O Paulo Penisga quer conversinha. Da mansa. Numa bonita crónica, sobre um certo cinema e uma certa juventude, em Silves, exumou um certo passado.
Memórias pávidas, enquanto aluno, foram o pretexto. E, entre outras mais importantes, de um certo professor. Sei que me desculpam por me ater nestas.
O passado só é um lugar longínquo quando se aloja na terra ermada da deslembrança. Quando o esquecimento se faz esquecido nunca mais nos larga. O Paulo dele também é vítima.
Não sei o que lhe passou pela mona para meter um certo professor em intimidades, na prosa, com a Laura Antonelli. Sabe que só a viu a acender desejos no grande ecrã. Nunca no edredão. Felizmente não ousou deitar no leito da memória esse anjo fumegante, Sylvia Kristel, precocemente ido.
Para disfarçar a coisa, o Paulo trouxe à baila os grandes realizadores do cinema europeu e americano, LuchinoVisconti, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, George Lucas, Peter Bogdanovich. E algumas obras, primas ou filhas bastardas, da sua grande arte. A mesma em que, apesar de completamente netflixados, todos nela ainda pasmamos.
Evidente é que um certo professor ou, melhor dizendo, o professor incerto, como então passou a ser, nada tem a ver com aquela gente, entre realizadores ou atrizes, apesar de muito fungar com eles no escuro da sala de cinema. Tem outro passado com muito menos glamour. E dele não se liberta, como o Paulo o obriga a constatar.
O incerto aterrou na Escola Industrial Comercial de Silves, num dos primeiros dias de Janeiro de 1974. Vinha de Portimão na ronceira automotora que, bem chocalhada e destrambelhada como os jovens passageiros, lograva encalhara milhas da cidade.
Este ano de 74 não augurava nada de bom. Apresentado ao Dr. Mealha, o incerto ficou a fazer parte do corpo docente da escola. Indocente, terão pensado alguns colegas a olhar para o lingrinhas. O cabeludo e bigodado pau de virar tripas era quase da idade dos alunos. Um pouco mais novo, julgava-se ele.
Abril escanchou a antiga ordem nova. Soltou a festa. O indocente, no meio do rebanho de centenas de alunos e alguns colegas, foi visto no justo, celebrado e maravilhoso dia 25,aos gritinhos, espumejando alegrias.
Foi este o primeiro ano dos sete que esteve em Silves no embirranço afectuoso com os seus alunos. Sem querer ofender os desconfiados do costume, os melhores da sua carreira profissional.
O indocente já teve ocasião de o confessar. Nos primeiros tempos de profissão, era pouco mais do que um rapazinho endemoninhado, inseguro, que os alunos intimidados aturavam na sala de aula. Três anos de polícia militar dava-lhe vagamente uma aura de autoridade. Para a disfarçar, arrepiava a cabeça dos alunos, com o pente grosso das manápulas. Tentava apenas soltar-lhes os incipientes piolhos de talento escondido que lhes reconhecia.
Achava, e ainda mantém a teima, que a escola é muito mais do que o bocejo de expelir matéria lectiva, ficando à espera que os alunos a assimilem.
Como são ínvios os caminhos da aprendizagem, ia muitas vezes respirar com eles o ar puro da cidade, em aulas abertas à heterodoxia. Ou encafuava-os no pó dos arquivos para um convívio mais nobre com a traça ou o bicho carpinteiro. Queria fazer com que extraíssem do deserto do passado algum conhecimento para que eventualmente o usassem criativamente no futuro.
Também aconteceu, pelo esconso da noite – a noite não é apenas o lugar do grande desnorte – levá-los a ouvir jazz no Caldeirão, com o dono e seu amigo Manuel Guerreiro, saxofonista brilhante, a soprar arte pura entre perdigotos.
O inseguro tentava, como podia, contrariar destinos fatais, encarquilhados nas centúrias da escolástica. Queria destapar-lhes a inteligência, arrombando-lhes as válvulas coração. Para que os alunos ficassem mais ricos por dentro e melhores para fora.
Uma precisão. Não eram apenas alunos do indocente que beneficiavam de algo. Este também aprendia e muito com aquela matéria viva, de sorriso contido e alma escancarada. Docente que não aprende com discente é que é, não se duvide, verdadeiramente indocente.
As teimas que o inseguro tinha consigo, nesse tempo, levavam-no também a querer fazer seus amigos todos os que estavam à sua frente, ou a seu lado, elevando-os pelo frouxo do conhecimento e das emoções.
Não sei se o Paulo, a Paula, o Rui, a Maria José, o Francisco, o António, e tantos muitos que se alojaram no lado esquerdo da peitaça, e sem pedir licença, acham que o desbocado é de fiar. Ou se perceberam que o inseguro não queria muito para si. Acabou, isso sim, por lhes roubar alguma coisinha que muito enriqueceu.
Se o incerto não ficou um completo estafermo, a eles também o deve. Inseguro ficará. Quem não tem remédio…







