O mês de setembro é associado à rentrée, no sentido de reabertura e recomeço, depois do agosto que associamos a férias. É também um tempo em que há uma espécie de acalmia… é quando os ritmos das rotinas voltam a estar alinhados, em que tudo volta “ao normal” …
Nos últimos anos, no entanto, esta normalidade foi drasticamente quebrada pela pandemia e sem que saibamos o que aí vem, no próximo inverno, podemos desde já antecipar que não serão tempos fáceis para a grande maioria da população.
Os sinais de uma grave crise económica, que ameaça seriamente a nossa estabilidade pessoal e coletiva, estão por todo o lado. As alterações climáticas, os grandes incêndios e a maior seca registada na Europa nas últimas centenas de anos são realidades que não podemos ignorar. Some-se a isto a guerra na Ucrânia, com todas as suas implicações financeiras e políticas e, ao nível do dia a dia, a escassez de matérias primas, o aumento generalizado dos bens alimentares, gás, eletricidade, água, combustíveis, o aumento da inflação e a consequente perda de poder de compra, a subida dos preços das habitações e das taxas de juro, … e pensemos nos salários irrisórios que a maioria dos trabalhadores portugueses aufere… não haverá “bazuca” que nos salve…
Nesta rentrée, que tão difícil se afigura, estamos, para piorar a situação, nitidamente atrasados no que respeita à tomada de medidas, não só de longo prazo, as tais ditas “estruturais”; como também no que se refere a medidas imediatas, por exemplo, de poupança de energia que outros países já tomaram. Esses estão mais “à rasca!”, diremos nós, imbuídos do espírito porreiro, pá! e deixa estar que havemos de nos desenrascar, mas a verdade é que só temos água para mais um ano e não se prevê que chova tão cedo. A verdade é que muitas famílias já estão a sentir os orçamentos a apertar. A verdade é que passado o mês de agosto, o balão económico que o turismo trouxe e o balão emocional que as férias proporcionam vão começar a esvaziar e a realidade não vai ser bonita.
O que se considerava natural, a situação em que os filhos vivem melhor do que os pais, há algum tempo que começou a falhar e todos os indicadores ameaçam essa progressão. A precariedade do trabalho, a falta de habitação, os salários muito baixos e o alto custo de vida tornam cada vez mais difícil a independência dos jovens e a sua capacidade de auto-sustentação.
A nível local iremos com certeza sentir os reflexos da diminuição da capacidade de intervenção das autarquias. O brutal aumento dos preços da construção e dos combustíveis, a par da transferência de várias competências sem o acompanhamento de verbas para tal, são alguns dos factores que estão a limitar as autarquias. Há juntas de freguesia que tiveram já de triplicar o orçamento previsto para os combustíveis este ano. E obras que as câmaras não conseguem executar, ou até lançar o concurso, devido ao aumento e escassez dos materiais.
É uma rentrée difícil, a que este setembro nos oferece. Que nos prova como o modelo económico, político e social em que estamos alicerçados está decadente e que não pode continuar desta forma: firmado na delapidação dos recursos naturais, no desprezo pelo ambiente, na degradação do sistema democrático e na desvalorização do trabalho. Um modelo que ignora e promove a desigualdade social, concentrado unicamente no lucro, este sim, cada vez maior das grandes empresas e corporações obscenamente milionárias. Cada vez mais e mais milionárias. Ainda há dias, o presidente francês, Macron, foi muito citado quando avisou os seus concidadãos que “acabou o tempo da abundância”. O que o presidente quereria dizer, é que o tempo de um progressivo bem estar económico acabou para os que vivem dos seus salários. Os pobres continuarão (cada vez mais) pobres. Os ricos continuarão a enriquecer. A não ser que algo mude…
Acabo citando a eterna menina criado por Quino, a sempre certeira Mafalda: “Olha aqui pessoal, se a gente não se esforçar por mudar o mundo, depois é o mundo que vai mudar a gente!”







