O espaço faz jus ao nome. Aqui sente-se a ideia de templo. E uma outra noção de tempo que se acentua na cadência das palavras do mentor deste local, António Villares Pires, escultor e pintor.
O Templo do Tempo situa-se num dos antigos armazéns da CP, na Estação de Silves. Neste espaço arranjado e transformado, funciona, desde 2009, o “atelier / escola artística do escultor e pintor Villares Pires”. É também aqui que se tem desenvolvido, nos últimos anos, uma interessante programação cultural, orientada por sua mulher, a professora Paula Villares Pires.
O armazém encontra-se dividido em dois espaços distintos, o da oficina onde Villares Pires se dedica à escultura, sob a inspiração do “mestre António Soares dos Reis, a quem dedico a oficina”; e um outro, superior, uma mezzanine onde se dedica à pintura, recriando grandes clássicos e fazendo trabalhos originais.

As duas artes complementam-se, mas é a pedra que mais impressiona o visitante. Estes são trabalhos que o escultor realiza à mão, sem o auxílio de máquinas, num labor complicado, demorado e exigente, do ponto de vista físico e mental. A pedra não é como a pintura, explica. Um corte mal feito já não se pode corrigir, enquanto na pintura existe essa possibilidade. Assim, normalmente, as suas manhãs, quando está mais descansado, são passadas junto às esculturas e à tarde dedica-se à pintura.
Os trabalhos, à exceção das encomendas, demoram o tempo que demorarem. É por isso que estamos no Templo do Tempo, diz, rindo, Villares Pires. Um exemplo: a escultura de Pedro e Inês, o seu abraço no reencontro final, é um trabalho que está a ser feito há quatro anos. Os primeiros dois anos foram de “trabalho compacto”, os últimos dois são de apuro, pormenor. Mas não há pressa. A arte tem o seu tempo próprio e só nessa altura diz ao artista que está “pronta”.

O gosto pela arte, em Villares Pires, começou quando ainda era “menino”. Nascido no Porto, em 1951, visitava muitas galerias “e conheci grandes mestres que admirava à distância” e outros com quem mais tarde aprendeu, na Escola Superior de Belas Artes do Porto, de onde destaca o nome de “Gil Teixeira Gomes, pintor e gravador de 1ª água”.
Vindo do Porto, acabou por se instalar em Silves, com a sua mulher algarvia, professora de História, atualmente a trabalhar na escola em Armação de Pêra. Juntos têm organizado vários eventos, destacando-se o 1º Symposium da Pedra, um simposium internacional de escultura figurativa em pedra, que reuniu escultores de sete países em Silves, em 2015. Realizado com o apoio da Câmara Municipal de Silves, no seu decorrer foram feitas peças que figuram no jardim do Castelo de Silves.

No Templo do Tempo desenvolvem também variadas ações culturais. Em maio, foi feita uma “Homenagem a Sophia de Mello Breyner”, e a última ação, a 13 de julho, com o título “Sopro no Vento” contou com as participações de Clara Saleiro (flauta transversal) e Joana Martins (dança e trapézio).
O programa, que se prolonga por todo o ano, termina com um Concerto de Natal, com Gonçalo Pescada e Quarteto de Cordas (a 21 de dezembro). “Mas temos outras iniciativas e o ano de 2020 já completo”, diz Paula Villares Pires.
Os artistas que aqui atuam fazem-no geralmente por um preço simbólico e a entrada nos eventos é livre, ficando ao critério de cada um a entrega de um donativo. Uma situação difícil de manter. “O nosso programa tem privilegiado muito os artistas algarvios, e tem sido feito com os nossos meios, mas estamos agora à procura de patrocínios que nos permitam continuar e usufruir e oferecer a cultura nas suas vertentes”, explica Paula Villares Pires.
Nesta oficina funcionam também cursos de iniciação ao trabalho em pedra e cursos de pintura, abertos a todas as pessoas. São cursos, diz o escultor/pintor, em que as pessoas são ensinadas a olhar, a ver e a aprender. Seguindo a sua máxima: “A alma e as mãos fazem a arte”.
Para a(s) arte(s) muitos são os caminhos. Alguns começam no Templo do Tempo, na Estação de Silves, aberto diariamente, (exceto aos domingos), a quem o quiser visitar.





