PÁGINA ABERTA: Recordando Bento de Jesus Caraça

RECORDANDO BENTO DE JESUS CARAÇA

Ainda a propósito da comemoração do 25 de Abril e da conquista da Liberdade, recordo um grande democrata, humanista e cidadão de projecção nacional, o Prof. Bento de Jesus Caraça, cujo nome tem sido injustamente esquecido, no decurso da espuma dos dias.

Essa admiração estende-se ao Professor catedrático de excelência, na regência da cadeira de Matemáticas, assim como ao democrata, pensador, pedagogo e ao homem de ideais elevados e de carácter.

Alguém que, desassombradamente, afrontou o regime do Estado Novo.

Alguém, cujas origens humildes o atirariam, como mais um, para engrossar as fileiras dos deserdados do futuro, apesar das extraordinárias capacidades de que deu mostras, logo em criança, não fora a patroa do pai ter antevisto nele o que poderia vir a ser e ter tomado em mãos os encargos com a sua educação.

É em alturas como a que acabámos de celebrar, no passado dia 25 de Abril, que mais recordamos os lutadores, que sempre viveram no cinzentismo salazarento, sem nenhum outro horizonte perante os seus olhos que não fosse a entropia cada vez maior da nossa sociedade, num caldo de cultura, em que, mesmo como cristão e crente, é forçoso que aponte o dedo acusador à Igreja Católica do tempo, como conivente com o regime que oprimia, perseguia, prendia e torturava os que ousassem pensar diferente da cartilha oficial.

Por essas razões, mais se lamenta que lutadores, como Caraça e outros não tivessem tido a oportunidade de fruir aquilo por que sempre se bateram e que temos, hoje, como um bem inestimável, a Liberdade, cuja árdua conquista muitos jovens actuais desconhecem, por suporem que ela é um mero atavismo inalienável do ser humano.

Não é exactamente assim e, por vezes, temos de lutar arduamente para que no-la seja restituída.

Uma coisa é algo dever ser, como direito, outra, bem diferente, é o que, por vezes, os tiranos ou regimes totalitários, sejam eles quais forem, não querem que seja.

Bento de Jesus Caraça foi um filantropo, no sentido mais nobre do termo, e um humanista de referência, que, à sua vocação de docente de excepção, fruto de uma inteligência brilhante, juntou a intervenção como cidadão, na exigência dos seus direitos.

Como lutador que foi, inspirou-nos e ensinou-nos que, no sonho, poderemos encontrar forças, que jamais sonháramos ter :

“As ilusões nunca são perdidas” – escreveu.

“Elas significam o que de melhor há na vida dos homens e dos povos.

Benditas as ilusões e a adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer.

Sem ilusões, nada de sublime teria sido realizado, nem a catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven, nem a obra imortal de Galileo.”

 

O prof. Ruy Luís Gomes chamou-lhe o “Grande Mestre e Educador da juventude”, facto que revela o quanto o Prof. Caraça era respeitado pelos seus pares não amestrados pelo regime, aqueles que com ele compartilhavam a visão de que os resquícios imobilistas da Escolástica aristotélica do “magister dixit”, ainda presentes na nossa Universidade, teriam de ser extirpados por pertencerem a tempos idos.

Foi contra este passadismo e imobilismo que Bento de Jesus Caraça sempre se rebelou, procurando transformar as nossas Universidades em Centros de Investigação e verdadeiras escolas de trabalho intelectual.

Ele foi um precursor da ligação da Universidade ao pulsar vivo da sociedade do seu tempo, abominando elitismos de torres de marfim.

Nesta sua visão pedagógica, os alunos deixaram de ser meros receptáculos passivos da matéria dada, para passarem a ser, eles próprios, agentes dialécticos da docência, colocando questões, num dinamismo intelectual que confluiria no desenvolvimento do pensamento.

Diz mais o prof. Ruy Luís Gomes que Bento de Jesus Caraça sacrificou tudo aos seus ideais, desde a cátedra – de que foi afastado –, até às exigências da sua saúde precária, jamais abdicando dos seus grandes valores morais, como inteireza de carácter, sentimento de solidariedade e coerência de princípios, de que nos deu a melhor lição de vida.

“O exemplo do Prof. Caraça pertence ao património moral da nossa pátria e jamais o povo português o deve esquecer” – termina aquele catedrático.

