É meio do mês de Janeiro. Os jogadores aguardam o pontapé de saída. Os equipamentos dourados e azuis traçam a linha que separam as equipas. Ambas as equipas passaram os últimos dias em estágio num hotel, e preparam-se para demonstrarem ao selecionador o que poderão fazer num contexto de jogo. A luz solar, trémula e já insipida, dissipa-se à medida que o sol desce no horizonte, sendo substituída pela luz esbranquiçada que emerge dos projectores do estádio. A temperatura está nos doze graus, muito acima do que os jogadores presentes no relvado estão acostumados nesta altura do ano. Da bancada surgem olhares atentos de indivíduos em fatos de treino, acompanhados por sussurros e apontamentos em papel já timbrado com um campo de futebol estilizado. No meio desta disposição profissional juntam-se adeptos, poucos, mas fervorosamente equipados com cachecóis azuis e dourados. O apito é dado, o jogo começa. A bola rebola pelo relvado verde e a partida inicia-se.
A partida que descrevi retrata o confronto futebolístico de natureza amigável entre duas nações escandinavas: a Suécia e a Islândia. Ambas as seleções apresentam equipas abaixo da sua composição normal, preferindo levar ao relvado jogadores que nunca envergaram as camisolas da seleção nacional. Oriundos da Allsvenskan, a primeira divisão sueca e da Besta deildkarla, a primeira divisão islandesa, e de outras competições do norte da Europa, estes jovens jogadores procuram a porta de entrada para a sua seleção nacional; para as equipas técnicas das federações, são uma oportunidade de testar e verificar capacidades humanas e técnicas para futuras convocatórias.
Nada disto teria grande interesse; são jogos e estágios sem grande interesse para o público em geral. O que difere aqui, e que releva para este artigo, é que a partida mencionada teve lugar no Estádio do Algarve. Nos dias anteriores, as seleções da Estónia e da Finlândia faziam jogos de gabarito semelhante, com o intuito de testar jogadores. Também em Janeiro, a equipa do Wolfsburg da Bundesliga alemã estagiou alguns dias no Algarve, tendo feito um amigável com o rival Hoffenheim. A Roma, de José Mourinho, campeã da UEFA Conference League aproveitou a pausa que o Mundial de futebol proporcionou para efectuar um estágio e uma série de jogos em Albufeira no final de Dezembro. O início do mês de fevereiro traz ao Algarve a já habitual Atlantic Cup, que junta numa competição, algumas das maiores equipas da Europa do Norte e Central. Iniciada em 2011, a competição deste ano traz equipas como o FC København (campeão dinamarquês da época transacta), o AIK Stockholm da Suécia, os ingleses do Brentford B e os sul-coreanos doUlsan Hyundai, campeões da Liga dos Campeões Asiáticos em 2020, num total de 10 equipas.
O clima ameno do Algarve, com temperaturas relativamente elevadas para os meses de janeiro e Fevereiro são uma autêntica bênção para clubes de futebol que têm os seus campeonatos parados nestes meses devido às temperaturas negativas que se fazem sentir e que impedem a prática desportiva. Esta foi uma oportunidade que aparentemente os responsáveis hoteleiros identificaram corretamente, e procederam a uma série de investimentos com o intuito de criarem as infraestruturas para atrair e acomodar esta procura.
Nos últimos anos surgiu uma série de equipamentos dedicados ao turismo desportivo um pouco pelo Algarve, de Vila Real de Santo António a Lagos, que materializaram e deram corpo a um turismo que até então era pouco explorado. A existência de campos de futebol dedicados, com ginásios e equipamentos específicos para a atividade são uma mais-valia para a atração do turismo futebolístico.
Parece que o Algarve está firmemente implantado na rota dos estágios dos clubes de futebol durante o inverno, algo que há alguns anos parecia impensável. Em 2011 escrevi nesta coluna um artigo a clamar exatamente que o Algarve teria condições únicas para a atração de equipas de futebol do Norte da Europa. A realidade de 2023 deixa-me aprazivelmente surpreendido com a dinâmica deste turismo, principalmente por proporcionar ocupação a uma capacidade instalada que, de outra forma estaria por utilizar. É um bom indicativo que talvez a redução da sazonalidade seja possível, mesmo através do turismo.
A longevidade da Atlantic Cup é outro aspeto a salientar; é uma competição já com tradição que, mais do que o valor futebolístico que traz, também leva a nossa região aos confins dos países dos clubes que cá vêm jogar. Que melhor postal do Algarve poderemos dar aos adeptos dessas equipas, encarquilhados do frio gélido, do que uma região em que se pode jogar futebol à noite, de calções, em meados de janeiro?
Pouco a pouco, este turismo poderá tornar-se uma indústria de valor acrescentado, uma componente importante da nossa marca enquanto região. Dá utilidade ao “monólito” que é o Estádio do Algarve, que pelo menos vê alguma utilização no inverno, com a Atlantic Cupe os jogos das seleções e poderá haver ainda um efeito benéfico para as equipas da Liga Portuguesa. Um dos jogadores dessa seleção sueca que defrontou a Islândia no Estádio do Algarve, Joe Mendes, assinou contrato com o SC Braga; talvez a presença dele no Algarve tenha sido o que despoletou o interesse.
Os golos que a região marca podem, aparentemente, ir mais além do futebol.



