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Mulheres da Minha Terra (6)

Teodomiro Neto
Última Atualização: 2015/Dez/Qui
Teodomiro Neto
10 anos atrás
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A Senhora do Penedo Grande

Dona Adelaide. Outro nome não lhe conheci. Foi uma figura invulgar para o pequeno Povo de Messines, donde não era natural. Veio de Lisboa empurrada pelo amor de um jovem messinense que fora, na altura, capelão, onde o seu marido, Coronel, era comandante do quartel. Manuel, o jovem padre, arrastou a bela Adelaide, senhora, nos trinta anos, que tudo deixou, nesse impulso amoroso, para uma época muito especial da mulher portuguesa.

Basta consultar a revista, “Ilustração Portuguesa”, iniciada no ano de 1918, onde as senhoras, da considerada sociedade, aspiravam em ser independentes e escritoras de laivos românticos.

Adelaide, uma vez abandonada pelo jovem amante, ficou por Messines, onde se fixou numa modesta casa comprada pelo que restou das jóias vendidas. Assumida do seu acto: mulher que teve um caso.

Hoje, revejo a rua do Penedo Grande, neste novo topónimo, bem lá em cima, onde a rua, muito empinada, acaba, nesse piso rochoso, quanto irregular. Revejo D. Adelaide, restos de senhora muito fina e delicada, como o retrato que se mostrava sobre o leito de ferro. E ela sentada ao sol, abraçando flores, largo chapéu, no que se distinguia a senhora da mulher dos anos vinte, do século XX. Agora, ela, senhora do nada, ela, no terceiro poial, na sua pequena casa de uma só divisão, olhando infinitamente, pela chegada dos comboios, em fumadas brancas de vapor. Aguardava o comboio que a transportasse para o sonho perdido. Quiçá!

Consultando, hoje a citada revista “Ilustração Portuguesa”, onde despertavam os novos caminhos das paixões, encontramos nomes femininos que, em vésperas do Estado Novo, enfrentavam, não só a censura dos cafés pela Lisboa conservadora, como a ditadura que será severa, abominável, trituradora, para o novo século XX, que surgira, ainda de mentalidades do século XIX. E elas em modelos importados de Paris, Londres, em destinos não admitidos de sufrágios. Foi o tempo da poesia Sáfica, da revista “Aurora” que tanta tinta e calúnia fez a preparação para a revolução de 26. Por que digo isto? Que relação entre as “Sáficas” e dona Adelaide.

Lembro, dona Adelaide, nas nossas conversas ( ou nas dela) com o garoto que eu era, entrando nesse filme que, sem bem entender, me encantava. Falava-me da sua amiga Judite Teixeira, a poetisa maldita, que tanto influenciou o feminino do primeiro quartel do século XX, mostrando-me um livro que guardava, eu sem nada entender, a não ser aquela capa cinza e branca, de uma mulher jovem, muito bonita, de cara triste, acariciando um arlequim. “Poemas de Bizâncio”, 1926.

Dona Adelaide contava-me estórias que eu no tempo não entendia, mas que se arrastaram para a idade dos conhecimentos: a sua amiga Judite Teixeira, que incendiou a pacata capital de Portugal, avessa a qualquer movimento cultural ou científico e político, levara a que Marcelo Caetano que gostaria de vê-la queimada em fogueira de Santo Ofício, escrevendo na revista, “Ordem Nova” ( 1926), de a desavergonhada e mais além.

Era esse, o tempo de Dona Adelaide, quando ela me contava, num orgulho mundano, os bailados dos russos, em Lisboa, em 1917, na ditadura de Sidónio Pais. Os jovens intelectuais vindos de Paris, de cabeças poéticas e de Marinetti. E Dona Adelaide falando… falando desses bailados que vira no S. Carlos… Eram os sonhos que a mantinham viva, nesse romance abandonado pelo Manuel e perseguido pelo coronel, seu marido.

Dona Adelaide vivia decentemente na sua pobreza assumida. Tinha uma selecção de amizades e apoios, Lembro que nesse tempo a empresa Teófilo Fontaínhas entregava ao domicílio, arrobas de amêndoa, para trabalho caseiro, em que as mulheres descascavam e escolhiam o fruto ( a amêndoa), ganhando assim, alguns escudos, num orçamento familiar. As vizinhas ajudavam Dona Adelaide nessa tarefa. Ainda ela tinha mãos de fada, como minha Mãe afirmava, encomendando-lhe pequenos mimos, para as minhas irmãs, quando as visitava em Faro.

Dona Adelaide veio para Messines, no esquecimento do padre Manuel, em 1930 (?). Ficou por décadas na terra que escolheu para tudo esquecer. Messines soube respeitar aquela senhora que se enclausurou na subida para o Penedo Grande. Minha Mãe perguntava-me: Gostas de ouvir a dona Adelaide? Que sim, dizia. Era um despertar, do incógnito para o futuro. A velha Senhora morreu em 1957, pelo Natal desse ano, no hospital de Silves. Desconhecida, como viveu por Messines. Eu guardei-lhe as memórias. Judite Teixeira, a poetisa maldita, morreu pela Primavera desse mesmo ano, em Lisboa. Esquecida!

Hoje revivo dona Adelaide, sentada na sua cadeirinha de atabua, olhando, muito tranquila, do seu alto degrau, para o próximo comboio que chegasse, com um livro no regaço. Quantas vezes dormitando nos silêncios das vizinhas e dos moços que passavam e olhavam, nesse respeito criado pela presença da velha Senhora do Penedo Grande.

Ilustração: “Retrato de uma Senhora” – pintura de Edmund Charles Tarbell (1862-1944). Colecção privada

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PorTeodomiro Neto
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1938. Concluiu licenciatura em História e o doutoramento em "História Política Europeia". Professor universitário, em França, ( entretanto aposentado), tem colaborado com diversos jornais nacionais e regionais. Tem publicadas várias obras no âmbito da história regional, teatro e romance. Entre outras distinções recebeu a Medalha de Mérito Ouro da Cidade de Faro.
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1 comentário
  • José Calado diz:
    27 de Janeiro, 2016 às 23:04

    Conheci a Dona Adelaide, desde a mais tenra idade, era ela já uma senhora idosa. Para a criança que eu era, a sua vida constituía para mim uma aura misteriosa. Um dos meus espaços predilectos de brincadeira era o quintal da Bia Cabrita, a mãe da Aliete e do Vasco. Era como uma extensão da minha própria casa. Foi através desta família amiga, desta boa gente que tomei contacto com a mítica Dona Adelaide. Ajudavam-na regularmente com comida, que a Aliete lhe levava. A Bia Cabrita costurava para fora e, na pequena sala, onde um grupo de raparigas aprendia a arte da agulha, existia, na parede, uma retrato da Dona Adelaide. O chapéu emplumado que exibia, a distinção do vestido e o seu porte elegante traiam o que fora a sua condição. Recordo-me dos longos momentos em que me quedava, reverentemente, a observá-la. A sua evocação na minha memória remete-me para a Idade de Ouro das vidas de todos nós, a infância, e para os escaninhos poeirentos das nossas recordações.

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