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Opinião

Um ordenado de mil pães

António Guerreiro
Última Atualização: 2024/Abr/Seg
António Guerreiro
2 anos atrás
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Como num voo aporto em pequenas memórias, sendo a principal a liberdade de um povo.

A história era repleta de heróis, valentes reis e descobridores, o conhecimento livresco das oficiais histórias heróicas (ou nem por isso) de um povo à beira-mar. Mas o que mais me transtornou na escola primária foi a guerra (presente em áfrica), que alastrara nas províncias ultramarinas, nas palavras da professora da 4.ª classe, no ano de setenta e três. Nós não queríamos ir para a guerra, por isso eu desejara ardentemente o seu término, desde logo porque não entendíamos a razão para tal matança entre irmãos, entre povos irmanados.

Não foi bem um dia normal de aulas, esse vinte e cinco de abril de setenta e quatro. Pela manhã fui para a escola preparatória para, salvo erro, ter ciências da natureza, mas a professora testemunhara que algo se passara em Lisboa. Que Lisboa se encontrava cercada de sinais de STOP. O que eu nunca imaginara é que naquele dia, naquele preciso tempo comum de aulas, se iria abrir, em abril, um novo voo, um novo acreditar no futuro. Depois tivemos as aulas, ainda nesse dia, e nos dias seguintes, com outra liberdade para voar.

Rapidamente veio o tempo quente, o maravilhoso verão dos salários mais dignos, do usufruto dos pequenos prazeres de umas férias, da consciência da existência de classes. O ordenado mínimo obrigatório, de três contos e trezentos escudos e um quilo de pão de três escudos e trinta centavos, um ordenado de mil pães foi uma conquista para todos os trabalhadores. Hoje, na mesma razão dos mil quilos de pão, o ordenado mínimo deveria ser acima de dois mil euros. Os trabalhadores passaram a usufruir de férias pagas, de subsídio de férias. O comer fora, a ida à marisqueira dos Camaradas, tudo foram conquistas de um florido mês de abril. A luta e manifestação pelo direito a habitações condignas, a existência (para mim e para a minha família) dos esquentadores, dos banhos com o abandono das duas panelas de água quente.

Enganam-se aqueles que acham que estragaram o meu abril com o seu novembro. Era muito novo e nunca imaginei que o mês outonal de novembro fosse suficientemente forte para chover sobre o florido mês de abril – não choveu em Lisboa como choveu em Santiago do Chile. No final dos anos setenta abracei causas vermelhas. Dessa época guardo na memória um tempo em que, militante confesso, no ensino secundário, tomei partido e participei em reuniões políticas em que acreditava num tempo novo. As comemorações do vinte e cinco de abril no rinque de patinagem [atual praça do município] foram perdendo brilho, mas no início era um evento com fogo de artifício, com fogos no teu olhar, meu amor.

Escrevedor de poemas (cândidos), redigi pequenas histórias do quotidiano, uma delas sobre uma reunião política em Faro (primeira fora de portas) e a ansiedade sobre a hora de regresso a Silves. O dilema de estar presente – partilhando a minha voz com as vozes de outros iguais – e, ao mesmo tempo, a necessidade de me ausentar, de regressar. Será que a minha vida tem sido pautada por regressos? Sempre retornando ao novo dia inicial? Ao dia primeiro de um novo percurso? Ao (re)início de um novo acreditar?

Os inocentes anos em que vivi a possibilidade de uma sociedade socialista (genuína) foram vividos no ensino superior num mundo em mudança com restos de abril ainda nos recantos das cidades, nos primeiros anos de Coimbra. O regular envolvimento político, o cantar de cantos alentejanos e outras modinhas progressistas, a presença num jantar da candidatura do Salgado Zenha e o acreditar em projetos puramente fraternos, fecharam o entusiasmo vanguardista, tendo por contexto internacional a perestroika (reestruturação) e glasnost (transparência) e, mais tarde, a dura consciência da ilusão social do mundo e do homem novo. Mais uma necessidade de recomeço? E por que não? Será assim tão entranho acreditar de novo em tudo como da primeira vez? É preciso iniciar de novo a aprendizagem do voo.

O envolvimento político local, nos anos noventa e na viragem do século (e do milénio), num dos partidos de poder, só reforçou o reconhecimento das minhas fracas qualidades para seguidista, para incondicional com o poder ou as ideias. Por diversas oportunidades assumi a qualidade de dirigente (intermédio), mas por ter pouca vocação para reprodutor das ideias alheias, para ausência de questionamento e sentido crítico, os meus dois percursos políticos foram-se esvaziando como a água da ribeira que nunca chegará ao mar. Gosto de ser um rio com um próprio destino. Onde me leva o destino? Provavelmente ao início de tudo, ao puro acreditar.

Depois, iniciei estas crónicas e fui assumindo, progressivamente, uma voz de esquerda não militante, não engajada em doutrinas fixadas nos partidos políticos da sociedade portuguesa. Este desapegar da defesa partidária não significa, nem nunca significou, uma mudança de valores, uma mudança de referencial de ação. Em todo o recomeço existe um período de experimentação ou de transição. É neste período que, se analisarem as minhas primeiras crónicas neste jornal, vão encontrar pequenas farpas venenosas, mas insuficientes para ferir, dirigidas às políticas e aos políticos, ao poder e aos seus protagonistas, à oposição e aos respetivos atores do respeitado círculo mediático da sociedade silvense, por vezes com um cariz regional e nacional. Progressivamente fiquei livre para assumir, sem constrangimentos de doutrinador e de doutrinado, o que sinto e o que penso. A única situação incómoda é imaginar a inutilidade, para todos os outros, destas minhas falas, por isso escrevo e reescrevo, por vezes, sem avaliar o valor das palavras.

E assim chegado aos cinquenta anos de abril, sinto que retornei ao inicial valor da possibilidade de uma sociedade socialista, certo da urgência de uma construção progressiva de iguais, de gente socialmente igual. Nestes tempos, o que me apraz questionar: Será que recordar abril é uma circunstância política e nada mais? Será que acreditar no sonho de voar foi uma efémera utopia do primeiro ano da revolução? Será que devemos esquecer essa loucura de uma sociedade de iguais?

Sei que aprendi a voar, sei que voei e que, mesmo (des)iludido, ainda recomendo o voo das ideias como uma proposta para o futuro.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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