Correm, por estes meses, 55 anos sobre a crise académica de 1969. Os acontecimentos puseram em polvorosa Coimbra. Inquietaram não pouco Lisboa, onde a estudantada também se agitava. O regime estremeceu. Não derruiu. Ainda era cedo.
Eu estava em Lisboa, a berrar contra a polícia, em uníssono com os milhares de colegas que se agitavam junto à cantina da universidade. Não interessa. Vou agora, sorrateiramente, presenciar os acontecimentos, na Lusa Atenas. Escondo-me na sombra do Xico Sardo. Aliás, Francisco José Beja da Silva Sardo.
Nestes tempos de escuridão, não o via. Muito menos o conhecia. Saberia depois que é muito mais velho do que eu. Caminha para os 23 anos. Eu nem chego aos 20. Só o irei conhecer pessoalmente, quinze anos depois, em 1984. Paris irá laçar-nos numa amizade vigorosa e perene.
A crise académica em Coimbra inicia-se no contexto da inauguração do novo edifício de Matemática, da Faculdade de Ciências da Universidade. 17 de Abril. 11 horas. É presidida por Sua Excelência o Senhor Presidente da República, o Almirante Américo Tomaz. Haja respeitinho por quem, já depois do 25 de Abril, José Vilhena chamará «cabeça de abóbora».
As cerimónias da inauguração são organizadas pelo Ministério das Obras Públicas e pela Reitoria da Universidade de Coimbra. Está previsto o descerramento de uma lápide comemorativa, no átrio principal do edifício, e uma sessão solene no anfiteatro Infante D. Henrique. Usarão da palavra o decano da Faculdade de Ciências, Professor Doutor Manuel dos Reis, e os ministros das Obras Públicas e da Educação Nacional, Rui Sanches e José Hermano Saraiva.
Alberto Martins, aluno de Direito e presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra, aceita o convite para assistir à sessão solene e integrar, após a inauguração, a lista de comensais ao almoço.
Dois dias antes, Alberto Martins, informara o Magnífico Reitor de que queria usar da palavra na cerimónia. Tal como o seu colega, o representante da «Junta dos Delegados de Ciências».
O reitor é taxativo. Impossível. O protocolo não podia ser mudado. Ele, reitor, ao usar da palavra, representaria a universidade e todos os estudantes. A resposta negativa provoca burburinho. A rapaziada começa a ficar comichosa.
Uma hora antes da sessão, centenas de estudantes reúnem-se na Sala de Convívio das instalações académicas. Decidem realizar uma manifestação frente ao edifício a inaugurar, apoiar Alberto Martins e apresentar algumas reivindicações.
Pouco antes da chegada do Chefe de Estado, Francisco Sardo, no topo da escadaria monumental que dá acesso ao largo, faz sinal com o braço. Centenas de estudantes começam a subir a escadaria e a concentrar-se à volta da estátua de D. Dinis, frente ao edifício de Matemática. Ostentam cartazes de papel com dísticos pouco convenientes para as autoridades. Entre muitos outros, EM PORTUGAL 40% ANALFABETOS / DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO /REINTEGRAÇÃO DOS PROFESSORES E ESTUDANTES EXPULSOS / EXIGIMOS O DIÁLOGO / … MAS A UNIVERSIDADE É VELHA, como se vê na fotografia em que Francisco Sardo está, de caderno em punho, a discursar.
Alguns estudantes estendem no chão as capas, para o Chefe de Estado passar sobre elas. A maior parte condena, com enormes vaias e assobios, o tradicional gesto de cortesia académica. Antes, já Francisco Sardo circulava por entre os estudantes, incitando-os a gritar «É malta, democratização, democratização!»
Na sessão, perante um auditório à cunha, Alberto Martins levanta-se e ergue a voz para falar. É-lhe recusada a palavra. Na mesa, o presidente Américo Tomás, tartameleia uns monossílabos, dando a palavra ao ministro das Obras Públicas. E, de maneira brusca, encerra a sessão.
À saída, a comitiva oficial é vaiada pela multidão de estudantes que decide fazer, de seguida, a sua própria inauguração. Está armada a “crise”.
Vários estudantes, na primeira linha, dão o corpo ao manifesto. Para além de Alberto Martins, Celso Cruzeiro, Carlos Antunes Baptista, Maria Fernanda da Bernarda, Osvaldo Sarmento e Castro, José Barros Moura, José Luís Pio da Costa Abreu. Fernando Catroga, Jacinto Palma Dias e Francisco Sardo estão permanentemente reunidos no Teatro da Faculdade a organizar os movimentos contestatários.
