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Opinião

A prisão na Portela de Messines ou a parca estratégia dos agentes políticos do concelho

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2022/Nov/Ter
Aurélio Cabrita
4 anos atrás
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Tem sido amiúde notícia, nos últimos anos, a pretensão de vários partidos políticos de Silves em concretizarem a construção do estabelecimento prisional do Algarve, junto à Portela de Messines.

O assunto remonta à década de 1980, quando o Estado pretendeu a edificação desta infraestrutura, procedendo à expropriação dos terrenos para o efeito, sob forte contestação popular. Esta foi de tal ordem que a referida prisão caiu no esquecimento. Até que, recentemente, diferentes forças políticas concelhias iniciaram diligências para a sua construção, como elemento que entendem primordial de desenvolvimento para a freguesia de São Bartolomeu de Messines.

Ora, o concelho de Silves enferma desde há muito por políticas e políticos desfasados do tempo, estamos em 2022, mas basta uma leitura das atas de vereação (disponíveis no sítio da internet da autarquia), lavradas quinzenalmente, para compreendermos o vazio de ideias e perspetivas de desenvolvimento para este território e a crítica não é dirigida ao executivo permanente, antes pelo contrário, mas a todas as forças partidárias. Silves, com uma localização privilegiada no coração do Algarve, com infraestruturas rodo-ferroviárias que nenhum outro desfruta, uma história milenar, não consegue ultrapassar a letargia que há décadas mergulhou. Até no mais básico, como o slogan, utilizado na promoção do concelho, «da serra ao mar», é exemplo, ele adapta-se tão somente a 9 dos 16 concelhos do Algarve, tal é a sua «singularidade» …

Mas regressemos à vila de São Bartolomeu de Messines, outrora pólo industrial do concelho e do Algarve, que em termos de grandes investimentos municipais, almejou, nas últimas duas décadas, receber uma ETAR, um jardim e um parque de feiras. Este último sem estacionamento, amputado que foi para a construção de um parque de auto caravanas e pelo terminal rodoviário, que planeamento houvesse deveria ter surgido no local onde nasceu o jardim municipal. A outro nível, evidencie-se a criação do parque empresarial, por um conhecido empresário messinense, que em boa hora o promoveu sem qualquer contestação. Já diferente foi a instalação de uma central de lamas, apoiada por algumas forças partidárias, com supostas contrapartidas para a freguesia, que decerto, ao que vimos, se terão perdido… Mas desse assunto as gentes da Fonte João Luís e limítrofes estarão gratas, por tão generoso presente e «desenvolvimento» que usufruem desde então.

Agora concretizada que está a central de lamas, almejam várias forças políticas a construção da prisão, que apresentam como motor basilar do desenvolvimento e prosperidade da freguesia. Acreditamos que pior seria difícil. Para aqueles que a defendem e lembram os polícias que por cá se fixariam, os empregos que proporcionaria, os visitantes de fim de semana, etc., temos más notícias. O estabelecimento prisional de Pinheiro da Cruz, concelho de Grândola, foi criado em 1951 e então a freguesia de Melides tinha 4 598 habitantes, em 1987 a freguesia originou também a de Carvalhal, à qual ficou a pertencer aquela infraestrutura e atualmente, Censo de 2021, o somatório das duas freguesias cifra-se em 2 977 habitantes. Pois, o referido estabelecimento não contribuiu para a fixação de pessoas, nem para a dinamização económica e social daquele território.

Sobre São Bartolomeu de Messines em particular e agora que se torna premente a reindustrialização da Europa e do país, tire-se partido da sua localização privilegiada, como no passado, construa-se um parque empresarial (no terreno previsto para a prisão, por exemplo), que deveria ter sido materializado há 20 anos quando a Autoestrada do Sul ficou concluída e inexplicavelmente nem consta no novo Plano Diretor Municipal. Materialize-se um pólo tecnológico, aposte-se nas indústrias criativas, criem-se condições para a fixação de empresas emergentes ou tão somente de nómadas digitais. Renove-se o centro antigo da vila, que não obstante a recente bandeira eleitoral, a Câmara tem vindo a protelar a concretização das alterações que se impunham ao projeto, pelo que a obra dificilmente se materializará neste mandato, o que não podemos deixar de lamentar.

Sem esquecer a aposta no turismo cultural, seja na figura de personalidades como João de Deus ou de Remexido, das Lutas Liberais ou nos vestígios arqueológicos, bem como o turismo de natureza, ou não se localizasse aqui o centro de reprodução do Lince Ibérico.

Valorize-se a identidade deste território, tendo como força motriz a criatividade (note-se que esta é histórica ou não tivesse João de Deus concebido há mais de 140 anos um novo método de aprendizagem) e a inovação. Assuma-se e promova-se o Geoparque!

O concelho de Silves tem tudo para no século XXI, em que nos encontramos (os anos de 1980 já ficaram lá atrás), estar na dianteira da região, pelo que aos nossos políticos pedimos audácia, perspicácia e estratégia, pois não faltam motivos/ideias para abraçarem e pugnarem pela sua concretização. Estes dias e o Plano de Recuperação e Resiliência são decisivos, não percamos a oportunidade. As ambições das gentes de São Bartolomeu de Messines são muito mais que uma central de lamas, que já recebemos, ou a prisão que nos querem impingir. Estejam, pois, à altura das vossas pesadas responsabilidades.

 

 

 

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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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