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História & PatrimónioSociedade

O Pelourinho de Silves

José Manuel Vargas
Última Atualização: 2015/Dez/Qui
José Manuel Vargas
11 anos atrás
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Reconstruído há cerca de 20 anos, o pelourinho de Silves é hoje um monumento tão familiar aos visitantes da velha capital do reino do Algarve que poucos se darão conta de que aquele símbolo da autonomia e jurisdição municipal pouco tem a ver com o pelourinho demolido em 1878 e quase nada com um presumível pelourinho manuelino que deve ter sido levantado depois da atribuição do foral de 1504.

A descrição mais antiga que se conhece do pelourinho de Silves foi escrita por Pedro P. M. Júdice, em 1911, na sua obra “Atravez de Silves, I Parte: Sé, Castello, Cruz de Portugal e Pelourinho”:

“Estava situado na actual praça do município, aproximadamente no vértice do ângulo que a sueste forma o rectângulo do actual passeio. Foi retirado desse lugar em 1878. Quando se fez a construção da estrada de Mac-Adam que vem de S. bartolomeu de Messines. (…) Consistia o pelourinho de Silves num pedestal quadrado de 2 metros de lado, sendo a parte superior de cantaria e a inferior de alvenaria. Tinha este pedestal três degraus. A coluna de cantaria, de secção quadrada, implantada verticalmente sobre esta base, apresentava-se como que deprimida ao centro de um lado e outro, e teria de altura 2,5m, não incluindo o capitel, que era também de cantaria, o qual poderia ter 30 cm de altura. No ponto de implantação do capitel havia quatro peças de ferro recurvadas e formando cruzeta, e cada uma delas era terminada por uma argola. Sobre o capitel estava uma coroa real, e sobre esta uma espécie de cutelo de ferro. (…) Há anos, os restos deste pelourinho foram levados para o museu arqueológico lapidar Infante D. Henrique de Faro, onde estão depositados, por conta da Câmara Municipal de Silves”

O depósito no Museu de Faro terá ocorrido depois de 1899, pois os restos do pelourinho não constam do pormenorizado catálogo do museu, editado nesse ano. Um inventário nacional dos pelourinhos, publicado em 1933, mencionava a existência do pelourinho de Silves no Museu de Faro, sem especificar que se tratava de fragmentos. E como havia uma foto da coroa de remate colocada sobre uma coluna, em Silves deduziram que o pelourinho estava completo e trataram de requerer, por diversas vezes, que fosse de novo entregue à câmara. Em resposta a esses pedidos, o conservador do museu (desde 1915) Justino de Bivar Weinholtz informava em 1944: “Em todas as ocasiões que a câmara pediu para lhe ser entregue o pelourinho, tem sido respondido que existem uns ferros e uma coroa real real que deve ser mais moderna e esclarece-se que a foto só pode ter sido da coroa sobre ma pequena coluna romana vinda de Ossónoba” e mostrava-se disponível para entregar os fragmentos à câmara de Silves (Voz do Sul, nº 1223, 1944).

Em data que não podemos precisar, os fragmentos foram finalmente devolvidos à câmara de Silves e a coroa de remate do pelourinho esteve vários anos em exposição no museu municipal, sem a devida identificação.

Quando se procedeu à reconstituição, considerou-se a descrição de Pedro P. M. Júdice, sem no entanto se observarem alguns pormenores:
– a coluna de cantaria era provavelmente uma peça única e certamente de lioz ou demármore, sendo muito duvidoso que fosse de grés;
– o fuste tinha uma reentrância a meio, ou por desgaste da pedra ou por vestígios de fixação dos ferros de sujeição;
– a plataforma da base era inteira de cantaria e não com moldura;
– sobre a coroa havia um cutelo de ferro, cuja reconstituição não se tentou fazer, apesar de se observarem os vestígios da sua inserção no topo da coroa e de haver outros pelourinhos com espigões e cutelos (Vila do Conde, Nisa, antigos pelourinhos de Coimbra e Cabeço de Vide).

Apesar dos reparos que se podem fazer à reconstituição, o pelourinho de Silves é um monumento único no Algarve, pois quase todos os outros da região desapareceram (Albufeira, Alcoutim, Alvor, Cacela, Faro, Loulé, Olhão, Portimão, Tavira) ou estão ainda mais incompletos (Aljezur, Castro Marim, Monchique), além de que o outro exemplar que chegou até nós, o de Lagos, é uma reconstituição pouco criteriosa e mesmo fantasiada.

Por outro lado a singularidade do pelourinho de Silves consiste no facto de não se conhecer outro caso de coroa real a servir de remate e de apresentar elementos de duas épocas distintas: o coroamento é do século XVIII (reinado de D. Maria I) e a cruzeta de ferros com ganchos e argolas é característica do séc. XVI e comum nos pelourinhos manuelinos.

Por tudo isso, o pelourinho de Silves, ainda que distante da sua versão ou versões originais, é um monumento raro que valoriza ainda mais o património da histórica cidade.

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PorJosé Manuel Vargas
Natural de Lisboa, nascido em 1948. Tem ascendência materna e paterna ligada às freguesias de S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra. Professor do Ensino Secundário ( aposentado), é investigador de história local e regional, com várias obras publicadas.
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