No primeiro trimestre de 2026, os CTT registaram um lucro líquido de 4,5 milhões de euros. No ano passado, o lucro dos CTT ascendeu a 50,7 milhões de euros.
E não obstante…
E não obstante, os CTT tomaram duas decisões sobre os postos de atendimento que funcionam nas juntas de freguesia: reduzir o horário para metade e consequentemente diminuir o valor pago às juntas. No caso do concelho de Silves, estas medidas irão afetar os postos de São Marcos da Serra, Alcantarilha, Algoz e Pêra.
Se esta decisão, fortemente contestada pela ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias) não for revertida, as juntas de freguesia terão que optar: ou assumem a maior parte das despesas dos postos de CTT, nalguns casos o ordenado do funcionário destacado, ou têm de encerrar total ou parcialmente. Seja qual for a opção, a população destas localidades será sempre o elemento prejudicado. Ou porque tem um atendimento insuficiente, ou porque a sua Junta terá de desviar, para este serviço, verbas que tinham outra finalidade.
Na visão dos CTT não é compensatório manter, nos moldes atuais, postos que atendem uma média de menos de 15 utentes por dia. Mas, pelos vistos, não tem qualquer problema em deixar de assegurar o serviço postal às populações. Quiçá as mesmas que não têm multibanco porque não é rentável – na visão das entidades bancárias.
Em 2013, o governo do PSD, liderado por Passos Coelho, ouviu a Troika dizer que os CTT teriam de ser parcialmente privatizados. Na esteira do bom aluno e um pouco mais, executou uma privatização integral. O encerramento de muitos postos dos CTT, por todo o país, foi uma das consequências imediatas, colmatada pela instalação dos postos de atendimento em juntas de freguesia que agora se deparam com dificuldades acrescidas.
Um ano depois da privatização dos CTT, em 2014, foram alterados os estatutos da Algar, empresa que faz a recolha e tratamento dos resíduos no Algarve, para permitir a concessão da mesma a capitais privados. Como nestes casos o que conta é a satisfação dos acionistas, pois a responsabilidade pelo mau serviço prestado recai toda sob os ombros dos autarcas algarvios, é o que se vê. Do ponto mais recôndito do Sotavento ao mais recôndito do Barlavento, multiplicam-se as queixas das populações, reclamam alto e bom som – e publicamente – os autarcas, todos a braços com um problema que não têm poder para resolver e… a situação aproxima-se do ponto de explosão, com a ameaça iminente dos aterros sanitários no limite da sua capacidade…
Não é segredo para ninguém que quando Passos Coelho vendeu, em 2012, parte da rede elétrica nacional a uma companhia estatal chinesa, este foi apenas o início do processo em que o Estado Português permitiu que a maioria das empresas estratégicas ficasse sob o domínio de capitais estrangeiros. Na energia mandam os capitais chineses, nos aeroportos são os franceses ( o que faz de Portugal o único país da União Europeia que tem toda a rede aeroportuária sob controle de uma entidade privada estrangeira), nos portos dominam os capitais turcos. Não é exceção a banca, onde o domínio é exercido principalmente por empresas e fundos de investimento com origem em Espanha.
Talvez por a maioria das privatizações ter acontecido em governos do PSD, causou surpresa o anúncio do primeiro-ministro Luís Montenegro, sobre a criação de um fundo soberano destinado a “reconquistar” posições em sectores chave da economia portuguesa. Como o tenciona fazer, com que fundos, em que prazos ainda não é claro. Se se concretizar será um alívio para quem sente que não temos poder de decisão sobre empresas estratégicas para o desenvolvimento do país.
Ainda há dias, na Assembleia Municipal de Silves, uma deputada municipal, perante as queixas do Município sobre o mau funcionamento da Algar, perguntava, com ingenuidade. Se os municípios do Algarve estão insatisfeitos porque é que não deixam de pagar? Ao que a presidente da Câmara, um tanto incrédula, respondia: Mas se deixarmos de pagar, deixamos de poder entregar o lixo!…
Este pequeno episódio, não obstante a sua simplicidade, é bastante revelador. Fala da impotência que se sente quando se lida com empresas privadas que não têm de responder perante ninguém, ao contrário das empresas públicas que, apesar das deficiências que possam ter, têm como missão satisfazer as necessidades das populações e os seus dirigentes podem ser sujeitos a escrutínio.
Em nome do lucro, tantas vezes irrisório para as empresas que faturam milhões, não se pode deixar as populações para trás e abandonadas.








