E quando nos damos conta, é dezembro outra vez. Estamos de novo em plena época natalícia, já sem máscara, e com um atípico campeonato do mundo de futebol. Como há um ano escrevia nestas mesmas páginas, os jogos deste campeonato do mundo de futebol são acompanhados de filhós e outras iguarias que só comemos no Natal, algo tão estranho como ver estádios construídos sobre as areias do deserto, equipados com aparelhos de ar condicionado.
E enquanto estamos envolvidos na habitual azáfama de compras de Natal e tentamos acompanhar aquele Brasil-Coreia do Sul ou o Portugal-Suíça ou a Serenela Andrade e o Carlos Malato a apresentar o “Natal dos Hospitais”, os jornais tem jorrado rios de tinta com a crise que se vive nas urgências e hospitais deste país, com amontoados de pacientes a aguardarem horas infinitas para serem atendidos.
Todos conhecemos as “anedotas”, seja por experiência própria ou por de familiares e amigos, dos que, por infeliz necessidade, tiveram de se socorrer dos serviços médicos. Arranjar uma consulta ou mesmo um simples exame pode constituir uma tarefa hercúlea que requer uma paciência que faria corar qualquer mestre shaolin; quanto às urgências, é óbvio que o termo “urgência” é algo relativo, e refere-se a situações em que um paciente pode esperar algumas horas.
Dores estomacais agonizantes? Sente-se aí durante 6 horas, que já é atendido. Uma faca espetada no abdómen? Fique lá quietinho que já lá chegamos. Internado e precisa de um medicamento para tratamento? Peça aos familiares que o tragam, que o hospital não o tem. Sente-se mal? Volte amanhã, que hoje as urgências estão fechadas.
Não culpo os médicos, enfermeiros, administrativos e demais pessoal que labutam nos corredores dos estabelecimentos de saúde. Os hospitais da região do Algarve estão vítimas de crítico desinvestimento, humano, material e de mantimentos básicos. Por exemplo, os serviços de obstetrícia e de pediatria dos Hospitais de Portimão e Faro estão constantemente entupidos, quando não estão fechados de todo. Óbvio que as pessoas procuram respostas paras as suas maleitas, ou as dos seus filhos e pais, recorrendo aos hospitais privados. E mesmo esses estão a rebentar pelas costuras. Em dia de fecho das urgências pediátricas do Hospital de Faro, o tempo de espera de atendimento num hospital privado superou as 7 horas.
O algarvio está demasiado bem habituado a estas situações; a saúde na região sempre foi paupérrima e sempre consideramos natural uma espera de horas para ser atendido no hospital, algo que não se repercutia no resto do país. Há uns anos, quando falava com amigos e familiares de outras zonas do país, estes não percebiam porque, quando tínhamos uma emergência médica no Algarve às 17h00 da tarde, dificilmente iriamos jantar a casa. Para o algarvio, isto afigura-se a algo perfeitamente natural e um facto expectável da vida, quando é tudo menos isso.
Á medida que o desinvestimento público se acumulava, e as condições de funcionamento do serviço de saúde se degradavam, as condições precárias do SNS do Algarve transformaram-se em algo próximo do terceiro-mundista. E há muito pouco que qualquer administração regional possa fazer sem um programa robusto de investimento público nas infraestruturas e na atração de recursos humanos, tanto em médicos como enfermeiros. O Hospital Central do Algarve já se assemelha a uma cortina de fumo em que nos envolvem, com vãs promessas de construção, discutida há anos, quando deveriam focar-se no reforço dos hospitais existentes da região. O hospital central não encerra, em si, a resolução da questão da saúde do Algarve, uma intervenção de fundo é precisa de forma transversal na região.
A melhor prendinha que os algarvios poderiam receber no sapatinho é este esforço de capacitação e reabilitação do SNS da região do Algarve, por parte do governo central. Depois deste presentinho, pensar-se-ia no Hospital Central do Algarve para outro Natal. Mas desconfio que tanto neste, como nos outros, o nosso sapatinho continuará vazio.
Feliz Natal!






