Nestes primeiros dias do mês de março do ano de dois mil e vinte e quatro, gostaria de vos contar duas pequenas histórias escolares, manifestar a minha crença nas novas gerações, apesar dos episódios anteriores, e refletir sobre a natureza do voar.
A primeira narrativa decorre numa aula de saúde e desenvolvimento da infância e adolescência, numa turma do décimo segundo ano, numa escola secundária do Algarve. O tema abordado na aula foi a vinculação entre o adulto e o adolescente, a partir de um conjunto de situações plausíveis entre o pai ou a mãe e o filho ou a filha. A situação explorava situações de estupefacção do progenitor, em relação a uma notícia dada pelo ou pela descendente. Uma das jovens aventou a suposição de uma gravidez na adolescência. Em reação, os alunos conjeturaram diferentes evoluções da explanação, abordando o tema da interrupção da gravidez. O dissonante nesta história foi a normalidade com que uma jovem mulher supôs a supressão deste direito, nos dias de hoje; o retrocesso desta garantia civilizacional, equiparando o nosso país a outras realidades, como os Estados Unidos da América, em que o recuo legal, sustentado numa política conservadora, penaliza fortemente a mulher e a sociedade humanista e democrática.
A segunda história ocorre na aula de matemática de um sétimo ano de escolaridade, numa turma multicultural, com alunos de distintas proveniências económicas, sociais e culturais, igualmente na região algarvia. O professor iniciou a aula, sumariando a décima e décima primeira lição, no primeiro dia do mês de março. Sensivelmente a meio do ano letivo, estes alunos ainda só tiveram dez aulas de matemática. No decorrer da aula, o professor referiu que apesar de não terem tido um período e meio de aulas, os alunos eram conhecedores da matéria ensinada, estavam bem preparados do ano anterior. Perante esta declaração do docente, os discentes reagiram pela negativa afirmando que, no ano transato, a professora faltou mais do que um período escolar. O assombro resulta da adaptação das crianças à realidade da insuficiência educativa nas nossas escolas públicas, as únicas capazes de uma integração económica, social e cultural da atual diversidade de nações nas nossas salas de aula.
A vulgarização das ideias conservadoras, como panaceia para o futuro, e das insuficiências governativas, em resultado do primor das finanças, pode fazer o seu percurso entre os mais jovens, por breves instantes, mas nunca, nunca será para sempre.
Eu acredito que eles e elas serão sempre os próximos a fazer futuro, um futuro com igualdade de direitos e deveres, um futuro promotor da dignidade humana de, para e com todos.
Todos sabemos que o Diogo Ribeiro não nada, ele voa: 50 metros em 22,97 segundos e 100 metros em 51,17 segundos. É de facto uma borboleta. Aprendeu a voar, como todos os jovens, um dia voarão.


