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Síndrome do riso

Gosto da estética cinematográfica dos subúrbios mal iluminados, com prédios degradados e degradantes, com amontoados de lixo pelas ruas, com pichagens nas paredes, montras, transportes públicos, tudo está esteticamente pensado, no lugar certo, no grande plano da tela do cinema. O metro circula numa direção solitária, rasgando a cidade cinzenta de arranha céus, o autocarro transporta gente amargurada, preocupada com a sobrevivência diária, as ruas são a origem e o fim de tudo. Tudo começa nas ruas, tudo acaba nas ruas.

É neste ambiente de exaltação da degradação urbana que acontece o filme Joker, de Todd Phillips, que conta com o desempenho soberbo do ator Joaquin Phoenix, no papel principal, em que, numa normalidade aparente, o protagonista tenta alcançar notoriedade no mundo da comédia, apesar dos seus desequilíbrios psíquicos, da instabilidade profissional, agravada pela sua inexistência social, da coabitação com a mãe em demência, violentamente agarrada ao passado, da violência psicológica e física da sociedade. Um mundo idealizado na estética do cinema que nos retrata, nos afetos e nos desafetos, um sistema social em degradação que nos empurra com banalidade para o compreensível ato do homicídio dos outros, dos fazedores do mal, e do próprio. A pluralidade da morte transforma o espetador num homicida sem transtornos morais, sem remorsos futuros, em relação aos arquitetos desta sociedade de contrastes berrantes e aberrantes.

Um mundo de caos, uma desordem inestética grassa pelas ruas da grande metrópole, onde permanentemente surge um sopro de rebeldia, uma calçada transformada em paralelepípedos que voam, como armas de uma revolta social, estilhaçando as fachadas elegantes das multinacionais, os símbolos do poder económico e financeiro, os portadores e inventores da normalidade.

Estes rios de gente que desaguam nas ruas e nas praças trazem flores e raiva, trazem guitarras e memórias de canções antigas. Trazem o incómodo da revolta, os pensamentos de existência, a inevitabilidade dos palhaços.

O que ficou do riso, da excentricidade do riso, da síndrome do riso, que ironicamente, ou talvez não, se apelida de síndrome do homem anjo (angelman). Um sorriso permanente, expressão motora, uma face transformada em permanente delírio, um joker excluído da normalidade facial dos comediantes mediáticos, dos engravatados de sempre, dos comentadores das vidas banais, sempre sustentados na normalidade democrática.

E o riso?

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