Encontraram-se à porta do instituto de beleza para cães. O respeitável Bulldog, apanhando a dona distraída lá se esgueirou, silencioso e ligeiro, para a rua; onde o pobre rafeiro espreitava curioso, pelo canto da porta, os seus irmãos de raça penteados, de lustroso pêlo, alguns até vestidos.
Que coisa esquisita, pensou arfando, cansado de correr e deambular toda a manhã à procura de alimento. Já tinha passado por restaurantes, pelo talho e nem um ossinho… quando se apercebeu que lhe cheiravam o rabo. Voltou-se admirado –mas que fazes?…
Olha este a cheirar um cão vadio e sujo como eu, pensou.
– Então não vais ter com a tua dona… andas perdido?…
Sabes – respondeu o convencido e rico Bulldog – não sou assim tão feliz como possas pensar. – Falta-me a liberdade, só posso sair à rua de trela e acompanhado. Pouco conheço do mundo e as aproximações são sempre rigorosamente vigiadas, com a trela a ser puxada por mão humana.
– Cala-te mas é!… sabes lá o que é ser um cão sem abrigo. Tu tens o conforto de uma boa cama, comida sempre que tens fome, mimos a toda a hora… Até tens ar de ser um daqueles cães que vai passear no centro comercial.
– Pois é… mas já nem me apetece cheirar aquelas cadelas vaidosas e perfumadas de focinho levantado, a dar à cauda. Quero conhecer outros cães, fazer novos amigos, de novo sentir o cheiro a cio naturalmente – Vamos embora daqui antes que deem pela minha falta.
– Podes acompanhar-me – respondeu o rafeiro –na condição de seguires os meus conselhos. As coisas não caem do céu – um cão sem dono tem de aprender a sobreviver na dura escola da vida.
– Ouve lá, já ouviste falar do SNS para animais – perguntou o de raça – seria muito bom para cães vadios como tu.
– Pois, pois… por acaso até ando com umas comichões irritantes à brava. – Mas isso são balelas, meu! Nem o dos humanos está a funcionar bem.
– Quem sabe para animais… – disse o Bulldog.
– Bem… olha ali em frente fica um restaurante onde estão a chegar carros com os primeiros convidados para um almoço da campanha eleitoral–afirmou o rafeiro com ar decidido. Vai haver comida com fartura, bebida, acalorados discursos e palmas, muitas palmas que aquecem as mãos a cada promessa feita.
– Vamos andando para aquele recanto junto da porta e aí, quietos e atentos, aguardar o momento oportuno de fazer o nosso pedido. – Sabes, nestas alturas, os políticos que procuram chegar ao poder são todos muito simpáticos: beijam com benevolência as peixeiras, apertam com generosidade as mãos calejadas pelo trabalho, andam sorridentes pelas feiras e até já vi quem tirasse leite das tetas de uma vaca.
Pois é… até o almirante quase sempre tão sisudo como eu já vai esboçando um sorriso–acrescentou o Bulldog.
Atenção, chegou o momento –sussurrou o rafeiro – faz exatamente como eu.
E o rafeiro lá seguiu em frente, olhar insistente e humilde, abanando freneticamente a cauda, com meiga expressão roçando-se na calça fina do candidato; que num gesto imediato e oportuno lhe passou a mão pelo pêlo e olhando em volta, sorrindo para a fotografia, afirmou empolgado – até os cães estão connosco!!! De imediato aplaudido pelos apoiantes.
Terminado o almoço e a sessão, os participantes entram nos carros e vão abandonando o recinto. Os nossos dois amigos, de barriga cheia, decidem ir aquele jardim, que ainda tem terra e um bocado de relva, espojar-se um bocado.
– Quem era este? – perguntou o Bulldog.
– Chamam-lhe O venturoso, considera-se o salvador da pátria e anuncia um Portugal novo a cada esquina. Mas temos de ter cuidado… proclama tanta limpeza que ainda vamos ser proibidos de mijar na rua.







