No editorial da revista Em Cena, nº3, ano 2001, escrevíamos: O cinema é, no nosso entender, a arte civilizacional por excelência do nosso tempo ou desse tempo que foi o séc. XX. Arte e indústria de uma época que se construiu mais do que tudo de imagens em movimento (o cinema) e de instantes de imagem (a fotografia). Definitivamente, o Cinema foi e ainda é o grande mural narrativo onde se pode ler a História e as histórias reais e imaginárias de um tempo contemporâneo. Que destino será o da 7ª arte neste século em que nos aventuramos?… Não sabemos. Sabemos apenas, ao entrar numa sala para ver um filme, que o cinema resiste como uma forma feliz e consequente de derrotar o tempo.
A vida e os hábitos sociais e culturais evoluem ou retrocedem… Ou simplesmente são diferentes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Hoje temos a geração Netflix e o vício das séries, o acesso a filmes através de plataformas de streaming. Os cinemas, assim como as livrarias, fecham. Mas o cinema resiste e há até novos espaços de projeção e fidelização de novos públicos. É o caso da associação Cinema Lua que mantém uma programação regular, com sessões no cineteatro de São Brás de Alportel e um crescente número de espectadores.
Aqui escrevi, mais do que uma vez, sobre o quão importante seria recuperar o cineteatro silvense. Como espaço não apenas de cinema, mas como auditório dedicado a todas as artes de palco (música, teatro, cinema) e eventualmente associando outras valências.
Saber que o Carlos Matos, empresário apaixonado pelo cinema, o homem que abriu ao longo dos anos salas de cinema um pouco por todo o Algarve, de barlavento a sotavento, de Lagos a Olhão, prepara a reabilitação e requalificação do Cineteatro de Silves é motivo pessoal de profunda satisfação e digno de admiração por todos nós. Não tanto como nostalgia, lugar de memória de muitas gerações de silvenses, mas como espaço cultural e social pensado para os habitantes do presente.
Como cinéfilo e professor fui acompanhado a sua atividade. De boa memória deixo apenas alguns testemunhos: a sua colaboração com o FICA (Festival Internacional de Curtas Metragens do Algarve), que teve nos cinemas de Portimão/Algarcine a sala sede de exibição, apresentação e entrega de prémios nas suas últimas edições. A cedência das suas salas de exibição comercial aos cineclubes para aí fazerem as suas sessões. E em anos recentes, como professor coordenador do Plano Nacional de Cinema da minha escola, em Olhão, as muitas turmas que levei a ver e a aprender com os filmes no seu cinema no Ria shopping. Infelizmente, já fechado.
Um silvense resistente, discreto e persistente, no difícil mundo da exibição cinematográfica, dominado pelas grandes empresas, que de novo se propõe dar vida ao Cineteatro. O Cinema sempre fez parte da vida da cidade, contribuindo não só para o entretenimento como também para a formação cultural da população, dando a conhecer novas realidades e abrindo novos horizontes.
Sejamos pois os espectadores do futuro deste regresso do cinema ao coração da cidade.









