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O destino a que escapamos

O miúdo era grande barra na escola primária. Os pais, camponeses muito pobres, consideravam fazer um enorme sacrifício para que o filho pudesse prosseguir os estudos. Cometeram o erro de perguntar a opinião ao lavrador, “ponha-o mas é a trabalhar!” disse este de imediato.
E o miúdo seguiu o destino da maioria dos meninos da sua cidade. Aos 13 anos foi trabalhar para uma fábrica de cortiça.
Lá de longe chegam imagens de meninos e meninas agrupados em jaulas, deitados no chão, separados dos pais. Em tudo iguais aos meninos e meninas que passeiam fora dessas celas. De diferente apenas o rótulo de “imigrante” e o facto de não compreenderem o que está a acontecer.
Emocionou-se a presidente da Câmara de Silves, Rosa Palma, na homenagem que há dias foi feita ao menino que teve de ir trabalhar, ainda criança. Relatava, nesse momento da sua intervenção, como o menino, então já homem, foi forçado a viver separado da sua companheira e filho, por viver na clandestinidade e depois por ter sido preso.
Precisamente no dia seguinte, cruzaram mundo as imagens da jornalista Rachel Maddow que, em direto na televisão norte-americana, não conseguiu ler até ao fim a notícia sobre as crianças imigrantes separadas à força da família, e irrompeu em lágrimas.
Entre o menino que só queria ir à escola e acabou preso por ser militante do PCP e lutador antifascista e os meninos e meninas que se deitam no chão, sozinhos e aterrorizados, há algumas décadas de distância.
Mas continua a haver meninos e meninas que não podem ir à escola, crianças a trabalhar, crianças escravas, exploradas, maltratadas. Crianças que nunca têm oportunidade de o ser.

Enquanto nos fechamos mais e mais em torno do nosso computador que nos põe em contacto com pessoas de todo o mundo, incluindo com os nossos familiares e vizinhos, receamos cada vez mais o outro. Com a rejeição e o medo construímos os patamares para a violência e crueldade.

Os alertas sucedem-se, vindos de vários sectores da sociedade. E muitos de nós não somos indiferentes a estas chamadas de atenção e estamos conscientes dos perigos que corremos se os valores fundamentais da nossa sociedade se desagregarem.
O que nos falta é ação. O menino que queria ir estudar queria também mudar o mundo, construir uma sociedade melhor. E por esse seu ideal foi preso, torturado e passou 17 anos da sua vida numa prisão.

O menino que foi preso pelo seu ideal só pode abraçar plenamente o menino seu filho após o 25 de Abril de 1974.

Nós, os que vivemos hoje incomparavelmente mais livres, em muito melhores condições económicas, sociais e culturais do que os meninos que eram forçados a ser homens nas fábricas, esquecemos muitas vezes, rodeados do nosso conforto, egoísmo e desumanidade, que aquilo que nos separa do menino de Silves ou dos meninos fechados em celas nos EUA, é apenas uma circunstância de vida. É o destino que não tivemos. O destino a que escapamos ao termos nascido noutro tempo e noutro espaço.

Não sei como terminar este texto de forma a que pareça que tem uma conclusão. Porque não pode ter. O mundo, já ouvi dizer, está nas mãos das pessoas comuns, pessoas como nós que só querem o melhor para os meninos e meninas. Cabe-nos a nós a revolta e a ação.

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