Numa época em que muito se tem falado de educação, particularmente do cansaço dos professores e das suas (justas) reivindicações, existe uma queixa regular (junto a minha voz a todas as outras, igualmente no ensino superior) sobre o excesso de burocracia que, acredito, tem duas dimensões, uma de facto burocrática de alimentação da administração pública e outra, necessária, de planeamento das aulas e outras atividades letivas e respetiva reflexão sobre as ações educativas.
Aquela ideia do professor que segue sistematicamente o manual adotado, de forma acrítica, hoje vamos na página 34, está cada vez mais em desuso, mas todos temos consciência de que ainda existe. Será este tipo de profissional, sem qualquer nível de burocracia, que queremos para as nossas escolas públicas? O problema é que este operário, em desfavor de um profissional reflexivo, é também pouco questionador em relação às próprias estratégias educativas e à forma de lecionar a sua área de conhecimento. Ilustro a diferença de abordagens no ensino da matemática (deformação profissional) com uma pequena metáfora a propósito da tabuada do oito.
O professor da escola primária mandara realizar dez vezes a tabuada do oito. E a criança com enfado ia traçando no caderno 1×8=8, 2×8=16, 3×8=24, 4×8=32, 5×8=40, depois parava e protestava, juntando as mãos em sinal de irritação pela atividade rotineira sem qualquer sentido. A mãe diligentemente dizia:
–Filho, faz o trabalho de casa.
Olhando para o caderno, acrescentava:
– Vá, escreve 6×8=48, 7×8=56, 8×8=64, 9×8=72 e 10×8=80. É para aprenderes.
E a criança suspirava, avançando lentamente, e todo o seu rosto se transformava num crescente aborrecimento. A criança sabia que para multiplicar por oito bastava dobrar três vezes. Pensava seis vezes oito; seis mais seis, doze; doze mais doze, vinte e quatro; e vinte e quatro mais vinte e quatro, quarenta e oito. Para que servia memorizar aquela tabuada do oito, se, com o seu método, saberia qualquer número a multiplicar por oito, mesmo os números que não estavam na tabuada. Pensava, doze mais doze, vinte e quatro; vinte e quatro mais vinte e quatro, quarenta e oito; quarenta e oito mais quarenta e oito, noventa e seis. E escrevia 12×8=96.
A valorização da escola pública e dos professores e outros profissionais da escola passa em primeiro lugar pela lucidez de questionar a ação educativa e reconhecer o mérito (e o desmérito) de todos e de cada um.






