Provavelmente, já notou que após pesquisar um bem ou um destino de viagem no seu dispositivo eletrónico (telemóvel, tablet ou computador) aparecem anúncios e conteúdos relacionados nos dias seguintes. Isto não acontece por mero acaso, é propositado. De forma simples, a sua pesquisa fica registada e a “magia” do mundo moderno – uma série de instruções que um computador segue para executar uma tarefa específica ou resolver um problema, um algoritmo – direciona a publicidade e conteúdos até si.
Transporte esta ideia para o universo das redes sociais e outras plataformas digitais e rapidamente perceberá a forma como somos agrupados em conjuntos homogéneos de preferências e opiniões que essas plataformas potenciam, graças aos seus cálculos e algoritmos alimentados pelo que o utilizador visualiza, gosta, comenta e partilha, fechando-os em bolhas de consumo, excluindo-os do acesso a muitas outras informações. Já notou que, neste mundo globalizado, quanto mais acesso à informação temos, mais rejeitamos as nossas diferenças? Que o discurso é polarizado, extremado, “nós contra eles”, e as diferenças de opinião são encaradas como um confronto, onde não há espaço para a moderação, para o diálogo construtivo e debate de ideias? Isso também não acontece por mero acaso, é propositado e habilmente potenciado pelos algoritmos e Inteligência Artificial concebidos para estimular o nosso cérebro e ativar a resposta do individuo quando exposto ao medo, ao choque, à indignação ou ao ressentimento, com o propósito de gerar interação do público (vulgo engajamento) que se mede em visualizações, gostos, comentários e partilhas, parte fundamental para a estratégia digital.
Dessa forma, informações falsas ou imprecisas são rapidamente difundidas através de uma enorme caixa de eco, a internet, onde divisões ideológicas são reforçadas, a intolerância e conflitos sociais crescem e se cultiva a desconfiança nas Instituições. Os perigos para a Democracia são bem reais. Opiniões e preferências são moldadas, num processo de formação de opinião que já não está a ser mediado pelos órgãos de comunicação social tradicionais (os jornais, a rádio e a televisão) ou pela convivência social com família ou amigos. A título de exemplo refiro os casos do Brexit, do escândalo da Cambridge Analytics envolvendo o Facebook aquando da primeira eleição de Trump ou o genocídio em Myanmar onde o Facebook foi considerado culpado de facilitar a perseguição à minoria rohingya, entre vários outros casos de manipulação e interferência eleitoral com recurso a vídeo ou áudio gerado por Inteligência Artificial.
Ao contrário das autocracias, as democracias não podem simplesmente banir ou silenciar candidatos políticos simpáticos para com os adversários estrangeiros, nem silenciar narrativas que desafiem a mentalidade predominante. Em vez disso, estes debates precisam de ser travados abertamente. Isto, claro, acarreta riscos inerentes, mas torna-se especialmente desafiante quando potências estrangeiras intervêm e manipulam artificialmente o cenário informacional em que estas discussões ocorrem.
Neste contexto, torna-se imprescindível fortalecer a literacia mediática, combater ativamente a desinformação e investir em programas educativos que promovam o pensamento crítico.
O jornalismo desempenha um papel fundamental na sustentação de uma sociedade democrática saudável, mais justa, consciente e resiliente, devendo assumir-se como um guardião imparcial da verdade, apresentando factos e o contexto necessários para assegurar a integridade e a transparência. Uma sociedade bem informada é a base para o funcionamento democrático robusto, capacitada a resistir às campanhas de propaganda e de desinformação.
P.S. Desejo a todos os nossos leitores, colaboradores e amigos do Terra Ruiva, um período cheio de alegria, paz e momentos especiais junto daqueles que mais gostam. Que o próximo ano traga esperança, paz, saúde e muitas realizações.