Costuma dizer-se que o mais difícil é tornar fácil e acessível à compreensão de todos o que possa ser complicado de entender para alguns.

Foi o que fez Bento de Jesus Caraça, através da Biblioteca Cosmos, por ele criada e dirigida, que constituiu um marco no, então, deserto cultural vigente no país e em cujo âmbito publicou, de sua autoria, os seus célebres “CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA MATEMÁTICA”, numa linguagem que se esforçou por ser entendível por todos, mesmo para os menos letrados, aos quais, especialmente, dirigiu esta colecção de obras.

A Biblioteca Cosmos levou ao prelo muitíssimos outros títulos, assinados por outros autores, sobre diversos ramos do saber, com que o Professor Caraça, sempre na mesma toada de simplicidade, pretendia levar o conhecimento às classes populares mais desfavorecidas e a preços perfeitamente acessíveis, em que o objectivo do lucro não existia, de todo.

Um dos autores, na Biblioteca Cosmos, com os títulos “Ciência Hermética” e “O Embalsamento Egípcio”, foi o eminente cientista, pedagogo e pensador Rómulo de Carvalho, que todos conhecemos, como poeta, sob o pseudónimo de “António Gedeão”, de pérolas, como a “Pedra Filosofal” e “Lágrima de Preta”.

O Prof. Rómulo de Carvalho era de ascendência algarvia e foi coevo do Prof. Bento de Jesus Caraça (Bento nasceu em 1901 e Rómulo em 1906).

Uma das incursões literárias mais notáveis de Rómulo de Carvalho, facto que prova o seu fôlego de criador, foi a continuação de “Os Lusíadas”, do nosso Poeta maior, através da composição do XI Canto, a par de uma vasta bibliografia de divulgação científica, de cariz pedagógica, muita dela, na área da Física e da Química.

Entre outras escolas, na sua juventude, foi aluno no, então, Liceu Gil Vicente (à Graça), em Lisboa, onde eu haveria de vir a fazer os meus exames de Alemão e Latim, nos anos 60.

Curiosamente, conheci, nesse dia, o cantor angolano Rui Mingas, de quem fiquei amigo, que viria, mais tarde, a ser embaixador de Angola em Portugal e também lá estava para ser examinado a Alemão. Memórias de um tempo em que eu procurava juntar os cacos de algo irrecuperável, porque tudo tem um momento próprio …

Em meados da década de 30, dez anos passados sobre a instalação da segunda República (1926), Portugal despertava para a investigação científica, tal com ela já era praticada desde algumas décadas, no resto da Europa, isto é, na sua ligação ao tecido empresarial.

Um grande número de investigadores que havia realizado formação no estrangeiro regressara a Portugal, dando início a um movimento de renovação da ciência portuguesa.

São disso exemplos o Centro de Estudos de Física da Faculdade de Ciências de Lisboa e o Instituto Bento da Rocha Cabral.

Porém, a política cultural do Estado Novo não promovia a difusão do conhecimento científico, visto que a mentalidade dominante a tolhia e a desmotivava.

Respigo aqui algumas espantosas afirmações transcritas pelo Prof. Rómulo de Carvalho (1986) na sua História do Ensino em Portugal, que nos dão uma ideia da mentalidade oficial que imperava, no campo da Educação:

“Em 1927, a escritora Virgínia de Castro e Almeida, defensora do regime, recentemente instalado, em 1926, considerando que existiam, então, em Portugal 75% de analfabetos, escrevera, no jornal ‘O Século’ :

A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75 por cento de analfabetos”.

Em alusão aos rurais, que aprenderam as primeiras letras, pergunta a escritora, e responde: “Que vantagens foram buscar à escola?

Nenhumas.

Nada ganharam.

Perderam tudo.

Felizes os que esqueceram as letras e voltam à enxada”.

 

João Ameal, escritor e historiador muito cotado na época, deixou escrito:

Portugal não necessita de escolas (…)

Ensinar a ler é corromper o atavismo da raça.

 

Foi neste cenário de acentuado fechamento ao conhecimento que um conjunto de intelectuais portugueses, de que sobressaiu o Prof. Bento Caraça, animou o movimento de difusão cultural que a Biblioteca Cosmos corporizaria.

