As perguntas – quem somos e de quem descendemos, suscitam um número crescente de interessados ou apenas curiosos. Conhecer as suas raízes, apenas por simples curiosidade, para aumentar o conhecimento pessoal ou quiçá na esperança de ter antepassados ilustres, são razões que levam ao estudo da genealogia.
Na tarde do dia 18 de maio, a sala da Biblioteca Municipal de Silves reuniu cerca de duas dezenas de pessoas, na Oficina de Iniciação à Genealogia, orientada por Joaquim Reis e João Gomes, do Grupo Amigos de Silves.

Basicamente, “a genealogia é o ramo da História que se dedica ao estudo das famílias, à sua origem e evolução, descrevendo as gerações em cadeia (em sentido ascendente ou descendente) e traçando, sempre que possível, as biografias dos seus membros.”
A maioria das pessoas que se interessa por esta ciência fá-lo de uma forma não profissional, apenas com o objetivo de traçar a sua árvore genealógica, até ao passado mais recuado. Pensada para estas pessoas, a oficina de Joaquim Reis e João Gomes, concentrou-se em dar as pistas principais para esse trabalho, apresentando também sites de referência e algumas ferramentas tecnológicas que facilitam o trabalho de leitura dos textos antigos.
Para quem deseja iniciar este percurso, que requer paciência e tempo, a pesquisa começa sempre pela base: os assentos de batismo, de casamento e de óbitos registados nos livros paroquiais.

Os livros paroquiais e de registo civil com menos de 100 anos encontram-se ainda nas conservatórias do registo civil, mas os mais antigos, estão depósitos, por norma, nos arquivos distritais. Assim, munidos dos nomes dos pais, dos avós e eventualmente dos bisavós começa a busca, procurando os nomes dos antepassados destes e depois dos anteriores… “de baixo para cima, começando por nós”, como aconselha Joaquim Reis.
João Gomes alerta os entusiastas para as dificuldades que se encontram. Em primeiro lugar, os registos de batismo só começaram a ser obrigatórios a partir do Concílio de Trento em 1545/1563 pelo que a maioria das pesquisas só conseguirá recuar até essa época. Mas, até chegar aí, há outros obstáculos. Em muitas paróquias, por exemplo, não é possível localizar todos os livros de registo. Aqui perto, em Albufeira, o incêndio provocado pelas lutas do guerrilheiro Remexido, levou ao desaparecimento dos livros mais antigos. Outros perderam-se, em catástrofes, acidentes ou simplesmente por incúria humana… “Em Silves, há poucos hiatos, poucos livros desapareceram, mas em Alcantarilha os ratos comeram um livro inteiro,”, diz Joaquim Reis.
Outra dificuldade que surge frequentemente, é a relacionada com o facto de, ao longo de muito tempo, os homens, mas sobretudo as mulheres só terem um nome próprio. “Os casais tinham uma filha e chamavam-lhe só Maria, os homens eram Manuel, ou Francisco… quando há casamentos entre famílias é muito difícil destrinçar quem é quem, só se pode conseguir identificar pelo nome dos pais”.
E acrescenta: “ Numa altura em que as crianças morriam muito, e muito cedo, tinham uma filha chamada Maria, esse bebé morria e tinham outra filha, essa era também Maria. E como nos livros mais antigos não havia margem para averbamentos, os padres não podiam acrescentar, como mais tarde, faleceu, ou casou com fulano. Além disso, muitas mulheres quando se casavam, adotavam o nome da igreja onde era o casamento, passavam a ser Maria de Jesus, ou Maria de Deus…”
A mudança de apelidos era também comum. João Gomes, conta um caso com que se deparou, “em 1800 e tal, o pai era Leitão, a filha passou a ser Leitoa”…
Surgem também muitos casos, em que os padres batizavam as crianças, atribuindo-lhes “pais incógnitos ou ocultos”, não porque não se soubesse quem eram os progenitores, mas porque os pais não eram casados. Se acontecia casarem mais tarde, os filhos eram perfilhados no ato do casamento, o que, nalguns casos, também pode induzir em erro sobre as idades daqueles filhos.
