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Editorial

Falemos de pobreza

Paula Bravo
Última Atualização: 2019/Dez/Sex
Paula Bravo
7 anos atrás
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Nesta época de sininhos a tocar, músicas natalícias, apelos aos bons sentimentos, e estímulos brutais ao consumismo, o Instituto Nacional de Estatística (INE) entrou em contramão para nos desassossegar com as estatísticas da pobreza.
E diz-nos que, em 2018, existiam em Portugal 2,2 milhões de pessoas em situação de pobreza e risco de exclusão social, mais de um quinto da população. Inquieta-se quem lê estes números, quem imagina em cada número uma pessoa. Ainda assim, esta é uma estatística positiva, o número de pobres tem vindo a baixar e o rendimento das famílias a aumentar, desde que a troika saiu do país.

A questão que nos pode iludir nesta trajetória positiva é uma simples: qual a definição de pobreza? De acordo com os escalões nacionais, são oficialmente pobres as pessoas com rendimentos mensais inferiores a 468 euros, ou um casal com filhos dependentes com rendimentos até 982 euros por mês. Ora o INE diz-nos que, no ano passado, havia 11% de trabalhadores a ganhar menos de 501€. Conhecendo a realidade dos salários no país e do custo de vida, percebemos facilmente que existe, e está a aumentar, uma nova categoria de pobres, composta por pessoas que têm emprego mas que não conseguem fazer face às despesas do dia a dia.

Toda a vida ouvi dizer que os baixos salários em Portugal se devem a uma espécie de fatalidade, que aparentemente não se consegue alterar: a baixa produtividade. Mas um estudo do Instituto Sindical Europeu, citado há dias no jornal Expresso, afirma que “os aumentos salariais na União Europeia (de 2000 a 2016) teriam sido 4 vezes maiores se tivessem refletido os aumentos da produtividade”!… E em Portugal, a situação ainda é mais escandalosa: “ Houve em Portugal, neste mesmo período, uma redução média dos salários na ordem dos 3%, face a um aumento de produtividade de 10%” !….
Poderia ser irónico se não fosse um assunto tão sério, com tão graves repercussões na vida de tantas pessoas.

Acredito que a pobreza nos nossos dias é não só conveniente, como também alimentada por vários grupos da nossa sociedade, que vão desde a uma determinada faixa do patronato, a instituições de solidariedade com práticas duvidosas. E por pessoas quiçá bem intencionadas. Ou que pensam que o são. Recordo uma crónica de uma escritora de renome em que esta falava sobre os natais de infância, quando a mãe e as tias, oriundas de boas famílias, se deslocavam a casas de pobres para fazerem a sua caridade. E de como retiravam uma sensação prazeirosa da existência daqueles “seus” pobres, que lhes permitiam ser “boas” e “caridosas”.
Uma sensação semelhante a que muitas pessoas experimentam quando entregam o seu saco de supermercado com os alimentos para famílias (mais) carenciadas?

Ajudar quem tem menos é um princípio que não renego mas quanto melhor seria questionarmo-nos sobre as razões da existência da pobreza. E agirmos contra elas.

É necessário mudar de paradigma. A riqueza de um país e da sua população não se atinge com subsídios, apoios sociais, solidariedade. Ajuda – as transferências sociais permitiram uma redução da pobreza em 5,4 pontos percentuais, diz o INE – mas não resolve. O que resolve são salários dignos, adequados às necessidades e que respondam às exigências de uma vida decente.
No Portugal que quer a modernidade, 34,7% das pessoas vivem em agregados familiares que não têm capacidade financeira para suportar uma despesa inesperada; 6,6% não consegue pagar rendas; 19,4% não tem capacidade para manter a casa aquecida; muitos não têm rendimentos para pagar uma semana de férias fora de casa.
A resposta a esta exigência/necessidade de combater a pobreza e elevar os rendimentos do trabalho a um patamar digno e recompensador é das mais importantes na sociedade atual. A crescente pobreza e dificuldades entre os trabalhadores tem sido o rastilho de muitos dos protestos que temos visto, por aqui e além fronteiras. Minorar e resolver as desigualdades sociais é uma condição essencial para a sobrevivência da democracia.

É Natal, é Natal…guardemos um espaço para a família, os amigos, a partilha, a bondade. Mas sem esquecer que só a justiça social pode salvar a humanidade.
…
Aos nossos colaboradores, leitores, anunciantes e amigos desejo um Bom Natal.

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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