Enquanto escrevo estas linhas, o Partido Socialista de António Costa ganha as eleições legislativas com uma surpreendente maioria absoluta. Desconfio que as sondagens dos últimos dias antes das eleições, que apresentavam um empate técnico entre PS e PSD, tenham desempenhado um papel para este desfecho, por um lado, mobilizando o eleitorado socialista menos envolvido e que quase esperava uma vitória fácil e por outro, promovendo uma transferência de votos da restante esquerda para o PS (o chamado “voto útil”), com receio que o PSD e a direita ganhassem as eleições. A ironia deste cenário é o facto do próprio Rui Rio poder ter sido prejudicado pelo efeito das sondagens, quando este tinha beneficiado destas aquando da sua eleição como presidente do PSD, em virtude de surgir nas sondagens como mais provável de ganhar a António Costa do que o seu opositor, Paulo Rangel.
Independentemente das razões, o ponto assente é que o Partido Socialista continuará a governar o país nos próximos quatro anos, com maioria absoluta, sem ter de prestar cavaco aos outros partidos da bancada parlamentar, pese embora existir uma maior segurança governativa.
E para o Algarve, o que significam estas eleições? Veremos. Embora se perspective uma reacender do motor económico da região no pós-pandemia de Covid-19, o Algarve sofreu desmesuradamente com a maleita, tendo perdido 16,7% do seu PIB regional em 2020, mais do que as restantes regiões do país. Com a fileira do turismo algarvio em frangalhos e com enormes incertezas em relação ao ano de 2022, a região corre o risco de uma verdadeira emergência social. Por outro lado, o Hospital Central prometido tarda em aparecer, para aliviar e recapitalizar o sistema algarvio de saúde, depauperado e exausto, tanto em matéria de recursos humanos como de investimento. Em matéria ambiental, o risco de seca e de erosão dos solos em virtude das alterações climáticas são problemas que são já visíveis, especialmente nas reservas de água presentes nas albufeiras da região. A necessidade de readequação da EN125, para que possa constituir uma via de comunicação digna desse nome, para o Algarve.
Estas matérias já estão identificadas e que inclusive já estão previstas para alocação de recursos financeiros desde o governo anterior, através de medidas especialmente preparadas para o Algarve. E no entanto, ainda nada.
E este é um dos problemas que o Algarve padece: a brilhante invisibilidade política que se abate sobre a região. Em termos nacionais, e junto da Assembleia da Républica, estamos cobertos como que pelo manto da invisibilidade do Harry Potter.
Não contamos para grande coisa e raramente Lisboa se preocupa com os problemas aqui da província, para lá, é claro, dos 3 meses de férias com que passam aqui e dos eventos partidários que cá ocorrem durante o verão. Salvo algumas notáveis exceções, os deputados eleitos nos últimos 20 anos pelo burgo do Algarve pecam por representarem muito pouco os interesses da região que os elegeu. Alguns nem sequer vivem, viveram ou sequer tem alguma ligação à região, o que é incompreensível e preocupante. Portanto, deixo um repto aos deputados recentemente eleitos pelo Algarve, independentemente da cor partidária: sejam irredutíveis na defesa dos interesses da região e implacáveis na prossecução da melhoria das condições de vida dos que cá vivem. O Algarve precisa de vós, mais do que nunca.






