No filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, o escritor e roteirista Gil vai de viagem com a noiva e a família desta a Paris. Ao realizar sozinho alguns passeios noturnos, ele descobre que ao badalar da meia-noite é transportado para a Paris de 1920, época da sua veneração. Uma personagem dos anos 20 é transmovida para a cidade de 1910 e uma outra personagem atual é remetida para a Versalhes do rei sol. Cada um é conduzido a vivenciar uma época adorada por si em função da arte, da boémia, da política e do poder.
Em Silves é, mais ou menos, o mesmo. Ultimamente têm-nos transportado para o período árabe, diga-se, em abono da verdade, para diferentes períodos do reinado muçulmano de quinhentos anos (século VIII a século XIII). Temos glorificado, e bem, um período histórico da cidade, através da feira medieval. Sempre com uma vertente festiva, própria destes eventos do século XXI, revelando alguma ausência sobre as realidades económicas e sociais dos habitantes comuns da quadra retratada na nossa cidade milenar.
Admito que a nossa cidade guarda memórias relevantes para além do século XIII, apesar da progressiva decadência populacional desta até meados do século XIX. Deste período, para além da datação de artefactos existentes no museu arqueológico da cidade e, eventualmente, de estudos académicos, disseminados em revistas e em congressos universitários, poucos ou nenhuns eventos têm sido historicamente relatados. Compreendo, a expansão marítima é lá para Lagos e as invasões francesas são coisas de Olhão. A cidade parece ter mingado, mas uma leitura atenta da monografia de Silves poderia inspirar os responsáveis autárquicos e educacionais a idealizar alguns momentos de revisitação histórica (sem lamúrias de decadência) deste povo ao longo de cinco séculos.
O propósito desta crónica é relembrar do apogeu industrial e comercial da cidade, números redondos, entre 1850 e 1950, um século de labor operário numa cidade marcada pelo trabalho corticeiro e de outros iguais trabalhadores e pela existência distinta de classes sociais.
Os industriais e as suas famílias, progressistas ou conservadoras, os intelectuais económicos e sociais, os serviços, os comerciantes, os trabalhadores, operários e populares. Esta pluralidade económica, social e cultural ainda está presente nas edificações da cidade, nas memórias das gentes, nos recantos históricos da urbe de Silves.
O museu da cortiça seria uma mais-valia para honrar este período histórico, mas não será suficiente para enaltecer toda uma sociedade industrial e operária responsável (para o bem e para o mal) da maioria das instituições, centenárias ou quase, ainda existentes na cidade: a câmara municipal, a farmácia, a escola, o teatro, o clube, os bombeiros, a filarmónica, algumas lojas comerciais, espaços públicos. A cidade deve orgulhar-se do seu passado, perspetivando o futuro, e recriar apontamentos históricos em distintos edifícios, particularmente em espaços públicos com relevância histórica.
Talvez seja necessário um trabalho de monta para homenagear o passado recente desta cidade, mas vai valer a pena.
Por exemplo, dotar o Teatro Mascarenhas Gregório de uma exposição permanente da sua atividade ao longo do século XX e criar no espaço Casa dos Vinhos (nome que nada representa em termos históricos) uma referência à Associação de Classe da Indústria Corticeira Silvense, particularmente entre a sua fundação (1893) e a sua proibição (1933), pode constituir um sinal de que vivemos bem connosco, com o nosso passado e, em consequência, com o nosso futuro.







Boa tarde, achei o comentário “do senhor António Guerreiro, muito interessante, moro em Messines, e minha filha estuda rm Silves, e este ano fui Feira Medieval. Seria interessante se falar de outras Culturas da cidade…”