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Opinião

25 de ABRIL- Um problema

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2020/Abr/Sáb
José Alberto Quaresma
6 anos atrás
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O 25 de Abril foi um problema. Continua a ser. O rapaz da foto tem razão. Não tem coragem é de olhar de frente. Parece tímido. Está ali apenas a centrar-se à volta de 1974, mais coisa menos coiso.
O rapaz contou-me, em cochicho. Espero que não se zangue por lhe revelar algumas confidências.

O problema maior do 25 de Abril é apenas um. Devia ter acontecido muito antes.

Um tio, irmão da mãe, que tinha o nome com que o rapaz seria baptizado, José Alberto de Oliveira, penou horrores, encarcerado vários anos, às mãos de uma sinistra organização terrorista, digo bem, terrorista, chamada Polícia Internacional de Defesa do Estado.

O rapaz que está a olhar de lado, não consegue precisar se as intermináveis sessões de tortura, a que o tio foi sujeito, o foram ainda durante o tempo em que a P.I.D.E. mantinha o nome fundador de 1933, o ainda mais sinistro Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (P.V.D.E.), criada por aquele senhor, de esquecidas e sanguinolentas virtudes, chamado António de Oliveira Salazar.

Uma segunda variante do problema é que, se o 25 de Abril tivesse acontecido muito antes, o rapaz não teria tido a vida entre parênteses durante 36 meses (ou três anos, entre 1970 e 1973).

Problema menor, comparado com os mais de 8.000 jovens mortos e as centenas de milhares de feridos e traumatizados de uma barbárie, nos dois lados, chamada carinhosamente “guerra do ultramar”.

É que há um mirrado detalhe do problema. Aquela melopeia de propaganda «Angola é nossa», sempre escondeu uma verdade feia à luz do dia.
No século XV, os portugueses quando chegaram às ignotas Guiné, Angola, Moçambique… já lá existia gente. Sim, gente humana, como nós, com coração, cabeça, braços e uma perna.

Coração para sofrer em silêncio. Cabeça para não pensar. Braços para trabalhar. E uma perna para lhe ser atarraxada uma pesada grilheta para não fugir. A outra perna dava jeito para assentar o pé descalço sobre a terra quente.

Mirrado detalhe de um pequeno problema e grande vantagem para os hediondos lucros de muitos, durante séculos.
Um gigantesco tráfico de escravos foi organizado entre África e América. Milhões de pessoas, sim pessoas como nós, foram embarcadas em naus, deitadas e aferroadas umas às outras para ocuparem menos espaço, e levadas para as Américas para trabalhar sob o chicote.

Ma não há grilheta que sempre dure. E chegou a hora. Tardia, é certo. O coração começou a bater mais, a cabeça a pensar pela própria, os braços a pegar em armas e as grilhetas a estoirar para sempre.

O problema maior, o 25 de Abril, ajudou e muito.

A guerra, que durara treze anos, acabou. E a independência dos países do “carinhoso” Ultramar nasceu. E a nossa juventude, ficou de cabeça perdida, sem ter de colocar a vida entre parênteses, durante três anos, pelo menos. Haja festa.

Então nós, que também temos coração, cabeça, braços e duas pernas, não gostámos tanto de ter sacudido os espanhóis? Estes só aqui estiveram 60 anos. Nós, em África, um pouquinho mais, 400 anos.

Depois é o que se sabe e viveu. O fim do fascismo. Sim, era fascismo mesmo, criado intencionalmente, à semelhança dos regimes de Benito Mussolini e de Adolf Hitler.

E vieram os resquícios conhecidos do problema. O fim da organização terrorista do Estado. A libertação dos presos políticos. E muitas outras coisinhas, insignificantes – nunca será fastidioso ir falando sempre delas – que levaram muitos populares a enfiarem cravos vermelhos nos canos das G3 dos militares sorridentes, e nossos irmãos, naqueles dias que se seguiram e no 1º de Maio.

E liberdade, liberdade, liberdade. E democracia. Há melhor?
Se houver, os que não gostam dela que vão para lá, onde alguma ditadura torcionária os possa consolar.

E deixem-nos aqui a cuidar da nossa, todos os dias. É que esta moça linda, ainda não tem rugas. É imberbe. Só tem ainda quarenta e seis anos. Precisa de cuidados de saúde permanentes e da ajuda solidária dos nossos companheiros da União Europeia. Seríamos mais pobres e tristes se nela não andássemos soltos.

Temos de ajudar a prevenir as doenças infecto-contagiosas que estão a grassar nas velhas democracias, como a britânica ou a americana. Ou as novíssimas com a brasileira, a húngara, a polaca… potenciadas pelas redes (ou grilhetas?) sociais.

Os cuidados de saúde são simples e complexos. Há que atentar neles. Estado social robusto para diminuir as desigualdades e promover a trepidação necessária ao nosso imperativo crescimento demográfico.

Serviço Nacional de Saúde sólido, para não ficar refém de interesses privados, e cuidar de nós, como está a saber fazê-lo nesta tenebrosa crise sanitária mundial.

Educação elevada para pensarmos pela nossas cabeças e ajudarmos os nossos filhos e netos a fazê-lo, realizando os seus sonhos.

Olhar atento, desaprovador e penalizador, de uma corrupção endémica que está sempre à tentar minar a democracia e os partidos políticos, imprescindíveis nela.

Sabemos como os Machados que cortam a raiz ao pensamento, com palavras muito simples, seduzem os desprevenidos. E como sabem dizer “chega”, para se chegarem a um regime totalitário, como o vivemos durante 48 anos e que muitos, felizmente, não conheceram. E outros, infelizmente, dele se fazem esquecidos ou o querem branquear.

O rapaz, que está a olhar de esguelha, dizia há pouco a um seu velho, e sempre novíssimo amigo, Sérgio António:

– 25 de Abril. Sempre. Até que os esquecidos, ingratos, ignaros, néscios, ressabiados, repensem o quanto devemos àquela madrugada libertadora, até agora. E, de hoje em diante, até ao fim dos séculos.

PS. A realização da sessão evocativa do 25 de Abril no Parlamento, sei que dividiu os democratas. Mas é um perdigoto ínfimo no longo espirro da história.
Se a casa da democracia tem reunido, respeitando as recomendações das autoridades da saúde, por que haveria de não a celebrar este ano?

É normal os democratas divergirem, sem nunca o deixarem de o ser.
O problema é a extrema-direita, que já conspurca alguns poucos assentos no parlamento e, que ali chegou em eleições livres, está sempre à espreita para a destruir.

O boneco do Zé Povinho, criado por um grande amigo dos algarvios, Manuel Teixeira Gomes e João de Deus, Rafael Bordalo Pinheiro, era um boneco muito popular nas tabernas – “Se queres fiado, toma!”. Basta recuperá-lo. E substituir o «fiado» por «ditadura». Sem medo. Com o cotovelo dobrado, como devemos ter, ao mais suave respingo. Aaa… tchim…!

José Alberto de Oliveira Quaresma
25 de Abril de 2020

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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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