Umberto Eco diz que existe uma misteriosa chama (que nos aquece e nos sobressalta) quando somos tocados por dentro.
Foi o que me aconteceu nos primeiros minutos deste novo ano de dois mil e vinte e seis ao presenciar o fogo de artifício da passagem de ano, em Silves. Não foram os fogos que me aqueceram e me surpreenderam, mas o facto de, pela primeira vez, salvo melhor memória, ter existido em Silves uma passagem de ano pública com a participação das famílias locais, desde os avós até aos netos, quiçá bisnetos. Numa dimensão pública, nos últimos (muitos) anos, talvez numa eternidade, a única manifestação de que me recordo eram as sirenes dos Bombeiros Voluntários de Silves a tocar pela meia-noite e algumas pessoas a virem à rua bater tachos.
A memória tem destas coisas, não conseguimos reproduzir com total precisão os acontecimentos vividos, mas existem momentos singulares ou coletivos que partilhamos, numa rede infinita de associações, renovados pelos acontecimentos mais recentes. Quando vemos um filme pela segunda ou terceira vez, recordamos a chama inicial que nos acalentou ou não, com um olhar de já conhecido, numa vontade de redescobrir uma nova versão do inicialmente visto ou reviver o ato inicial que já fomos, certos de que «não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas continuamente correm sobre ele» (Heraclito de Éfeso). O mesmo se passa quando relemos um livro ou ouvimos uma música que vagueava numa memória distante.
Algumas memórias sobrevivem, renascem, também em artefactos que, sem sabermos bem porquê, vamos guardando, na esperança longínqua de um dia fazerem sentido a alguém ou a nós próprios. Um dos artefactos guardados, por mim, é uma caderneta incompleta de transparências do Sandokan. Esta quase relíquia resultou do enorme sucesso da série televisiva de pirataria, exibida entre 1976 e 1977, ainda nas televisões a preto e branco, no único canal que existia no Algarve (a RTP2 só emitiu a partir de fevereiro de 1982). No final dos anos 70, em que deixamos de ser colonizadores de outros povos, as personagens do Sandokan, o tigre da Malásia, e do português, Yanez de Gomera, tornaram-se familiares e coletivamente queridos de diferentes gerações de portugueses.
Recentemente, uma nova série do Sandokan (baseada nos escritos de Emilio Salgari) foi exibida num dos canais de filmes e séries, com as mesmas personagens e enredos, se não iguais, muito similares aos anteriormente retratados. A luta pela dignidade dos colonizados, contra a barbárie dos colonizadores, continua presente, na série, e no nosso quotidiano, marcado pela ganância e pela fruição (ilegítima) das riquezas alheias.








