Sofia de Mello Breyner Andresen denunciava uma ideia burguesa de cultura que a reduz a um privilégio, uma atividade decorativa, conformista, secundária e, acrescento, secundarizada, algo a possuir, não a viver. A seu ver, a cultura verdadeira não é neutra nem supérflua; é um direito fundamental e um elemento transformador da sociedade, comprometido com a dignidade humana, a liberdade e a justiça.
Foi com este pensamento que me interroguei: que natureza têm as práticas culturais que se desenrolam no espaço geográfico da cidade? São elas burguesas, proletárias ou populares ou libertárias?
A cultura burguesa caracteriza-se pelo individualismo e pela lógica da propriedade privada, como, por exemplo, a nossa biblioteca pessoal. Neste sentido, a reabilitação do centro histórico da cidade revela traços dessa cultura: o turismo cultural, o consumo do passado como espetáculo, em que se insere a feira medieval e os eventos de artes plásticas, de música clássica e jazz; a valorização imobiliária que transforma a habitação em mercadoria, empurrando os antigos habitantes populares para a periferia; a transformação da cidade em cenário estético para usufruto da burguesia urbana contemporânea.
Em contraste, uma cultura proletária ou popular é coletiva, acessível, enraizada na vida quotidiana, no trabalho, na justiça social. Uma cultura de resistência, onde a arte é instrumento de consciência. Nos escritores neorrealistas e nas canções de intervenção ecoam vozes da luta de classes e da oposição ao fascismo. Essa cultura, enraizada na vida comum, transmitida oralmente, associada ao labor nas fábricas e nos campos: nos cantos das janeiras, nas bandas filarmónicas, no teatro amador de intervenção social, nas comemorações do 25 de Abril e nos arraiais e festas populares.
A cultura libertária, associada ao pensamento anarquista, vive na autogestão, na cooperação, na recusa da hierarquia. Rejeita a autoridade coerciva e defende liberdades civis como a de expressão, associação ou orientação sexual. Entre as práticas contemporâneas que a exemplificam estão o teatro do oprimido, a arte de rua e o software livre. Na cidade, o resgate histórico do movimento operário corticeiro e das suas lutas anarquistas, apesar da supressão do museu da cortiça, e a homenagem aos antifascistas silvenses, corporiza a cultura libertária enraizada na solidariedade e na autogestão. A inesquecível Festa da Paz e da Cultura foi uma manifestação cultural libertária que deu ênfase à liberdade de expressão, à participação comunitária, ao pacifismo e à autonomia cultural.
Harmonizar estas três dimensões — burguesa, proletária ou popular e libertária — representa um desafio necessário, com reforço da cultura libertária: promover uma cultura plural, enraizada nos valores populares e de resistência, mas também capaz de dialogar com formas mais amplas de expressão artística, democratizando o acesso à cultura e valorizando a diversidade artística e cultural da cidade.