A informação e a cultura jamais rimaram com despotismo e tirania, razão por que Salazar sempre procurou manter o povo no mais completo obscurantismo e na mais degradante ignorância para os governar do mesmo modo que o pastor conduz, bovinamente, o seu rebanho.

O recrutamento dos quadros dirigentes para as altas funções políticas ou para as grandes empresas era exclusivo do reduzido universo das grandes famílias, independentemente do valor dos escolhidos, quantas vezes mais do que medíocre.

Foi contra este estado de coisas que Bento de Jesus Caraça sempre se bateu, através da criação da Biblioteca Cosmos.

No âmbito daquela colecção, foram publicados 114 títulos, com uma tiragem global de mais de um milhão de exemplares, sobre os mais diversos ramos do saber, divididos por sete secções :

1 – Ciências e Técnicas

2 – Artes e Letras

3 – Filosofia e Religiões

4 – Povos e Civilizações

5 – Biografias

6 – Epopeias Humanas

7 – Problemas do Nosso Tempo

 

Será aliciante passarmos os olhos sobre a história das origens de Bento de Jesus Caraça, de que aqui deixo um breve resumo.

O seu percurso de vida foi, felizmente, uma excepção à segregação a que estavam votados todos os que não fossem filhos de famílias abastadas.

 

Nasceu, em 1901, em Vila Viçosa, filho de trabalhadores agrícolas.

Era uma criança frágil de saúde, que a família temia perder.

Viveu os primeiros cinco anos da sua vida na “Herdade da Casa Branca”, na freguesia de Montoito, no Redondo, onde aprendeu a ler e a escrever com um trabalhador, José Percheiro.

Cedo, revela excepcionais facilidades na aprendizagem, o que capta a atenção da D. Jerónima, a esposa do lavrador Raúl de Albuquerque, de quem o pai de Bento era feitor.

Sem filhos e fascinada por esta criança, propôs-se assumir os custos da sua educação, o que foi aceite pelos pais.

Faz o Ensino Primário, em Vila Viçosa, prosseguindo os estudos no Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém.

Parte para Lisboa com 13 anos para estudar no Liceu Pedro Nunes, onde conclui com distinção o ensino secundário em 1918.

Neste mesmo ano, matricula-se no Instituto Superior de Comércio, hoje Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) e, um ano depois, aos 18 anos, é nomeado 2º assistente pelo professor Mira Fernandes.

Ao mesmo tempo, dava explicações para poder custear os seus estudos.

No 2º. ano do curso, aos 19 anos, é já professor dos alunos do 1º. ano.

Licenciou-se com altas classificações em 1923, com 22 anos, passando a 1.º assistente.

Três anos depois, aos 26 anos, era nomeado professor extraordinário.

Aos 28 anos, em 1929, após concurso público e com altos louvores, chega a professor catedrático, o que dispensa palavras sobre a inteligência prodigiosa deste homem, cuja cátedra mantém, até 1946.

A sua carreira académica torna-se notória.

Leccionava a cadeira de “Matemáticas Superiores” – Álgebra Superior, Princípios da Análise Infinitesimal e Geometria Analítica.

Afirmou-se como professor rigoroso e exigente, tendo conquistado, a tal ponto, a estima e o interesse dos alunos, que chegavam a vir de outras escolas assistir às suas aulas, cujas salas se mostravam cada vez mais pequenas para tantos discentes, para quem Bento Caraça, mais do que o professor, era o mestre e eles, mais do que meros alunos, se sentiam como seus discípulos.

A sua serenidade, aguda inteligência, disponibilidade, bondade, afabilidade e tolerância exigente ficaram a constituir, para os que tiveram o privilégio de o ter tido como professor, uma saudosa memória, segundo afirma José Magalhães Godinho.

Permita-se-me, a propósito, um pequeno parêntese para deixar algumas breves pinceladas sobre como era a Escola Primária, durante o regime cinzento de Salazar. No seu seio, era impensável a existência de aulas mistas de rapazes e raparigas, como se os dois sexos estivessem condenados à separação perpétua.A própria zona de recreio, nos intervalos das aulas, era separada.

A segregação económica tinha igualmente os seus efeitos bem perversos, como Bento Caraça bem o constatou.

