Desde há uns anos para cá, os meus invernos têm tido uma constante: as idas às compras de pellets para aquecimento de casa. Trata-se de aglomerados de madeira em pequenos cilindros, de fácil armazenagem, que resultam da compressão de madeira obtida a partir de desperdícios da indústria madeireira ou da limpeza de matas.
Durante muito tempo, as pellets constituíram uma alternativa relativamente competitiva face às alternativas de aquecimento. O seu preço manteve-se inalterado ao longo do tempo e a sua ubiquidade significava que estava disponível um pouco por toda a parte. O preço também era competitivo: um saco de pellets de 15kgs, que durava entre 8 a 12 horas, era vendido por um valor que oscilava entre os 2,80€ e os 3,90€.
Hoje, a situação alterou-se dramaticamente; as sanções impostas à Rússia pela União Europeia, devido ao conflito russo-ucraniano, tiveram como resultado o estancamento das importações de pellets russas. Dado o estatuto da Rússia como uma das grandes produtoras europeias deste produto, as subidas dos preços não se fizeram esperar. Para além disso, o corte de gás oriundo da Rússia precipitou a procura por combustíveis de aquecimento que constituíssem alternativa, e a queima de biomassa é uma alternativa viável. Os europeus do centro e norte da Europa acorreram às salamandras de pellets, criando pressão adicional sobre o mercado.
Os resultados desta conjuntura são abismais: o preço de um saco de pellets de 15 kgs poderá hoje custar entre 9,00€ a 10,00€, um aumento brutal para qualquer carteira.
Para além disso, e apesar do mercado de aquecimento com recurso a pellets em Portugal ter crescido de forma sustentada nos últimos anos e de representar qualquer coisa como 37% do mercado em 2021, a indústria está muito virada para a exportação e, face ao aumento da procura no norte da Europa, não hesitou em apontar baterias para esses mercados em detrimento do nacional. Era esperado que o ano de 2022 trouxesse o aumento da capacidade instalada em quase 50%, face ao ano de 2021, mas parece não ser o suficiente para mitigar a sofreguidão da Europa pelos pequenos cilindros de madeira. Para se compreender a magnitude da questão, a maior fábrica de produção de pellets do país, a ser inaugurada no final de 2022 na Guarda, já terá assegurada a venda da totalidade da produção dos próximos anos a centrais de energia do centro da Europa.
Obviamente, e dada a voracidade dos mercados de exportação, é expectável que a utilização de pellets para aquecimento doméstico tenha adicional dificuldade este ano, esperando-se mesmo que possa haver escassez.
Os pellets são largamente utilizados na indústria panificadora e noutras indústrias alimentares, o incremento exponencial do preço deste combustível terá efeitos perniciosos, colaborando para a escalada de inflação, e colocando em risco empresas e modelos de negócio.
A ênfase que se tem posto em matéria energética tem sido no gás e no combustível automóvel; as medidas apresentadas de combate à inflação não se têm, até agora, dirigido para a biomassa. No entanto, uma medida de apoio importante a este sector, e aos milhares de portugueses que recorrem a este produto, seria a redução do IVA dos pellets, dos atuais 23% para a taxa mínima. Sim, é um pouco incompreensível que os pellets, enquanto combustível para aquecimento doméstico, tenham uma taxa de 23%; desde 2011 que a taxa é aplicada desta forma.
A questão das pellets é apenas mais um capítulo na difícil gestão de uma escalada de preços que teima em não parar a sua ascensão. No meu caso, prevejo que vou ter de vestir mais uma camisola. Ou duas.