Tendo em conta estes e outro fatores, pode-se começar a pesquisa. Nos livros de registo de batismo encontram-se normalmente o nome dos pais e dos avós, maternos e paternos e por vezes a profissão dos pais e a residência; enquanto o registo do casamento dará o nome dos noivos, dos pais dos noivos, e até eventualmente os nomes dos avós e moradas. Os arquivos da Torre do Tombo, acessíveis online, são obrigatórios na pesquisa, mas também se encontram dados nos pedidos de passaporte e bilhetes de identidade, nos livros dos cemitérios ou nos registos militares.
Nessas fontes, o aconselhado é procurar a geração anterior num intervalo de tempo de 20 a 25 anos e considerar que estatisticamente os casais têm o primeiro filho geralmente dois anos após o casamento.
Cumpram-se ou não essas tendências, o certo é que é necessária muita paciência para percorrer os arquivos. O facto de muitos já se encontrarem digitalizados veio facilitar imenso o trabalho “era uma carga de trabalhos fazer genealogia, tínhamos que ir aos arquivos a Faro, ou a Lisboa”, conta João Gomes. E para fazer a pesquisa em casa, com a calma necessária, “tinha que comprar os microfilmes”, reforça Joaquim Reis.
Hoje em dia, cada um, no sossego de sua casa, pode aceder aos arquivos e fazer download do que lhe interessa, para estudar com tranquilidade. Ainda assim, subsiste uma dificuldade central: a de conseguir decifrar a escrita. Sendo o papel um material caro, era comum os padres escreverem com muitas abreviaturas, para pouparem papel. Mas além de caro, muito do papel era de má qualidade e sendo as tintas feitas com uma base de casca de nozes e sumo de limão, muitos dos livros existentes têm textos pouco legíveis, ou por estar desaparecida a tinta, ou pelos estragos que o livro sofreu na passagem do tempo, ou pela má caligrafia do padre… ou todos estes elementos juntos. E não esquecer que muitas vezes é necessário transcrever para o português moderno…
Para Joaquim Reis, que há muito que desenvolve este trabalho, é uma questão de “treino” , com o tempo vai-se desenvolvendo a capacidade de ler com mais facilidade os registos do passado.
Mas, também para este trabalho, na Internet existem disponíveis e gratuitas ferramentas de auxílio para esta tarefa, com o nome de “paleografia” – que estuda a escrita antiga e transcreve a caligrafia antiga para a grafia atual – e outras que tornam as páginas mais percetíveis.
É também nesse vastíssimo mundo de informação online que se encontram múltiplos sites que podem ser muito úteis a quem pretende construir a sua árvore genealógica. A nível regional, encontramos, por exemplo, o site da genealogia do Algarve, fundado por Nuno Campos Inácio, e que tem dados sobre alguns municípios da região, até ao conhecido https://www.familysearch.org/pt/, que reúne bilhões de perfis de todo o mundo.
Nesta tarde de sábado, na pacata Biblioteca Municipal de Silves, num local também ele que encerra tanta história, não é difícil tentar imaginar as gerações que antes de nós por aqui passaram. Recuar no tempo também é ter surpresas, pensar que somos daqui e afinal viemos de outros lugares, como nos diz João Gomes.
Mas no final, quer Joaquim Reis, que já identificou mais de 30 mil nomes, quer João Gomes, que começou “há muito menos tempo” mas que já juntou mais de 1800, quer os participantes na oficina, todos concordam com uma premissa, este gosto pela descoberta das nossas origens “é um bichinho” que quando morde já não nos larga…



Como nos mostra o corpo da notícia, o principal objectivo perseguido por estes pesquisadores é mais o de que família se descende, de modo a elaborar a respectiva árvore genealógica.
Porém, a pesquisa para conhecer as nossas raízes poderá levar-nos a outros horizontes mais genéricos, mas não menos interessantes.
É um facto histórico que a Península Ibérica é um verdadeiro cadinho humano, produto de várias migrações, que para aqui confluíram, ao longo dos séculos, e aqui se detiveram, em final de percurso, barrados pelo oceano, ou que invadiram este extremo ocidental da Europa e aqui permaneceram, por muitos séculos, deixando, contudo, como legado, uma fortíssima herança genética, como é o caso flagrante da Invasão Árabe, com uma maior incidência na zona mais meridional de Portugal (Alentejo e Algarve).
Atendo-nos, em particular, a essa Invasão Árabe, sabemos que a primeira vaga, comandada pelo General Tarik, desembarcada em Algeciras, era constituída por tribos de etnia berbere, com origem do Magrebe e Norte de África, sendo o próprio Tarik também berbere.
