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Requalificação do Centro Histórico de Messines – Carta aberta à Sr.ª Presidente da Câmara de Silves

Noticiou o “Terra Ruiva” na última edição que a autarquia se prepara para levar a efeito um vasto conjunto de obras, consideradas estratégicas, de entre as quais a requalificação do centro antigo da vila de Messines.
Na verdade tal intenção não é recente, tendo mesmo amiúde integrado algumas promessas ao longo das últimas campanhas eleitorais. Em setembro de 2010, por exemplo, a presidente Isabel Soares, em entrevista ao “Jornal do Algarve”, já elencava como objetivo a supracitada intervenção. Meses antes, neste mesmo espaço, face às obras que se pré-anunciavam, alertávamos nós para as singularidades do centro histórico de S. B. de Messines e para a necessidade de uma requalificação criteriosa do mesmo (vide “Terra Ruiva”, n.º 105, de novembro de 2009).

O grés presente na zona mais antiga da Vila

Os centros antigos são hoje os espaços mais procurados pelos turistas em todo o mundo, basta folhear um guia turístico de uma qualquer cidade, em qualquer continente. Afinal ali se encerra a antiguidade e a identidade genuínas dessa comunidade, características que a distinguem de todas as outras. É justamente essa identidade, essas diferenças, que atraem os turistas, pois não só de documentos escritos se conta a história de uma localidade. Intervir num centro histórico é assim procurar um difícil, mas necessário, equilíbrio, entre preservar e honrar a memória de todos aqueles que nos antecederam e que habitaram aquela área, devolver-lhe a dignidade quase sempre escamoteada, e por fim, não menos importante, legar esse espaço, com a valorização de todos os seus atributos, às gerações futuras.

Tratam-se pois de intervenções complexas, num conjunto urbano fruto de várias vivências e do contributo de várias épocas, que deverão ser realizadas, impreterivelmente, por equipas pluridisciplinares, compostas por arquitetos, urbanistas, técnicos de património cultural, arquitetos paisagistas, arqueólogos, engenheiros, entre outros, sem esquecer uma ampla discussão pública, envolvendo toda a população, desde a elaboração do projeto à execução da obra. Só assim será exequível concretizar uma requalificação o mais digna e valorizadora possível do espaço intervencionado.
Nos últimos anos a maioria das cidades portuguesas viram requalificados os seus centros antigos, com intervenções distintas, que oscilaram entre o êxito e o desastre. No primeiro caso citam-se os exemplos de Guimarães ou de Óbidos, já no segundo, constituíram autênticas calamidades, na nossa opinião, os casos de Albufeira ou Lagoa.

O centro antigo de Messines remonta pelo menos ao século XVI, e envolve toda a área urbana, limitada entre o cerro do Penedo Grande e, grosso modo, as ruas Cândido dos Reis, largos da República e Pontinha, rua 25 de abril, e uma pequena parte da João de Deus.

No seu interior encerra, como monumentos principais, a igreja matriz, a ermida de São Sebastião, a Casa Museu e Casa Natal de João de Deus, a casa de Remexido, edifícios nobres e burgueses, e muitos outros, cada vez mais raros, de cariz marcadamente popular, por norma os mais antigos. O casco genético da vila, apesar de maltratado, exibe um conjunto vasto de particularidades de valor, como os já citados monumentos/ edifícios, além das calçadas, ou a singularidade dos afloramentos de grés de Silves, que o tornam único em Portugal, em suma, um pequeno e generoso diamante por lapidar.

Rua do centro antigo

Todavia, tal como em 2009, a prometida intervenção continua a causar-nos muita apreensão. Desde logo, depreendemos que seja o mesmo projeto concluído há mais de uma década, o que além de não ter considerado qualquer forma de participação pública, enferma ainda por não ter incorporado/corrigido os erros cometidos pelo Programa Polis no centro histórico de Silves. Onde não só não houve qualquer consulta à população, como a equipa não foi pluridisciplinar e quanto ao resultado final constituiu uma oportunidade perdida, que não se pode repetir, mais de dez anos depois, em Messines.

Está ainda na memória de todos e bem patente na malha urbana recente da vila, o corte da rua para a construção do pavilhão da Escola E.B. 2, 3, junto ao Lar da 3.ª Idade. Uma decisão desastrada que amputou desnecessariamente a mobilidade daquela parte do aglomerado, ao contrário do que aconteceu em Tavira, onde numa situação semelhante prevaleceu o bom senso, a rua não foi cortada e nem por isso o pavilhão deixou de ser construído.

A requalificação do centro antigo deve também ocorrer, em simultâneo, com a classificação de toda a área e consequente publicação do Regulamento de Salvaguarda e Revitalização do mesmo. Regulamento que deve contemplar as regras a adotar pelos proprietários, para que sempre que façam obras nas suas habitações preservem as especificidades daquela zona.

Fundamental é ainda a criação de estacionamento, por exemplo, através da aquisição de imóveis devolutos, como há muito faz a Câmara de São Brás de Alportel, naquela vila. Presentemente encontra-se à venda o velho centro de saúde, abandonado desde o incêndio de 1989, cujo quintalão permitirá criar um amplo e adequado parque de estacionamento, de apoio à ermida de S. Sebastião e a todo o centro histórico, uma oportunidade única que a Câmara Municipal de Silves não pode perder.

Por fim e não menos importante, o trânsito. É inqualificável que a igreja, uma das mais belas de Portugal, não seja observada de frente para quem circule de automóvel na vila. Não podemos ignorar que o património tem o potencial de atrair pessoas e de as fidelizar a um sítio, ou território e a magnifica cenografia da igreja matriz tem esse poder. Urge pois dotar a rua João de Deus com os dois sentidos de trânsito, situação defendida no passado pela atual maioria CDU, conforme atestam os programas dos consecutivos atos eleitorais, mas que persiste em não ser corrigida.
S. B. de Messines carece de uma intervenção e valorização do seu centro antigo, porém com uma verdadeira ambição e estratégia. Nesse sentido, aqui apelamos à intervenção da Sr.ª Presidente, para que os messinenses não tenham que lamentar mais uma operação desastrada na sua malha urbana, agora na área mais preciosa e sensível da vila. Estou certo que os messinenses não lhe perdoarão uma requalificação ruinosa, que hipotecará o futuro de S. B. de Messines e desaproveitará, aquilo que de mais rico os nossos antepassados nos legaram. As gerações do presente e do futuro impõem que o diamante seja lapidado, mas não destruído irreversivelmente. Esteja pois a autarquia ciente das suas responsabilidades.

Ps. Não posso deixar de felicitar o “Terra Ruiva” pelo seu 18º aniversário, sempre na defesa crítica e plural de um concelho mais próspero e equitativo.

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Um Comentário

  1. Manuela Correia

    Concordo plenamente. Não estamos habituados a pensar estrategicamente, mas aprende-se. Basta perguntar: o que queremos ver em Messines daqui a 5 anos, daqui a 10, 20 anos? Que recursos temos? Quais as prioridades? Quais os desejos e sonhos dos habitantes?
    Os ciclos eleitorais prometem. Quando ganham queixam-se da falta de recursos e dos “outros”. Os outros, eles, alguém foi responsável, menos os novos ou os mesmos ganhadores. E um dia, espanto dos espantos, temos o centro histórico de Messines a ser intervencionado e toda a gente a criticar. Quero acreditar que a Sra. Presidente será sensível aos reais interesses dos messinenses.

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