Eu, como milhares de tantos outros, vimo-los bem na pele, visto que, apesar de me sentir vocacionado, com manifesta apetência e vontade para prosseguir os estudos, após a (antiga) 4ª. classe, fosse em Humanidades, Matemáticas ou Ciências Físicas, tive de ficar pelo caminho, barrado pelo condicionalismo económico da minha família.

Pareço estar a ouvir ainda, terminada a 4ª. classe, a professora Umbelina fazer-me a seguinte pergunta afirmativa :

– “Então, agora vais continuar os estudos ? ! “.

– “Não vou, senhora professora, os meus pais não podem”- respondi, numa enorme tristeza.

– “O quê ? ” – atirou, num misto de surpresa e indignação.

– “Os teus pais que venham falar comigo ! “ – disse, num tom de quase ordem.

Os meus pais foram, mas nada se alterou …

 

Não é, por acaso, que sempre cultivei uma particular admiração pela figura do Prof. Bento de Jesus Caraça, por tudo o que ele representa. Em certa medida e sem me querer confundir com o seu enorme talento, projecto nele, com a devida humildade, o meu “alter ego”.

Sempre foi, em vários sentidos, uma das minhas principais referências, seja pelo seu amor à Liberdade, pelo lutador em prol da democracia, pelas origens humildes, assim como pela sua brilhante inteligência.

A actividade do Prof. Bento de Jesus Caraça estendeu-se muito além da docência.

Foi membro do Núcleo de Matemática, Física e Química, criou o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, fundou a Gazeta de Matemática e ajudou a constituir a Sociedade Portuguesa de Matemática, de que foi presidente da Direcção.

Finalmente, em 1941, publicou a sua obra já citada e mais emblemática : “OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS da MATEMÁTICA”, integrada na Biblioteca Cosmos.

Teve, mercê do seu alto valor, o mérito reconhecido internacionalmente, tendo mantido sempre a difusão da cultura e do conhecimento, junto das camadas populares, como uma das suas grandes paixões.

Bento Caraça era um apaixonado pelas viagens, dentro e além fronteiras, pelos grandes espaços e pelo contacto com a Natureza, não tivesse ele nascido, em pleno campo, em contacto íntimo com ela.

Muitas vezes, fazia os seus passeios sozinho, mas frequentemente acompanhado pelos amigos de sempre.

Um dos locais onde Bento de Jesus Caraça costumava passar as férias de Verão, nos anos 40, era, em Amarante, no paço familiar do seu grande amigo Teixeira de Pascoais, fazendo ambos, como Caraça tanto gostava, longas caminhadas, ao longo rio Tâmega.

Bento de Jesus Caraça jamais perdeu a memória das suas raízes.

A sua vida foi uma espécie de devolução generosa, como se a posição a que chegou lhe tivesse sido apenas emprestada.

A cultura, segundo ele – alguém que veio do povo profundo –, era um bem que deveria ser adquirido por todos, como modo de se conquistar a Liberdade.

Ninguém é um ser livre, se estiver preso, dentro de si mesmo, pela ignorância.

Ser culto eleva-nos, alarga os nossos horizontes e faz de nós cidadãos mais conscientes e reivindicativos dos nossos direitos.

Era este o móbil de Bento de Jesus Caraça para os mais humildes.

Perseguindo esse objectivo, sustentava :

“O que não deve, nem pode ser monopólio de uma elite é a cultura.

Essa tem de reivindicar-se para a colectividade inteira, porque só com ela pode a Humanidade tomar consciência de si própria”.

“A Voz do Operário”, conhecida e histórica colectividade lisbonense, de longas tradições democráticas – em cujas Assembleias Gerais dos Bancários tomei parte, antes do 25 de Abril –, foi palco para várias conferências de Bento de Jesus Caraça, em cujos temas, ao mesmo tempo que pugnava pela emancipação cultural do indivíduo, nunca perdia de vista a sua condição de parte constitutiva do colectivo.

Na Universidade Popular Portuguesa, profere a famosa conferência “A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso tempo”.

Excerto desta sua conferência :

“O trabalho de submissão, de lamber de botas, da parte das chamadas camadas intelectuais, tem sido duma perfeição dificilmente excedível.

( … ) Os mais excelsos nesse mister são frequentemente aqueles que, partidos das camadas ditas inferiores, se guindaram, em acrobacias de palhaço, a posições que deveriam utilizar para defesa dos bens espirituais e que só usam para trair os seus antigos irmãos no sofrimento”.

