Silves é uma cidade (talvez das poucas) sem arte, sem a sétima arte. Bem sei que as idas ao cinema já não são o que eram, mas, mesmo assim, fazendo uma pesquisa sobre os fracos números de os espectadores de cinema em Portugal, posso concluir que, em termos estatísticos, as pessoas vão pelo menos uma vez por ano ao cinema. Em Silves não é certamente. Não existe vontade nem visão sobre uma verdadeira promoção do cinema.
Agora mesmo, em lugar de estar a escrever esta crónica, deveria estar a ver um filme no Teatro Mascarenhas Gregório de nome Bostofrio de Paulo Carneiro (já passado na RTP2). Acontece que, após cerca de 20 minutos de projeção, ficamos a saber que o ficheiro estava corrompido e que, portanto, não era possível ver o filme programado. Em opção, a curadora decidiu repetir curtas exibidas anteriormente. Eu saí da sala, reconheço sem dar o devido desconto, mas fiquei demasiado irritado com o amadorismo revelado pela organizadora inerente à não confirmação da qualidade e viabilidade do ficheiro do filme.
Bem sei que era uma iniciativa menor, sem a presença de ninguém de topo da autarquia silvense, mas mesmo assim a dignidade do evento ficou irremediavelmente machada por um imprevisto que, de todo, não era possível ocorrer. A poderosa tecnologia exige uma redobrada atenção, antes da programação destes eventos.
A sala do Teatro Mascarenhas Gregório poderia ter uma regular programação de cinema, com a devida qualidade, numa conjugação entre mostras de cinema e programação alternativa, mas ninguém parece disposto a pensar e a programar com sentido as atividades culturais na cidade de Silves.
Entretanto o Cine Teatro Silvense, ou antes, as ruínas destelhadas do mesmo, aguardam que as chuvas e outras intempéries transformem o edifício num potencial perigo para os habitantes que partilham paredes meias com a edificação. Silves merecia uma solução para aquele espaço, uma sala de espetáculos com capacidade e com qualidade para ser um referencial cultural na cidade e no concelho.
Até eu, que durante cerca de quarenta anos fui semanalmente ao cinema, já pouco vou, particularmente porque terei de me deslocar forçosamente para fora da cidade. Portimão são vinte minutos de carro, mas não dá para ir a pé até ao cinema. Tenho saudades das fitas de cinema na minha cidade.
Estamos em abril e, especialmente neste mês da revolução, sinto uma mágoa enorme pela inexistência da sétima arte em Silves.


