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Instrumental

Conheces a sensação de identificar uma canção através da sua música?

As canções, incluindo os fados, contam-nos uma estória (palavra controversa com a significação de narrativa) de amor, de amigo ou de mal dizer; as canções são pequenas estórias que se agarram à vida de cada um de nós e que, por vezes, são respiradas por uma comunidade, por um povo ou nação ou mesmo pelo mundo, nesta pequena aldeia global. Apenas uma melodia, o seu instrumental é suficiente para trautearmos a sua letra.

Aos primeiros acordos d’A Internacional, o meu cérebro reage com, De pé! Ó vítimas da fome, falhando logo no segundo verso (jamais me ocorre a palavra famélicos), reagindo mais tarde ao refrão, Bem unidos, façamos, / Nesta luta final. / Uma terra sem amos, / A Internacional!, ficando a entoar a melodia, sem letra, sem qualquer noção da dimensão do hino. A culpa é dos filmes que nos aguçam o apetite com as primeiras estrofes, mas raramente entoam todo o hino conhecido pela A Internacional. São instrumentais, hinos e canções, que se tornaram universais.

Mas existem igualmente músicas e canções que assumem uma dimensão nacional, por vezes, alastrando a outras paragens sociais e políticas, como, no nosso caso, a Grândola Vila Morena, letra que reproduzo com algumas hesitações, mas sem nervosismo. A Grândola transformou-se num hino político e assume uma importância capital, muito superior a qualquer outra canção do Zeca (Dr. José Afonso, como era nomeado nos seus primeiros discos de Baladas e Canções). Neste caso, é no último verso da terceira quadra, Terra da fraternidade, que o meu cérebro hesita e fica momentaneamente parado a pensar o que virá a seguir a Grândola, Vila Morena. Será que o cérebro quer refugiar-se na igualdade de cada rosto ou na sombra da azinheira?

Conheces alguma canção local que, como estas, seja facilmente reproduzida por cada um de nós? Hesito, mas não me ocorre nenhuma canção, para além das hipotéticas Silves Velhinha, muito próximo das baladas da despedida (com expoente máximo nas canções de Coimbra), ou Eia, Abu Bacre, Evocação a Silves de Al-Mutamid, como uma canção de saudade ou, ainda, o som do Corridinho Alma Algarvia (nem sei se existe alguma canção), com uma dimensão regional. O meu cérebro associa a Silves Velhinha, do castelo ao Arade, e à Evocação a Silves, a curva da corrente do rio.

Tenho tantas melodias no meu cérebro que me ocorrem músicas sem letras, Boléro de Ravel, e letras sem melodias, Vi-te a trabalhar o dia inteiro / Muita força p’ra pouco dinheiro (Que força é essa de Sérgio Godinho). A dimensão individual torna-se coletiva e a vontade coletiva molda-nos na individualidade. Recordo um episódio (uma estória) em que o marido de um casal de meia idade, ouvindo os primeiros acordes de uma música clássica, dizia para a sua esposa «Cheira-me a Vivaldi!», no caso uma das quatro estações de Antonio Vivaldi.

Com esta estória, desejo-vos um ano de 2018 cheio de história!

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