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Opinião

Talvez devagarinho

António Guerreiro
Última Atualização: 2017/Jun/Qua
António Guerreiro
9 anos atrás
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Na sociedade Comendador Vilarinho, a noite do Festival da Canção era especial. Em mil novecentos e setenta e um, lá estava eu a ouvir a Menina interpretada pela Tonicha, com música de Nazaré Fernandes e letra de Ary dos Santos. Lembro-me de ter assistido, na referida sociedade, ao Festival da Canção desse ano, acredito que na versão nacional, tinha oito anos, sentado defronte da televisão partilhada por todos, como se se tratasse de uma tela de cinema. Era o tempo em que ainda acreditávamos que poderíamos vencer o certame da eurovisão, talvez no próximo ano. Foi quase nossa a vitória da lusa descendente Marie Myriam, em representação da França, com a canção L’oiseau et l’enfant, em 1977, ainda respirávamos Abril. A cançonetista francesa teve honras de atuar no dia de Camões, de Portugal e das comunidades.

A minha meninice chegava ao fim e, em cada ano, acreditava e acreditávamos menos na possibilidade de vencermos ou convencermos a Europa com uma canção respirada na nossa língua.

Os meus interesses musicais emigraram para a música de intervenção social e política, descoberta numa conjugação de senhas e contrassenhas. O E Depois do Adeus, com música de José Calvário e letra de José Niza, na voz de Paulo de Carvalho, deu lugar à Grândola, Vila Morena, na voz radiofónica de Zeca (José Afonso), com letra e música do próprio. A Trova do Vento que Passa cantada pela voz do Adriano Correia de Oliveira, com letra de Manuel Alegre, significava para mim um novo olhar sobre um país que, aos meus onze anos, intuía mas desconhecia. Conhecia as músicas e as letras, desconhecia pessoalmente os cantores, ao entrar na universidade.

Na noite de 16 de outubro de 1982, estava em Coimbra, fiz uma paragem, no percurso entre a Clepsidra e a República Ninho dos Matulões, onde vivia, na casa de um amigo, que me informou da morte do Adriano aos 40 anos de idade. Pensei «Quem será este?». Esses tempos foram tempos de juntar os anos setenta (em que era um jovem menino) aos anos oitenta (em que era um jovem adulto). De imediato aderi, através da minha casa, à homenagem ao Adriano na Tomada da Bastilha de 82, no dia 25 de novembro. Foi uma noite inesquecível para todos, desafiamos uma academia, crescentemente social-democrata, homenageando um militante comunista. Os anos setenta acabaram para mim no ano de 82, com a morte do homem que cantara «morte que mataste Lira, mata-me a mim que sou teu». Nesse primeiro ano em Coimbra ainda vivi resquícios dos sonhos de abril.

Ano após ano, fui esquecendo o festival da canção e ainda mais o da eurovisão. Nos anos oitenta ainda o país seguia algumas canções que todos recordam, neste imaginário coletivo que nos faz ser um povo. A esperança de um dia convencermos a Europa era cada vez mais ténue, ninguém já acreditava numa vitória no Festival da Eurovisão. Inesperadamente, devagarinho construímos uma canção na nossa língua pátria, acreditamos na diferença e as capitais da Europa deram-nos os ambicionados doze pontos.

Como diz a canção Amar pelos Dois (cantada por Salvador Sobral, numa composição de Luísa Sobral), «talvez, devagarinho, possas voltar a aprender», a acreditar na hipótese de uma revolução.

Um amar por todos!

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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