Ao utilizar este site, concorda com a nossa politica de privacidadePolitica de Privacidade e Termos e Condições.
Accept
Terra RuivaTerra RuivaTerra Ruiva
  • Concelho
  • Sociedade
    • Ambiente & Ciência
    • Cultura
    • Educação
    • Entrevista
    • História & Património
    • Lazer
    • Política
  • Opinião
  • Vida
  • Economia & Emprego
  • Algarve
  • Desporto
  • Autores
    • António Eugénio
    • António Guerreiro
    • Aurélio Cabrita
    • Carlos Osório
    • Clara Nunes
    • Débora Ganda
    • Eugénio Guerreiro
    • Fabrice Martins
    • Francisco Martins
    • Frederico Mestre
    • Helena Pinto
    • Inês Jóia
    • José Quaresma
    • José Vargas
    • Maria Luísa Anselmo
    • Maria José Encarnação
    • Miguel Braz
    • Paula Bravo
    • Paulo Penisga
    • Patricia Ricardo
    • Ricardo Camacho
    • Rocha de Sousa
    • Rogélio Gomes
    • Sara Lima
    • Susana Amador
    • Teodomiro Neto
    • Tiago Brás
    • Vera Gonçalves
  • Página Aberta
  • AUTÁRQUICAS 2025
    • AUTÁRQUICAS 2021
  • Edições
Reading: Prenda que prende
Partilhe
Font ResizerAa
Terra RuivaTerra Ruiva
Font ResizerAa
  • Home
  • Demos
  • Categories
  • Bookmarks
  • More Foxiz
    • Sitemap
Follow US
  • Advertise
© 2022 Foxiz News Network. Ruby Design Company. All Rights Reserved.
Opinião

Prenda que prende

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2022/Nov/Sex
José Alberto Quaresma
4 anos atrás
PARTILHE

Fiquei feliz com a prenda do meu aniversário. Não garanto que ainda o esteja. Comecei a abrir o pacote. Lá dentro um smartwatch. Um relógio inteligente, como é respeitosamente tratado em Portugal.

Um relógio inteligente, para quem não se ache burro, intimida. A inteligência da pessoa desata a pedir meças com a dele. Nunca ganha.

A ideia da prenda não sei se foi da esposa («mas serás tua minha querida esposa, / aquela que se me ofereceu menina?», como Alexandre O’Neil duvidava da sua no poema). Ou da filha (uma boa filha duvida sempre de um pai cheio de dúvidas e vazio de certezas). Ou do putativo genro (um futuro sogro acredita sempre que um genro com futuro – ‘genre humain’ para franceses e algarvios- nunca vê a filha do pai como putativa esposa. Pelo contrário, real, séria e para a vida).

O que fazer com um inteligente quando se é obrigado a andar sempre com ele amarrado ao pulso? À primeira dificuldade, fiquei bloqueado. Fui obrigado a emparelhar o inteligente com o telemóvel para funcionar. Se não o fizesse era como uma escrava que as senhoras usam e não dão horas.

A filha explicou tudo, como se fosse useira e vezeira na difícil arte de emparelhar. Pôr um com o outro, o relógio e o telemóvel, a fazer parelha, incomodou-me. Nunca gostei de parelhas. Muito menos em casa. A sociedade goza quando, em cochicho, alguém se descai: «sabias que o Virgílio foi emparelhar-se com a mulher do Anastácio e este ficou com uma parelha?» Não sei.

Depois de bem emparelhados, o relógio e o telemóvel, tive de os baptizar com os adequado nomes de Virgílio, o primeiro, e Anastácio, o segundo. Gosto de tratar entes superiores com respeitinho.

Como o inteligente também dava horas, comecei a acreditar que afinal era uma boa prenda. Não eu, mas o Virgílio. Podia fazer, receber e rejeitar chamadas telefónicas, a parte mais conveniente – «agora não posso falar!», com um simples piparote do indicador. A outra, que recebe o alerta no mesmo instante, desconfia: «-Malcriadão! Com quem estará para não me atender?»

De apreensão em apreensão, constatei um facto preocupante. Estava a ser policiado. Péssimo. Nunca gostei que me controlassem os movimentos. Muito menos os mais íntimos. Desde logo o ritmo cardíaco. O coração batia e ainda bem. Em repouso, quarenta e cinco pulsações por minuto. Em exercícios na horizontal, muito mais. Não se deve olhar para o smartwatch  para contá-las. A desconcentração arrefece as extremidades.

Sem o notar, depois de me erguer da cama, já tinha dado 2087 passos. Estava a mexer-me apenas há 37 minutos já tinha abatido ao corpanzil 58 quilo calorias. Fiquei contente. Não notei diferença na massa corporal. As quilo calorias deviam ser medidas em quilos. Não em miligramas. E numa balança de precisão, das que se usam para pesar pó branco.

