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Editorial

Tolerância

Paula Bravo
Última Atualização: 2019/Jan/Seg
Paula Bravo
7 anos atrás
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Começa o ano de 2019 com uma discussão acesa acerca da entrevista feita na TVI a Mário Machado, conhecido neonazi. Perante a indignação de muitas pessoas e entidades, entre as quais o Sindicato de Jornalistas, veio aquela estação defender a entrevista argumentando que todas as opiniões devem ser respeitadas e que defende a liberdade de expressão.
Poucos valores são mais preciosos do que a liberdade de expressão, pela qual tantas pessoas deram a vida e lutaram durante séculos, numa batalha que está longe de estar ganha em muitos pontos do globo e até aqui em Portugal.
Mas Mário Machado é um cidadão condenado por vários crimes, como discriminação racial, coação agravada, detenção de arma ilegal, danos e ofensa à integridade física, difamação, ameaça e coação a uma procuradora da República. E o mais grave: foi condenado por envolvimento no assassinato de Alcindo Monteiro, cidadão português de origem cabo-verdiana, espancado até à morte, no Bairro Alto, em Lisboa, apenas por ter a pele de cor diferente.

Por que razão se dá tempo televisivo a um homem com este currículo? A quem pode interessar a sua opinião?
Pergunto-me ainda: será que todas as opiniões têm o mesmo valor e quando expressas devem ser respeitadas da mesma forma?

Não posso esquecer um filme que vi há muitos anos, em que um pedófilo condenado regressava à sua terra natal. A esse homem, depois de cumprida a sua dívida com a sociedade, como dizia o personagem, era-lhe concedido o direito de viver a sua vida. Mas para os moradores do bairro onde ele se instalara, a sua presença representava uma ameaça constante para as crianças que ali habitavam. E exigiam que fosse expulso da comunidade. Chamado a decidir, um juiz interrogava-se sobre o que fazer. Para a lei, todas as vidas têm o mesmo valor e todos devem ser tratados por igual. Mas a vida e os direitos de um pedófilo condenado poderiam ser colocados no mesmo patamar da vida e direitos daquelas crianças? Há vidas mais válidas do que outras? E como/e quem pode determinar esse merecimento/reconhecimento? – interrogava-se o juiz…

E até onde poderá/deverá ir a tolerância enquanto princípio de uma sociedade democrática onde os cidadãos se querem iguais em direitos e deveres?
Estas questões que parecem muito filosóficas mas que nos interpelam diariamente, necessitam de respostas não só urgentes mas também tanto quanto possível consensuais, para que sirvam de guião para a sociedade.

No nosso dia a dia, nas coisas mais pequenas, encontramos o reflexo destas questões, ainda que por vezes isso nos escape.
Muitos pensadores da atualidade têm chamado a atenção para o perigo que correm as sociedades tolerantes ao serem tolerantes com a intolerância. Nesse paradoxo, a intolerância instala-se, ganha voz e visibilidade, e começa a minar por dentro a sociedade tolerante, até colocar em risco os seus valores. Vale a pena pensar nisto. E recusar entrevistas a criminosos condenados que defendem valores e ideias que põem em causa a democracia.
…
Uma nota final e mais festiva, para dar conta da iluminação de Natal e animação da baixa da cidade de Silves durante esse período. A novidade, muito bem conseguida, da iluminação do Castelo e todos os novos elementos nas freguesias do concelho, ofereceram-nos um aconchego diferente… e mais quentinho… Mais uma vez se prova que pequenos gestos podem fazer muita diferença. Parabéns à Câmara Municipal de Silves.

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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1 comentário
  • Anabela Ravera diz:
    16 de Janeiro, 2019 às 14:48

    Concordo com o que escreveu.Até a tolerância tem os seus limites. Mário Machado tem o perfil dum bandido e não deve ter tempo de antena.

    Responder

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