Numa das assembleias magnas, a 22 de Abril, no pátio da Universidade, Francisco Sardo discursa, afirmando que «o culpado de tudo fora o Reitor». Na Faculdade de Letras, os estudantes reivindicam a Sala de Teatro para «assembleias permanentes». Outros, organizados em piquetes, impedem a realização de aulas. A dirigir estes grupos destaca-se, também, o Francisco Sardo. Está sempre presente na mesa que preside às assembleias e escolhe os grupos para impedir a realização das aulas.
No dia seguinte, quando o professor Victor Aguiar e Silva se prepara para dar uma aula, verifica que as portas estão fechadas. Um numeroso grupo de alunos impede a frequência das aulas. Notório, pela forma como é escutado, que Francisco Sardo é o “seu guia”.
Abertas as portas, realiza-se uma assembleia no Teatro da Faculdade. Oito estudantes tinham sido suspensos. Francisco Sardo discursa sobre os acontecimentos e as reivindicações dos estudantes. É muito aplaudido. Vê-se que exerce, sobre os colegas “notória influência”. Quem o diz, e aponta o dedo a Francisco Sardo, entre outros, é o zeloso Ajudante do Procurador Geral da República, Dr. Manuel António Lopes Rocha. O instrutor do processo disciplinar académico que o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, manda instaurar transcreve, as palavras mais banais para esvaziar o seu conteúdo. Quis esconder que Francisco Sardo é um tribuno eloquente, torrencial, de verbo incendiário.
No dia 30 de Abril, José Hermano Saraiva, vai à televisão queixar-se da “onda de anarquia que tornou impossível o funcionamento das aulas”. Com canhestra inteligência dá a conhecer ao país a agitação dos estudantes que os jornais, a rádio e a televisão estão proibidos de noticiar.
A 6 de Maio a Universidade de Coimbra é encerrada, por decisão ministerial. O calendário de exames é mantido. No dia seguinte, a «Queima das Fitas» é anulada.
A 22 de Junho, numerosos estudantes de Coimbra deslocam-se a Lisboa para assistir ao jogo da Final da Taça de Portugal, em futebol. Trazem cartazes e distribuem panfleto sà população da capital. Tudo acompanhado de um coro ensurdecedor de palavras de ordem, berradas a plenos pulmões.
O Benfica quase estraga a festa e a luta dos estudantes. Ganha por 2-1. Eusébio é o verdugo do jogo. Marca o golo da vitória, já no prolongamento. O encontro não é televisionado. E, ao contrário das edições anteriores, o presidente Américo Tomás não está presente para entregar a Taça ao vencedor.
Em finais de Julho, a percentagem de exames boicotados é de 86,8%. A esmagadora maioria dos estudantes adere à greve aos exames. Os que a furam veem o seu nome inscrito em listas públicas de “traidores”. Durante os meses de Verão, a polícia faz dezenas de prisões. Os “traidores” não são incomodados. Conselhos dos pais, receios e bajulice são compensadores.
No início do ano lectivo, quarenta e nove activistas estudantis são incorporados no exército. No momento da despedida, na Estação de Coimbra B, gritam-se palavras de ordem contra a guerra colonial.
O tema ainda não integrara as reivindicações dos estudantes. Mas a partir desta longa jornada, segue-se o que em Lisboa já se fazia. De forma desabrida e a medo, avoluma-se a contestação à guerra colonial e ao regime. Começa a tornar-se claro que é imperativo pôr-lhes um fim.
Menos de cinco anos depois, tal irá acontecer. Os estudantes de Coimbra e Lisboa, e um pouco por todo o país, darão um precioso contributo para a agonia e morte do regime, juntando-se aos militares que fizeram o 25 de Abril.
Terminarão os seus cursos. Muitos serão figuras de grande relevo na vida política, académica, científica, artística, cultural. Sim. O Portugal democrático que ajudaram a reerguer, com luta e sacrifício, tem também enorme dívida para com a irreverência inteligente e criativa de uma juventude que também sabia levantar os olhos da sebenta e sentir o pulsar do mundo para mudá-lo.
Uma sombra. Ou duas. No ano de 1995, fogem, de si próprios e de mim, dois dos meus melhores amigos e, também, amigos entre si. O Zé Valente adiantara-se a 10 de Agosto, ao 43 anos. O Xico Sardo, a 4 de Setembro, oito meses depois de se doutorar, aos 49 anos. Nesta mesma madrugada, ainda estou com os vapores da festa do meu aniversário. Nenhuma notícia me chega a tempo de a interromper como seria devido.
O Zé e o Xico, ambos docentes da Universidade do Porto, deixaram-me encalhado em memórias acres e doces. E tolhido ainda numa mole indelével de tristeza e saudade.






