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Habla del Silencio

Ofereceram-me uma garrafa do melhor tinto de Espanha do ano de 2014 pela Asociacion Española de Periodistas e Escritores del Vino que se denomina Habla del Silencio… (as reticências fazem parte do título). A caixa com a forma de um paralelepípedo, neste caso de um prisma quadrangular, é elegante em tons de branco e preto. Digo tons, porque verdadeiramente existem brancos que sobressaem no branco e pretos que não se afundam no preto. O nome deste vinho parece um contrassenso ao juntar duas palavras aparentemente incompatíveis, fala e silêncio. Descobri que não, num destes dias, numa rua deserta da cidade, por momentos, ouvi a voz do silêncio, com tal nitidez, que compreendi a inexplicável felicidade da solidão. O instante esfumou-se, tal como anteriormente despontara, mas em mim ficou um prazer infindo, do experienciar da fala do silêncio.
O reclame ao vinho anuncia Un vino de etiqueta … para diário, alertando para o uso diário deste com a refeição habitual em lugar da sua reserva para um prato especial ou para uma iguaria prazenteira. As refeições diárias podem inesperadamente tornarem-se alegres em sinal da imaginação resiliente dos humanos.
Rememoro um acontecimento, relatado por minha mãe, do tempo da segunda guerra mundial, aquando do racionamento dos bens alimentares, nomeadamente do pão. Como relata minha mãe, que vivia no campo, nessa época, naquela noite aparecera um homem que caminhava durante o dia e se abrigava à noite. O homem pediu-lhes para pernoitar no alpendre com os animais, junto à modesta casa de campo, moradia emprestada por uma tia-avó aos meus avós maternos e às suas três filhas. O homem agradeceu a hospedagem mas manifestou igualmente fome, sonhos por uma refeição adiada. A família ainda tinha uns carapaus salgados para a janta, naquela noite que haveria de se tornar festiva, mas faltava-lhes o pão, para enganar a fome e servir de cama aos carapaus alimados (o dicionário refere limado, peixe preparado com sal e temperado com azeite e limão). O homem perguntou ao casal se tinham batatas-doces para cozer. Responderam-lhe que sim.

Nessa noite, jantaram os carapaus alimados, deitados em fatias de batata-doce, imaginando o pão e naturalmente o vinho. O homem falou-lhes do silêncio dos caminhos.

Tal como o vinho de cada ano, os acontecimentos nunca se repetem com as mesmas tonalidades e os mesmos exatos sabores. Todos os anos existe algo novo, único e irrepetível como o vinho, mas a capacidade de imaginar e de sobreviver estará sempre presente em nós. Recordo o dia em que inventei a Pescada à Brás, muito antes dos cozinheiros de forno e fogão, inspirando-me naturalmente no Bacalhau à Brás. A pescada congelada inteira fornecida pelos Serviços de Ação Social às Repúblicas (em Coimbra) era praticamente incomestível, um dia ocorreu-me disfarça-la com as batalhas palha e o resto dos ingredientes do Bacalhau à Brás. Foi um sucesso, Pescada à Brás durante alguns meses, uma vez por semana. A imaginação fintou o mau aspeto das pescadas congeladas.
Habla, mas não fiques preso às aparentes inevitabilidades do dia a dia, ouve o silêncio e o que ele te diz, imagina tudo diferente, apanágio do ser humano.

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