Numa destas manhãs, ouvi de uma colega de Português, há muitos anos professora e residente em Silves, (mas vinda de fora), uma observação, que, não sendo uma apreciação ouvida pela primeira vez, despertou o meu interesse e suscitou a reflexão que desaguou no presente texto.
Ambos participávamos no júri de um concurso literário, organizado pelos Amigos de Silves, e tínhamos acabado de nos conhecer. Em conversa informal, terminado o trabalho, falando de assuntos vários, comentávamos que em Messines, onde também já tinha sido professora, as pessoas eram mais unidas e ativas e, pelo contrário, em Silves não havia a mesma atitude empreendedora e espírito de entreajuda. Ouvindo-a, concordava.
Bem, nada disto é novo. Frequentemente ouvimos, é do senso comum, a opinião de que os messinenses são mais bairristas, mais participativos e reivindicativos, têm mais sentido de comunidade, manifesto no comércio local e em instituições como a Casa do Povo, entre outras.
Como forasteiro familiar, apesar de mais envolvido nalgumas atividades cívicas na cidade, tendo sido apenas um ano professor em Messines (1998-99), não vivencio o dia o dia, nem nunca em Silves tive qualquer atividade profissional.
Assim, podendo opinar, como qualquer um livremente, não sou portador de qualquer fundamentação quotidiana. Mas certo é que para comprar alguns materiais de construção, drogaria ou bricolage a oferta é escassa e obriga a deslocação a Lagoa, Portimão ou Messines (!) e se algum problema surgir com o carro… São apenas alguns exemplos.
Talvez o Aurélio Nuno, como investigador, comum acreditado trabalho como historiador, pudesse dar um contributo aprofundado e sociologicamente fundamentado sobre esta questão. Fica o repto…
Mas como silvense, custa-me que assim seja. Se é que realmente assim é…
Percorrendo os afloramentos do grés social, tentando encontrar à superfície os veios e ramificações do geoparque político algarvensis, entre Silves e São Bartolomeu de Messines, na formação recente e no meu tempo de vida consciente, a origem de muitos presidentes e vereadores municipais distribui-se quase por igual entre as duas terras. A maior concentração de ativos e fósseis percorre este eixo interior. Das freguesias do litoral, Alcantarilha e Pêra, não se descortina grande influência na gestação evolutiva do núcleo central dominante, tal também não se descortina no Algoz e em Tunes.
Prospeção à parte, gosto do lema Da Serra ao Mar, do concelho entendido como um todo, mas, não o mudando, daria a Silves uma importância capital. Não basta ser sede de concelho, ter o edifício da câmara municipal, deve corresponder a uma equivalência de progresso, de projetos de futuro.
Cansa-me a maledicência e a desfaçatez de quem desacredita o presente e os outros, a frase batida da cidade amaldiçoada, das pragas rogadas pelo bispo Jerónimo Osório… tanta e mais cidade houve, obreira e operária, desde esse tão distante século XVI.
Assim como defendo (sei que muitos algarvios não gostam desta ideia) que Faro deveria ser mais cidade do que aquilo que é, rosto urbano de desenvolvimento harmonioso, sustentável, exemplo e capital convincente de uma região que se pretende cosmopolita (cosmopolitismo significa muito, muito mais do que turismo), acho que Silves precisa de investimento, ideias e projetos que não passem apenas por mais investimento turístico (mais campos de golfe e resorts) e não pode permanecer confinada ao binómio turismo & património. Se perdermos o sentido, a estratégia frente ao devir, corremos o risco de ficar sentados à espera.
Nota:
Lema é uma frase curta que expressa um princípio, um ideal ou um objetivo, servindo como guia ou motivação para um indivíduo, grupo, instituição.