Estas foram palavras duras, mas ditas serenamente, como era seu timbre, nessa sua conferência.

Colaborou também nas revistas Técnica, Gazeta da Matemática, Seara Nova, Vértice, Revista de Economia e em vários jornais. No início dos anos 30, faz várias conferências, muito participadas, dirigidas especialmente à juventude, que ainda hoje são editadas e lidas.

Defensor da Liberdade, que, definitivamente, não existia, por estar agrilhoada pelo regime salazarento, Bento de Jesus Caraça interessou-se também pela “questão feminina”, além de incentivar a intervenção das mulheres na sociedade.

Quando, em 1943, onze raparigas se matricularam no ISCEF, apesar de o sistema de coeducação ser proibido pelo regime, apoiou a criação de um núcleo cultural por elas formado.

Nunca faltou a uma palestra e jamais as abandonou sem trocar impressões com as oradoras.
Sempre consciente do mundo que o rodeava, empenhou-se, juntamente com outros intelectuais portugueses, na luta pela paz no mundo.

Por Portugal, passava uma rede de apoio aos prisioneiros dos campos de concentração nazis e Bento Caraça é um dos organizadores desse movimento.

Bento de Jesus Caraça aderiu ao Partido Comunista Português, em 1932 ou 33, onde a sua acção foi moderadora e consensual, reflectindo o temperamento de democrata, para quem a liberdade de pensamento era algo intocável.

Terá sido decisivo para esta sua adesão o encontro com Bento Gonçalves, no Sindicato dos Arsenalistas. Foi a partir daquela data que principiou, de um modo mais sistematizado, a sua luta pela causa da libertação das massas populares.

“Um pensamento que não passe à acção ou é aborto ou é traição” – escreveu ele.

Literariamente, embora não fosse a sua área, Bento Caraça filiava-se no Neorealismo, cujas obras de cariz telúrico, como “Fanga” de Redol ou “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes ou ainda “Cerromaior” e “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca, foram suas referências.

“Falar-se de Bento de Jesus Caraça – diz José Magalhães Godinho – é fazer a história da luta pela Liberdade e da resistência à ditadura fascista salazarista, no período que vai do começo da década de 30, até quase ao final da de 40, visto que pode dizer-se que não houve movimento de unidade antifascista, em prol dos ideais democráticos e progressistas, que não contasse com a sua destacada colaboração, a que só a sua morte, em 1948, veio pôs termo.”

Salienta mais José Magalhães Godinho que “a persistência do seu apostolado na Universidade Popular Portuguesa, de que foi a alma e notável impulsionador, assim como as suas conferências e demais colaborações, tiveram um papel da maior relevância e de extraordinária influência na educação política da sua geração e das que se seguiram.

Para os que ingressavam nas Universidades, o nome de Caraça significava o de alguém que era portador de uma mensagem que importava ser ouvida e meditada.”

O seu protagonismo político ganha mais relevância com a participação no Movimento de Unidade Democrática (MUD), uma espécie de “filho” do anterior Movimento de Unidade Nacional Antifascista, (MUNAF), o qual, entre 41 e 49, teve importante papel na luta conta a ditadura, cujo Conselho Nacional fora presidido por Norton de Matos e de que fazia já parte Bento de Jesus Caraça.

Tinha sido na própria casa de Bento Caraça, na Rua Almeida e Sousa, que, em princípio de 1944, o general Norton de Matos dera posse à Junta Militar Revolucionária do MUNAF.

Dos 40 membros que compunham a Comissão Nacional do MUNAF, faziam parte, entre outros, além de Bento de Jesus Caraça, Álvaro Cunhal, Ruy Luís Gomes, Fernando Piteira Santos e José Magalhães Godinho.

O MUD terá resultado da iniciativa de um grupo de advogados democratas e antifascistas, que costumava reunir-se no Café Portugal, no Rossio, que, aproveitando a vitória dos Aliados, no final da Segunda Guerra Mundial, resolveu redigir um documento, em que era apresentada ao Governo uma proposta de reunião com as forças da Oposição, para que se pudesse discutir a situação de Portugal, depois da guerra.

Este movimento contou com uma enorme adesão popular e reclamava “liberdade de reunião, de associação e de imprensa” e “garantia de seriedade no acto eleitoral”.

