Num deste dias fui abordado por uma senhora, que tentava ler um obituário, afixado na montra da agência funerária, que testemunhava a morte de uma idosa, sobre como se lia o local de residência da referida falecida. Abeirei-me da montra e disse que a defunta residia no Sítio da Franqueira, entre Silves e São Bartolomeu de Messines. A dificuldade da senhora, como me relatou, era o vocábulo Franqueira, pois sentia que tinha uma crescente dificuldade em ler algumas palavras. A palavra Franqueira não será das mais simples, desde logo pela sequência de um n (ene) com um q (quê) e um u que não se lê.
A leitura e a escrita têm os seus quês. Escrevo para o jornal Terra Ruiva desde dezembro de 2002, portanto há mais de 22 anos e, devido a este exercício de escrita e de leitura, tenho apurado o gosto por escrever e por ler. O gosto da leitura é anterior ao da escrita, mas normalmente andam a par e passo. Iniciei a escrita para o jornal, a convite da sua diretora e minha amiga Paula Bravo, numa época em que ainda era vereador da autarquia silvense, mas que já tinha abandonado as responsabilidades de dirigente partidário.
Não gosto de dizer uma coisa de manhã, outra à tarde e, possivelmente, outra à noite, pois, apesar de não me rever na existência de impedimentos nas diferentes funções públicas não remuneradas, considero que sou verdadeiro naquilo que faço e que digo e, por isso, não gosto de transformar este espaço mensal num vínculo gratuito de propaganda política ou eleitoral, mesmo que desempenhasse funções de autarca no município de Silves, como foi o caso até 2005. As minha opiniões, mescladas com muitas temáticas, tentam traduzir e dar ao leitor o meu olhar sobre o passado, a cidade, vivências e viagens, episódios do quotidiano e, naturalmente, posicionamentos políticos.
Uma das apreciações políticas recorrentes na minha escrita são os valores de abril, da Revolução dos Cravos, e dos anos sequentes, com particular ênfase no maravilhoso ano de 75, o ano em que as utopias percorriam as ruas e os corações das gentes simples. Os meus escritos poéticos iniciaram-se em janeiro de 76, já tinha acontecido abril e novembro. Apesar dos sonhos desfeitos, as minhas palavras ainda ressoam abril, a liberdade, os operários, os camponeses e os mineiros, a reforma agrária, a escravatura e, naturalmente, a amizade e o amor. Estes valores dos meus primeiros escritos evoluíram para temáticas mais elaboradas e pensadas, mas na sua essência o que encontro sempre em todos os meus escritos é a saudade de um verdadeiro abril.
Neste novo abril renovo com todos vós os valores da solidariedade, da inclusão do outro, próximo ou afastado, da justiça económica e social, da liberdade, a qual só será a sério, como diz o escritor de canções, quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação, para todos nós, naturais ou migrantes.
Parabéns pelos 25 anos do jornal Terra Ruiva.






