Após horas de debates entre os partidos com representação parlamentar e os principais líderes partidários e, por isso, candidatos a primeiro-ministro, pouco ou nada se falou do mundo, dos seus riscos e desafios que podem ter impacto em Portugal. Basta observar um mapa para verificar que Portugal está inserido entre o Atlântico norte e o Atlântico sul, entre o Mediterrâneo e o Atlântico, entre o resto da Europa e as Américas e África.
Todavia, decorridos os debates na TV e rádio, salvo raríssimos apontamentos, fica a sensação de que Portugal está orgulhosamente só, alheado de tudo o que se passa à sua volta.
A política externa Portuguesa move-se essencialmente em três eixos: Europa, Atlântico e os países de língua portuguesa. A Europa depara-se com uma crise demográfica, uma população envelhecida com baixa natalidade que coloca em causa a renovação geracional e por conseguinte a sustentabilidade dos sistemas de segurança social e de saúde com impacto no crescimento económico a longo prazo. Desde a queda do muro de Berlim que a defesa do espaço territorial dos países europeus foi perdendo preponderância, convertendo-se em projeção de poder e de força, ora de forma suave recorrendo à persuasão e influência para atingir os objetivos, quer mais musculada para utilização em missões no estrangeiro essencialmente no âmbito da ONU em operações de manutenção, construção ou imposição da paz, e da NATO. Porém, com a operação militar russa na Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022 – uma invasão que marcou a segunda fase de um plano já iniciado em 2014 na Crimeia – os paradigmas europeu e mundial mudaram e, no entanto, pouco ou nada se disse sobre o assunto ou, por exemplo, acerca da construção de um pilar europeu de segurança e defesa, em articulação com a NATO, que seja verdadeiramente capaz de projetar segurança e assegurar a defesa territorial e dos cidadãos.
No eixo atlântico, a NATO e o relacionamento com os países aliados que compõem a Aliança Atlântica tem uma centralidade evidente. Uma aliança política e militar de defesa que fruto da posição russa viu recentemente aumentar a lista de países membros com as entradas da Finlândia e da Suécia, completando assim os seus flancos leste e norte. Importa contudo não descurar o flanco sul da Aliança, numa lógica de segurança de 360 graus, pelo que convém olhar para as preocupações oriundas do continente africano (norte de África e no Sahel) assim como o Médio Oriente e, nesse âmbito, foi criado um grupo de estudo da NATO em Portugal para estudar estas matérias e apresentar as suas conclusões na cimeira a decorrer em Washington por ocasião do 75º aniversário da NATO. De notar que há pelo menos um partido que defende formalmente no seu programa eleitoral a saída de Portugal da NATO, o desarmamento do país e a conversão da base aérea das Lajes nos Açores num aeroporto civil. Gostava muito que explicassem aos portugueses como é que, sem a NATO e sem a defesa europeia, o país se defenderia perante uma ameaça externa como aquela que a Rússia realizou em 2022 na Ucrânia.
Termino com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Situada no extremo nordeste de Moçambique está a província de Cabo Delgado que alberga uma das maiores reservas de gás natural do mundo e onde o Estado Islâmico, através do auto-intitulado Governo Islâmico de Moçambique, tem destruído missões cristãs, cometendo atrocidades pelo caminho, e declarou recentemente uma Guerra Global aos Cristãos. Os habitantes de Cabo Delgado já são confrontados com a obrigação de se converter ao Islão, pagar um imposto especial ou perder a vida. Uma situação deveras preocupante com extremistas violentos. Se solicitado a participar, deve Portugal enviar tropas incluídas numa missão internacional da União Europeia como fez no passado? A visão de cada partido sobre este e outros temas do palco internacional revela muito sobre como olham para o Mundo, do que poderá ser a Política Externa e Política de Defesa do país, mas também como o Mundo poderá olhar para Portugal após o dia 10 de Março.






