A Internet não nos deixa mentir. Em dezenas de declarações, governantes e responsáveis políticos, desde o mais altíssimo nível ao regional, surgem a alertar para a necessidade de gastar bem o dinheiro da bazuca.
GASTAR.
Gastar melhor. Comparativamente à forma como gastamos anteriormente. E gastar rápido que o dinheiro é muito, a bazuca é grande e a nossa burocracia costuma ser exímia em deixar passar prazos, coisa que lá por fora não perdoam.
É embalados nesta música agradável que entramos no Outono… a região algarvia começa a acalmar, há suspiros coletivos de alívio porque foi um verão muito bom, o melhor agosto de sempre, tudo cheio, uma aparência de riqueza e de bem estar desfilou pelos bares, restaurantes e hotéis, pelas praias congestionadas…
e no entanto:
“Grande parte dos portugueses e mesmo os não nacionais têm a perceção de que o Algarve é uma região rica. Mas infelizmente, e apesar de nos últimos anos a situação estar a melhorar, ainda há muito trabalho a fazer para que a população algarvia, ao nível dos indicadores económico-sociais e das qualificações, consiga, pelo menos acompanhar o resto do país”. Quem o afirma é um profundo conhecedor da região José Apolinário, atual presidente da CCDR Algarve.
No Algarve a população em risco de pobreza atinge os 21,6%, bastante acima da média nacional, de 18,4%.
No Algarve, o risco da taxa regional de privação material (pobreza extrema, sem abrigo, etc) é de 19,5% mais do que os 13,5% nacionais. No Algarve, cerca de 40% da população ativa tem apenas o ensino básico como habilitação completa. Em 2020 apenas 25,1% da população atingiu os níveis superiores de educação, contra os 30% a nível nacional.
O Algarve é, portanto, uma das regiões da União Europeia com mais pobres. E com mais pessoas com menos qualificações.
E aqui chegando, é caso para perguntar – o que foi feito do célebre slogan: investir nas pessoas? Aparecia constantemente em campanhas eleitorais, “primeiro as pessoas”, “mais pelas pessoas” e noutras variações do tema.
Mas, independentemente de um rol de fundos nacionais, tantos fundos europeus, tantos programas e inovações científicas e tecnológicas… apesar da melhoria de condições de vida que a nossa sociedade tem alcançado nas últimas décadas, no Algarve mantém-se um padrão de pobreza e de baixa qualificação. Como se fosse uma praga impossível de quebrar!…
Atrevo-me a dizer que estas circunstâncias poderiam ser alteradas se olhássemos para a anunciada bazuca como uma obrigação de investir em vez de uma possibilidade de gastar… Imagino-me a ouvir na televisão…. “temos que analisar muito bem como vamos investir este dinheiro”… imagino essa frase e parece-me que não é só uma questão de semântica…
Investir tem uma força, uma garra de vontade e de crescimento, traz uma consequência de multiplicação e de criação de riqueza que o patético e simplista gastar nunca terá… apenas se esvai…
Investir nas áreas e nas pessoas certas para a mudança, com prudência e coragem, com paixão e discernimento, com rigor e pragmatismo – é essencial. Principalmente numa situação tão turbulenta e imprevisível como a que vivemos.
Esta premissa é também válida a nível concelhio, em particular numa altura em que as autarquias, o grande motor do desenvolvimento local, se debatem não só com um grande (e inesperado) aumento das despesas e incerteza quanto ao cumprimento dos seus objetivos.
Não é possível criar riqueza sem ideias. Esqueçamos o verbo gastar.