Só no ano seguinte teria lugar uma segunda vaga da invasão, chefiada pelo general árabe Musa, muito mais numerosa, com a finalidade de consolidar a presença muçulmana, sendo esta constituída por tribos de etnia árabe, com origem da Península da Arábia.
Embora, etnicamente, não houvesse qualquer afinidade entre Berberes e Árabes, unia-os, contudo, a mesma confissão religiosa, o Islamismo.
Pelo facto de terem sido os primeiros a iniciar a invasão da Península, em 711, os Berberes achavam-se com maiores direitos do que os Árabes, cujas tribos chegaram depois.
No entanto, na distribuição dos locais a ocupar, os Berberes foram empurrados para o interior da península, para as serras, com terras mais pobres, tendo-se dedicado, principalmente, à agricultura e ao pastoreio, assim como à actividade piscatória, numa posição mais humilde, sentindo-se explorados e deslocados, enquanto os Árabes se fixaram, fundamentalmente, nas cidades.
Este facto levou a que, desde o início, as relações entre Berberes e Árabes corressem constantemente mal.
Os Árabes, por serem originários da pátria do Profeta, sentiam-se com o direito de ocupar os principais cargos políticos e sociais, como os de Califa, Emires, Governadores, Imanes ou Cádis.
Isto levou a que, desde o início, se criasse uma animosidade latente entre ambas as partes, que, num crescendo, levou, em séculos posteriores, a situações de confrontações intestinas e, mesmo, de guerra civil, algo que viria a beneficiar os reis cristãos, na guerra da Reconquista.
Toda esta muito breve introdução que aqui deixo tem, como finalidade, reportar a experiência vivencial que retenho dos meus tempos de catraio.
Como assim ?
Recordo-me, na minha infância, nos anos 40, memória que guardo de um modo muito impressivo, quando, em dias de mercado, os chamados “serrenhos” vinham, dos vários lugarejos da serra algarvia, abastecer-se ao mercado de Messines, com as suas mulas, num tempo em que a mobilidade geográfica dessas pessoas era ainda praticamente nula, desde tempos imemoriais, recordo-me, dizia, que o seu fácies era exactamente o mesmo que podemos ver, nos dias de hoje, num qualquer “souk” marroquino.
Apenas lhes faltava vestir as características “djellabas”.
Afirmo, quase garantidamente, com pouco receio de errar, que os homens e mulheres que eu via eram os descendentes legítimos e directos das populações berberes, que ali se tinham instalado e que, ao longo de treze séculos, desenvolveram, na serra algarvia, ininterruptamente, as suas vidas, no amanho difícil da terra, contraindo ligações de casamento, na mesma aldeia ou na vizinha.
De facto, quando se afirma que os Árabes foram expulsos da Península, devemos fazê-lo com algum cuidado, na medida em que a expulsão existiu, sim, mas para o exército árabe e cúpulas dirigentes.
Os elementos das tribos berberes, sobretudo das classes mais baixas, que aqui se fixaram, ao longo da serra algarvia, fundando os lugares que hoje conhecemos, ou no litoral, fazendo da agricultura ou da pesca o seu humilde modo de vida, esses, continuaram por cá, porque esta era, de facto, desde há muito, a sua terra e a dos seus antepassados.
E aqui permaneceram.
Os meus avós paternos e maternos eram originários da serra.
Os séculos ajudaram a que perdêssemos a verdadeira consciência dos genes berberes que alguns de nós, muito provavelmente, transportam.
Costuma dizer-se que não somos o que queremos, mas o que as circunstâncias fizeram de nós.
Por outro lado, como poderei eu falar “dessa” gente, dos Berberes de antanho, como me sendo alheia, como sendo “os outros”, quando, muito provavelmente, algum do sangue que corre em mim e boa parte dos meus genes são também os seus genes ?
Esta é uma outra face da busca das nossas origens, a par da genealógica …
Rectifico, no quarto parágrafo, a gralha referente ao nome do general árabe, que comandou a segunda vaga da Invasão Árabe da Península Ibérica, em 711, que, por lapso, grafei “Musa”, quando queria escrever “Muça” ( Muça Ibne Noçáir ), comandante, ao tempo, governador do Norte de África e ao serviço do Califado Omíada, de inspiração sunita (o ramo árabe mais conservador e ortodoxo do Islão) e com capital em Damasco.