Depois fui aconselhado pelo Virgílio a medir o SpO2. Ordenou-me: «mantenha-se imóvel com o ecrã para cima». Para quem não é doutorado em biologia, o SpO2 é o índice de saturação de oxigénio no sangue. Andei muitos anos saturado dos dias e das pessoas. Agora constato que nunca estive sozinho. O meu sangue sempre me acompanhou na saturação.

Com o Virgílio agora a algemar-me o pulso, cada vez que me demoro no computador, salta-me um avatar, armado em parvo, a gesticular: «Ande um pouco!» Ai, avatar, do cacete! Se fosses bugiar com a tua avó! Eu sei que na religião hinduísta és um ser imortal. Mas eu sou um pobre mortal, católico, preguiçoso em demasia para assistir santo sacrifício da missa.

Muitas outras especiosidades o smart Virgílio possui. Não sei como usá-las. Diz-me que o céu está limpo, como se eu não soubesse por a cabeça nas nuvens, quando as há. Que o índice ultra violeta está baixo. Ainda bem. Não gosto de ultras. Muito menos de violetas que me lembram a Paixão de Cristo. O Virgílio também gosta de me mostrar as fases da lua, como se eu fosse um lunático. E a percentagem de iluminação do vicioso satélite que mandar mais nas marés do que nos marinheiros.

O mais preocupante, é que o Virgílio não gosto que vá dormir sem ser na sua companhia e algemado durante o sono. Para quê? Para obter dados. Obter dados? Nessa não me apanhas ó Virgílio. E quem processa os dados? O Anastácio? Ou o avatar que não gosta que me demore ao computador. Vai tu!

Um homem não deve fazer anos. Envelhecer, deveria ser proibido por lei divina ou humana. Quando um infeliz celebra o aniversário há sempre alguém à coca. Uma prenda inteligente traz sempre água no bico. Os mais chegados, a pretexto de contentar o parabenizado, como agora se diz, desunham-se para cair nas boas graças da vítima, eu. As intenções são as melhores. As segundas intenções, as piores.

Um relógio no pulso se antes era uma algema agora é a prisão perpétua. Passámos a ser irrefreavelmente governados pelos carcereiros do tempo.

Dormir algemado e com um polícia na cama? Nunca! Já basta a minha querida esposa, que dele faz as vezes. Não quero que um polícia, escondido num smartwatch, saiba como durmo, trepido ou dou roncos nas apneias do sono.

Por ora não irei passar das funções básicas do smart Virgílio. Concedo-lhe que me dê as horas e desperte para a vida. Ligarei de vez em quando, isso sim, aos simpáticos doadores da prenda de aniversário. Apenas para saber se estão bem. E nem precisam de me ligar. Estarei sempre pronto a disparar: «agora não posso falar!». Prenda que prende é o pior da violência doméstica. Pior que prenda envenenada. Porque os encarcerados andam contentinhos. E gostam de o exibir. Coitados.

 

Total Views: 0
Antes do Mundial, Silves já era cromo
Vila de Silves
Sacrifício para os de baixo, privilégios para os de cima
Lucros versus Populações
Algoritmo
TAGGED:José Alberto Quaresmaprenda que prende
Partilhe este artigo
Facebook Email Print
PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
Artigo Anterior Inauguração do Polidesportivo de Tunes
Próximo Artigo 16ª Semana Gastronómica em Messines
Sem comentários

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Últimas

Super Arraial em São Marcos da Serra
Lazer Sociedade
Moto Clube do Algoz comemora aniversário, com várias atividades
Lazer Sociedade
Estacionamento condicionado em Silves, no Largo Jerónimo Osório
Concelho
Dia Mundial da Conservação da Natureza: a GNR reforça papel do SEPNA na proteção da biodiversidade e na recuperação de espécies ameaçadas
Ambiente & Ciência Sociedade
Tiago Ramos, de Tunes, é vice- campeão nos 10 mil metros marcha
Desporto

– Publicidade –

Jornal Local do Concelho de Silves.

Links Úteis

  • Notícias
  • Estatuto Editorial
  • Ficha Técnica

Publicidade

  • Publicidade & Assinaturas
  • Conteúdo Patrocinado

Info Legal

  • Contactos e Info Legal
  • Termos e Condições
  • Politica de Privacidade

Siga-nos nas Redes Sociais

© Copyright 2025, Todos os Direitos Reservados - Terra Ruiva - Created by Pixart
Ajustes de acessibilidade

Com tecnologia de OneTap

Durante quanto tempo queres ocultar a barra de acessibilidade?
Duração de ocultação da barra
Perfis de acessibilidade
Modo de Deficiência Visual
Melhora os elementos visuais do site
Perfil Seguro para Convulsões
Remove flashes e reduz cores
Modo Amigável para TDAH
Navegação focada, sem distrações
Modo de Cegueira
Reduz distrações, melhora o foco
Modo Seguro para Epilepsia
Escurece cores e para o piscar
Módulos de conteúdo
Tamanho do ícone

Padrão

Altura da linha

Padrão

Módulos de cor
Módulos de orientação
Welcome Back!

Sign in to your account

Username or Email Address
Password

Lost your password?