Aproveitando o levantamento da censura, que ocorreu durante um período de quinze dias, a imprensa fez-se eco, abertamente, dos propósitos do MUD, dando origem a uma crescente onda de entusiasmo e a um movimento cada vez maior, em todo o país.

Perante tal ameaça, o governo de Salazar ordena a prisão de todos os elementos da Comissão Central do movimento – que, entretanto, haviam saído do anonimato – e a sua dissolução, com o pretexto de evitar a perturbação da ordem social.

Bento de Jesus Caraça, tal como muitos dos membros deste movimento, foi preso, na prisão do Aljube, em Lisboa.

Na antiga Prisão do Aljube – nome que, curiosamente, em árabe, significava “a cisterna” ou “o poço” –, sita na Rua Augusto Rosa, um pouco acima da Sé de Lisboa, funciona, actualmente, o “Museu do Aljube, Resistência e Liberdade”.

Muito perto, um pouco mais acima, no Largo de São Martinho, antes do belo Miradouro das Portas do Sol, sobre a casaria de Alfama e todo o amplo estuário do Tejo, situa-se a antiga Cadeia do Limoeiro, a que o povo chamava simplesmente “O Limoeiro”, que foi, nos séculos XVII, XVIII e XIX, antes da construção da Penitenciária, na Rua Marquês da Fronteira, a cadeia central de Lisboa.

Nesta antiga Cadeia do Limoeiro funciona, hoje, o Centro de Estudos Judiciários, onde são formados os magistrados do Ministério Público.

Ainda sobre o breve período de levantamento da censura, como, acima, refiro, sabe-se, hoje, que essa suspensão momentânea da censura não passou de uma armadilha cavilosa montada por Salazar, por altura do MUD, com o propósito de iludir uma falsa abertura do regime para trazer à luz do dia e identificar os democratas mais activos para, depois, os punir, das mais diversas formas, fosse com despedimentos – como aconteceu com os Professores Caraça e Mário de Azevedo Gomes, que foram afastados das funções docentes, em 1946 –, fosse com prisão e tortura.

Entre 1946 e 1947, numa segunda leva, dezenas de outros professores universitários portugueses foram expulsos, no seguimento destes dois primeiros afastamentos.

A propósito das Presidenciais, que haveriam de ter lugar em 1958, tenho bem presente a passagem, por Messines, do Dr. Arlindo Vicente, como candidato às mesmas, onde mobilizou toda a terra com o empolgante discurso que fez, no largo fronteiro à fachada principal da Igreja Matriz, sobre a viatura em que se fazia transportar e rodeado por uma multidão de conterrâneos nossos, que vivamente o ovacionaram, na esperança da mudança do regime.

Esperança que se viria a esfumar com a monumental fraude eleitoral, que distorceria, com um roubo descarado do regime, a mais do que clara vitória que a Oposição obteve.

O Dr. Arlindo Vicente viria a desistir, antes do acto eleitoral, a favor do General Humberto Delgado. As Presidenciais de 1958 haveriam de ser as últimas feitas por sufrágio directo, tal o susto que o regime apanhou, face à espantosa adesão popular, em favor do candidato da Oposição, General Humberto Delgado, cognominado pelo povo como o “general sem medo”, que seria, mais tarde, torpemente, assassinado pela PIDE, como vingança de Salazar.

Todas as eleições para a Presidência da República, até Abril de 1974, passaram a ser feitas, no seio da dócil e amestrada Assembleia Nacional de deputados, designação, ao tempo, da nossa Casa das Leis.

Uma figura com a dimensão cívica e ética de Bento de Jesus Caraça, ostensivamente sempre ao lado das camadas mais humildes e dos desfavorecidos, teria, inevitavelmente, de vir a gerar confronto com o Estado Novo e levar a que fosse atirado para as masmorras do regime, prisão que agravaria o seu já frágil estado de saúde.

O advogado Dr. Palma Carlos interveio, denunciando, publicamente, esta situação, acusando a PIDE de procurar matar o Professor, exigindo a sua libertação.

Saído da prisão, prossegue a luta. A sua expulsão da actividade lectiva acarreta-lhe dificuldades económicas.

Dá explicações em casa, como modo de obter alguns proventos, e não pára de estudar e de escrever.

Porém, a saúde do seu coração, que já não era boa, acaba por traí-lo, dois anos depois, em 1948.

