Passo pelas redes sociais da campanha eleitoral da AD. A cabeça de lista, a lisboeta e ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho aparece em Armação de Pêra, com os candidatos locais, preocupada com a requalificação da ribeira de Alcantarilha, o Recife Natural da Pedra do Valado, a Lagoa dos Salgados.
E lembro-me de, pouco antes da campanha, ter feito uma notícia sobre a reunião entre a ministra/candidata e o executivo da Câmara de Silves, a pedido da autarquia. Motivo: a Reserva Natural da Lagoa dos Salgados não há meio de sair do papel, encalhado o processo no gabinete da ministra e a autarquia quer(ia) desbloquear a situação. Uma decisão que, afinal, estava nas mãos da candidata “preocupada”…
Em Armação de Pêra cruzei-me com os candidatos do PS, Jamila Madeira e Jorge Botelho, acompanhados pelos candidatos às autárquicas. Pareceu-me uma comitiva sem fulgor e não me admirei. Deve ser muito difícil a estes candidatos/deputados virem para o terreno. A estes, representantes de um partido que tem estado no poder com regularidade, e com maiorias absolutas, exigem-se respostas. Por que não foi construído o Hospital Central do Algarve quando previsto? Por que razão os deputados do PS, eleitos pelo Algarve, votaram sistematicamente contra as propostas de abolição das portagens da Via do Infante que o PCP e o BE apresentaram tantas vezes? E por aí fora…
Diz-se que, fruto do descontentamento gerado por estes partidos, que se têm alternado no poder, nasceu aquele outro que acabou vencedor na região. Diz-se também que esse partido ganhou porque está contra os ciganos, contra quem recebe subsídios, e contra os imigrantes. Por se assumir “do contra” e “fora do sistema”, espalhou-se a ideia de que este foi um voto de protesto. E que os resultados provam que a democracia falhou.
Nenhuma destas conclusões colhe a minha concordância. Para se votar em protesto, é necessário saber contra o que se vota – e porquê. Dizer que é para correr com “eles” e “limpar Portugal”, são apenas palavras. Ocas. E a maior contradição deste discurso já está à vista, poucos dias depois das eleições, quando o grande objetivo do tal partido é entrar – e à grande – no sistema que diz abominar.
E não, a democracia não falhou. Embora seja fraca e frequentemente demasiado tolerante perante quem a quer minar e derrubar, os 50 anos de democracia deram-nos uma melhoria de vida, a todos os níveis, que os 50 anos de fascismo nunca permitiram que tivéssemos, “orgulhosamente sós”, no país mais empobrecido, analfabeto e reprimido da Europa Ocidental.
Hoje, “lá fora”, a brilhar, não temos apenas o Eusébio e a Amália. Temos artistas, cientistas, fadistas, atletas de várias modalidades, futebolistas, treinadores, médicos, empresários… uma verdadeira constelação….
Apesar de todas as deficiências e insuficiências, temos hoje um sistema de saúde, de educação, de proteção social que abrange toda a população, deixamos para trás o país que em 1974 tinha mais de metade da população analfabeta ou apenas com a “4ª classe” e uma taxa brutal de mortalidade infantil. As redes de abastecimento de água e de saneamento, as vias rodoviárias, os equipamentos culturais e desportivos são uma realidade presente em todo o país, após 50 anos de democracia.
Uma parte substancial do desenvolvimento deve-se ao trabalho das autarquias, como é reconhecido no estudo apresentado há dias por Pedro Adão e Silva, presidente do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do Iscte.
Segundo o estudo, os cidadãos têm uma confiança positiva nos municípios e valorizam as respostas das políticas públicas locais, além de terem a perceção de que nos últimos anos houve melhoria nas condições de vida nos seus concelhos.
Para 60% dos inquiridos, as câmaras municipais preocupam-se com os seus cidadãos e 63% consideram o mesmo em relação às juntas de freguesia e a maioria diz que os seus municípios “melhoraram” na última década, ao mesmo tempo que o país e o mundo ficaram pior.
O simples facto dos portugueses terem a possibilidade e a liberdade de expressar a sua opinião sobre quem dirige a administração pública local e central, (coisa que parece tão banal nos dias que correm), é, afinal, também ela, uma possibilidade que decorre da existência de um Estado democrático, com uma Constituição da República que consagra os direitos fundamentais, como os da liberdade de expressão e de reunião. E de um voto livre, que todos podem exercer, já agora convém lembrar.
Haverá um retrocesso num futuro próximo?
Vivemos tempos de incerteza, a nível nacional e mundial. A democracia e a liberdade estão ameaçadas. Estou convicta que não exagero nesta preocupação.
Para quem preza a democracia, é a hora de união para a sua defesa. É frágil, tem defeitos, merece até por vezes um voto contrariado ou em branco, mas é um património valioso, que não deve ficar refém de quezílias partidárias. Ainda é jovem. Não está completa, nem é perfeita. Precisa de ser ajudada, para se desenvolver, se aperfeiçoar, para se tornar mais livre e justa. Tem ser protegida. Com coragem, sabedoria e coração.







