com Vasco Granja e ao cinema por António Lopes Ribeiro; filmes dos mais conceituados realizadores, como Sydney Pollack, com “They shoot horses, don’t they?” (Os cavalos também se abatem), de 1969, clássicos como “As Vinhas da Ira”, enfim… qualidade! Qualidade à qual não se podia ficar indiferente, qualidade que marcava o crescimento, que criava avidez por mais e melhor! E, acima de tudo, formava-nos na compaixão, no respeito pelas dores de todos, no saber olhar para o lado, para o Outro.

A televisão era dirigida por pessoas cultíssimas que prestavam um serviço público de imensa qualidade, porque eram pessoas de grande qualidade.

Hoje, nos audiovisuais, mandam os shares, manda o dinheiro. Que eu saiba, shares e dinheiro não são pessoas, não são seres pensantes nem sensitivos. São números… Somos comandados por números…

As pessoas de qualidade desapareceram? Não creio. O problema é que pouco podem fazer, face a quem lhes paga o vencimento.
Não há hoje uma programação com um objectivo a longo prazo, ou seja, com o objectivo de formação de públicos.
Telenovelas onde a maldade impera, programas como os “Big Brother”, que perpetuam a realidade social em todo o seu primarismo e limitação cultural; os mesmos filmes, repetidos, vezes sem conta, nos três canais de maiores shares; os desenhos animados com uma mensagem moral básica no meio de imensa violência, violência e violência!

Pesquisando a página Nova Expressão – Planeamento de Media e Publicidade, podemos observar que, no mês de Março de 2020,os programas mais vistos na RTP1 foram o Telejornal, o Preço Certo e Especial Estado de Emergência; na SIC, Isto é Gozar com Quem Trabalha, o Jornal da Noite e as telenovelas; na TVI, o Jornal das 8 e as telenovelas.

E depois temos a RTP2, o oásis, com um share entre os 11 e os 13% e sem um único programa ou filme entre os mais vistos de todos os canais.
O que podemos ver na RTP2? Concertos com as melhores orquestras e maestros do mundo; documentários sobre Natureza ou novas tecnologias, por exemplo; bailados; teatro, Shakespeare; séries de todo o mundo, à excepção das americanas, de uma qualidade inexcedível e sobre temas reais do mundo real, sobre aqueles que não aparecem nas revistas sociais mas que mandam efectivamente no mundo; óperas; programas de poesia e de cultura geral; um telejornal de meia hora, com excelentes analistas, onde não se cultiva o voyeurismo ou o sangue de faca e alguidar… Enfim, uma programação cuidada, inteligente e de grande qualidade, MAS… para um público já culturalmente formado e discricionário, velho. Quantos jovens verão a RTP2?
Será que os jovens, com o confinamento, sentiram verdadeiramente a falta de programação cultural? Sentiram falta dos teatros, dos cinemas, dos concertos…? Os protagonistas, sim, sentiram a falta de trabalho, da pior forma possível, sem apoios, sem respeito pelo seu trabalho. Nós, os mais velhos, sim, também sentimos muita falta!

E os jovens, terão sentido falta da Cultura?
Deixo-vos a interrogação…

Texto: Paula Villares Pires

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