David, de Miguel Ângelo, é uma estrela porno. Pelo menos para três encarregados de educação norte-americanos. Apresentaram queixa ao diretor da Tallahassee Classical School, na Florida, por uma professora ter mostrado David a alunos de onze e doze anos. A impudica professora foi forçada a demitir-se.
David, anda assim imperfeito desde 1504. A excrescência pendente, deste rapagão de 5 metros de altura, terá sido o motivo da queixa. A coisa não podia ser pequena. Miguel Ângelo Buonarroti tinha de manter o sentido das proporções, o que em arte é sempre recomendável.
Não é difícil imaginar o que passou pela cabeça daqueles pais tão castos, graças a Deus. Recearam que uma irreprimível ereção perpétua de David, dura como mármore de Carrara, fosse por aí fora estuprar a nação americana.
Miguel Ângelo é, para os bons puritanos e nada ignorantes americanos, um devasso. Na sua monumental obra, não deu apenas vida a David. Naquela mente perversa, habitou sempre a tara de pintar cenas de nus pelas igrejas. Só no tecto da Capela Sistina e deitado – um homem deitado vê-se logo o que quer – pintou trezentas representações em mais de mil metros quadrados. Muitas delas a mostrar o sexo das personagens. Tudo concebido sem vergonha, a pedido de outro devasso, o Papa Júlio II.
Cenas lúbricas ‘afresco’, ficaram ali em exposição para espevitar a líbido dos cristãos. Imagens bíblicas como a criação do Sol e da Lua, de Adão e Eva, o pecado original, o dilúvio, a bebedeira de Noé, a separação da luz das trevas … foram criadas para levar intencionalmente à perdição. Impróprias para fiéis nunca dados a infidelidades.
As cenas bíblicas pornográficas, como aqueles bons pais também achariam se as contemplassem, levaram a que o Concílio de Tento tentasse ditar-lhes um fim. Foi reactivada a Santa Inquisição para reprimir heresias e práticas nefandas e criado o Index proibindo de livros perigosos. Os excitáveis membros do clero foram obrigados ao celibato. Um padre casadoiro não faz sentido, em 1563, muito menos hoje.
O papa Pio V, pouco depois do Concílio, deu ordem para a que se tapassem aquelas indecências bíblicas da Capela Sistina. Mandou pintá-las e escondê-las do olhar libidinoso dos que só pensavam em sexo.
Preveniram-se assim ‘ad eternum’ as tentações da carne. Nunca mais as houve. Nem na penumbra dos confessionários, no lusco-fusco das sacristias, nos lençóis suados da vida profana. Sexo apenas para procriar. E bebés entregues ao domicílio no bico das cegonhas.
Fico feliz por o santo pudor de Pio V estar a regressar à beatitude geral do século XXI. Dos Estados Unidos, farol do mundo, vêm os melhores exemplos. Pais vigilantes, como os destes alunos a espigar buço ou entumecer maminhas, merecem a nossa admiração.
Infelizmente, nem sempre as coisas correm pelo melhor. Um pai de muitos filhos, um ex-presidente que quer voltar a sê-lo, vê-se agora em maus lençóis por ter praticado mais uma das suas infinitas boas acções. É acusado pela justiça por ter pago a uma tempestuosa estrela de filmes de adultos para se calar. Tanto mais injusto quanto, anos antes, tinha desembolsado muitos dólares para a imaculada senhora dar uns gritinhos.
Para quê esta sanha persecutória? Nem sequer a legítima primeira dama os teria ouvido. Gritinhos sufocados nunca furam as paredes de uma suite imperial em Mar-a-Lago.
Mas este é apenas um percalço na indomável vontade das almas santas, como a deste ex-presidente, para endireitar a sociedade. Digo bem, endireitar. Os bons costumes estão felizmente a tomar conta do mundo. A boa onda conservadora e autoritária, vai deixar a humanidade muito mais asseada.
Quem o não quiser aceitar, resigne-se. Ou, melhor, persigne-se. Se o não conseguir, tenha mil cautelas. Faça as piores baixezas e acrobacias, mas nunca alardeie. Escolha lugares esconsos, sem sinal de rede, e deleite-se.
O que não anda nas bocas do mundo não existe. Quem disser o contrário, mente.






