Fiquei feliz com a prenda do meu aniversário. Não garanto que ainda o esteja. Comecei a abrir o pacote. Lá dentro um smartwatch. Um relógio inteligente, como é respeitosamente tratado em Portugal.
Um relógio inteligente, para quem não se ache burro, intimida. A inteligência da pessoa desata a pedir meças com a dele. Nunca ganha.
A ideia da prenda não sei se foi da esposa («mas serás tua minha querida esposa, / aquela que se me ofereceu menina?», como Alexandre O’Neil duvidava da sua no poema). Ou da filha (uma boa filha duvida sempre de um pai cheio de dúvidas e vazio de certezas). Ou do putativo genro (um futuro sogro acredita sempre que um genro com futuro – ‘genre humain’ para franceses e algarvios- nunca vê a filha do pai como putativa esposa. Pelo contrário, real, séria e para a vida).
O que fazer com um inteligente quando se é obrigado a andar sempre com ele amarrado ao pulso? À primeira dificuldade, fiquei bloqueado. Fui obrigado a emparelhar o inteligente com o telemóvel para funcionar. Se não o fizesse era como uma escrava que as senhoras usam e não dão horas.
A filha explicou tudo, como se fosse useira e vezeira na difícil arte de emparelhar. Pôr um com o outro, o relógio e o telemóvel, a fazer parelha, incomodou-me. Nunca gostei de parelhas. Muito menos em casa. A sociedade goza quando, em cochicho, alguém se descai: «sabias que o Virgílio foi emparelhar-se com a mulher do Anastácio e este ficou com uma parelha?» Não sei.
Depois de bem emparelhados, o relógio e o telemóvel, tive de os baptizar com os adequado nomes de Virgílio, o primeiro, e Anastácio, o segundo. Gosto de tratar entes superiores com respeitinho.
Como o inteligente também dava horas, comecei a acreditar que afinal era uma boa prenda. Não eu, mas o Virgílio. Podia fazer, receber e rejeitar chamadas telefónicas, a parte mais conveniente – «agora não posso falar!», com um simples piparote do indicador. A outra, que recebe o alerta no mesmo instante, desconfia: «-Malcriadão! Com quem estará para não me atender?»
De apreensão em apreensão, constatei um facto preocupante. Estava a ser policiado. Péssimo. Nunca gostei que me controlassem os movimentos. Muito menos os mais íntimos. Desde logo o ritmo cardíaco. O coração batia e ainda bem. Em repouso, quarenta e cinco pulsações por minuto. Em exercícios na horizontal, muito mais. Não se deve olhar para o smartwatch para contá-las. A desconcentração arrefece as extremidades.
Sem o notar, depois de me erguer da cama, já tinha dado 2087 passos. Estava a mexer-me apenas há 37 minutos já tinha abatido ao corpanzil 58 quilo calorias. Fiquei contente. Não notei diferença na massa corporal. As quilo calorias deviam ser medidas em quilos. Não em miligramas. E numa balança de precisão, das que se usam para pesar pó branco.
Depois fui aconselhado pelo Virgílio a medir o SpO2. Ordenou-me: «mantenha-se imóvel com o ecrã para cima». Para quem não é doutorado em biologia, o SpO2 é o índice de saturação de oxigénio no sangue. Andei muitos anos saturado dos dias e das pessoas. Agora constato que nunca estive sozinho. O meu sangue sempre me acompanhou na saturação.
Com o Virgílio agora a algemar-me o pulso, cada vez que me demoro no computador, salta-me um avatar, armado em parvo, a gesticular: «Ande um pouco!» Ai, avatar, do cacete! Se fosses bugiar com a tua avó! Eu sei que na religião hinduísta és um ser imortal. Mas eu sou um pobre mortal, católico, preguiçoso em demasia para assistir santo sacrifício da missa.
Muitas outras especiosidades o smart Virgílio possui. Não sei como usá-las. Diz-me que o céu está limpo, como se eu não soubesse por a cabeça nas nuvens, quando as há. Que o índice ultra violeta está baixo. Ainda bem. Não gosto de ultras. Muito menos de violetas que me lembram a Paixão de Cristo. O Virgílio também gosta de me mostrar as fases da lua, como se eu fosse um lunático. E a percentagem de iluminação do vicioso satélite que mandar mais nas marés do que nos marinheiros.
O mais preocupante, é que o Virgílio não gosto que vá dormir sem ser na sua companhia e algemado durante o sono. Para quê? Para obter dados. Obter dados? Nessa não me apanhas ó Virgílio. E quem processa os dados? O Anastácio? Ou o avatar que não gosta que me demore ao computador. Vai tu!
Um homem não deve fazer anos. Envelhecer, deveria ser proibido por lei divina ou humana. Quando um infeliz celebra o aniversário há sempre alguém à coca. Uma prenda inteligente traz sempre água no bico. Os mais chegados, a pretexto de contentar o parabenizado, como agora se diz, desunham-se para cair nas boas graças da vítima, eu. As intenções são as melhores. As segundas intenções, as piores.
Um relógio no pulso se antes era uma algema agora é a prisão perpétua. Passámos a ser irrefreavelmente governados pelos carcereiros do tempo.
Dormir algemado e com um polícia na cama? Nunca! Já basta a minha querida esposa, que dele faz as vezes. Não quero que um polícia, escondido num smartwatch, saiba como durmo, trepido ou dou roncos nas apneias do sono.
Por ora não irei passar das funções básicas do smart Virgílio. Concedo-lhe que me dê as horas e desperte para a vida. Ligarei de vez em quando, isso sim, aos simpáticos doadores da prenda de aniversário. Apenas para saber se estão bem. E nem precisam de me ligar. Estarei sempre pronto a disparar: «agora não posso falar!». Prenda que prende é o pior da violência doméstica. Pior que prenda envenenada. Porque os encarcerados andam contentinhos. E gostam de o exibir. Coitados.