O seu funeral, para o Cemitério dos Prazeres, constituiu uma impressionante manifestação silenciosa de pesar colectivo.

Um imenso mar de gente acompanhou Bento de Jesus Caraça à sua última morada, o que levou Mário Soares a afirmar que nunca viu tamanha multidão num funeral, no tempo da ditadura.

Segundo uma testemunha, ninguém falava e o silêncio era absoluto, ouvindo-se, apenas e tão-só, o matraquear cadenciado dos passos daquele mar de gente, numa prova do sentimento geral de perda daquele grande cidadão e homem de bem.

Espalhados por entre a multidão, os sinistros agentes da polícia política vigiavam …

Não foi impunemente que Bento de Jesus Caraça foi sempre um nome incómodo para o regime salazarista.

Enquanto vivo e lutador, Bento de Jesus Caraça arriscou tudo, generosamente, em prol do povo e na luta pelo derrube do regime : saúde, liberdade, profissão e bem-estar.

Foi condecorado, a título póstumo, em várias ocasiões, pelo Governo Português.

É-lhe atribuída a seguinte frase, que pode, perfeitamente, constituir uma norma de vida :

“Se não receio o erro é porque estou sempre disposto a corrigi-lo” .

O legado deixado por Bento de Jesus Caraça, como lídimo pedagogo que foi, muito mais do que político, “tout court”, deixou respostas a perguntas que uma qualquer criança poderá fazer :

– “O que é um homem culto ?”

– “O homem culto é aquele que :

Primeiro : Tem consciência da sua posição no Cosmos e da dignidade inerente à sua condição como ser humano, em particular, na sociedade a que pertence.

Segundo :  Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da sua vida.

 

Existem duas figuras, entre as quais encontro profundas semelhanças : o Prof. Bento de Jesus Caraça e o Capitão Salgueiro Maia.

Desde logo, pela sua entrega total à causa da Liberdade, assim como pelo seu perfil de cidadãos generosos e íntegros, que nunca pediram para si benesses, visto que a melhor recompensa por que lutavam era que os Portugueses viessem a ser livres e ficassem a salvo de que, pela calada da noite, um qualquer esbirro do regime lhes viesse, cobardemente, bater à porta …

Ambos eram filhos de famílias humildes do Portugal profundo, nas quais beberam os valores, que eram, então, passados de pais para filhos e ambos, lamentavelmente, também nos deixaram bem mais cedo do que mereciam.

Cada um a seu modo, são duas grandes referências, com quem podemos aprender a ser melhores cidadãos.

Bento de Jesus Caraça ensinou-nos com o seu exemplo de vida que a Liberdade é como uma planta, a cuja saúde e bom estado carece que estejamos sempre atentos, porque pode murchar ou, mesmo, eventualmente, morrer …

Só depois, tragicamente, quando já não houvesse remédio, poderíamos dar pela sua falta.

Porque digo isto ?

Primeiro, porque, desde sempre, me habituei a pensar, a longo prazo.

Segundo, porque, para os lados do Extremo Oriente, se perfilam fumos silenciosos, imprevisíveis e insidiosos, que, até 2049 – foi já afirmada essa intenção –, poderão alterar muita coisa, à escala planetária, desde logo, em termos da supressão e condicionamento da nossa Liberdade.

O país em causa aprovou um Orçamento Militar faraónico.

Não é certamente para atirar aos pardais.

A usurpação abusiva de zonas marítimas territoriais de outros países do Sudeste asiático para construção de zonas e aeroportos militares tem sido uma constante, além de que vai, paulatinamente, comprando posições, em todo o globo., donde jamais sairá.

Já cá não estarei para lutar com a minha fraca participação, porém, enquanto for vivo farei a minha parte, porque todas as ditaduras, sejam elas quais forem e tenham a cor que tiverem, se tocam nos extremos e condicionam sempre a autonomia do nosso pensamento.

Foi esta lição que o Prof. Bento de Jesus Caraça nos deixou e pela qual sempre se bateu, como condição primeira e última para se ser livre.

Foi a memória deste homem que achei por bem revisitar, ainda no âmbito das comemorações do 25 de Abril, uma vez que mais nenhuma outra homenagem e prova de respeito lhe poderia prestar.

Texto: José Domingos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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