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Opinião

As estradas e os seus impactos na biodiversidade

Frederico Mestre
Última Atualização: 2021/Nov/Seg
Frederico Mestre
5 anos atrás
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As nossas paisagens são cortadas por estradas, ferrovias ou linhas elétricas. Estas são essenciais para a sociedade, transportando pessoas, bens e energia. No entanto, são também um obstáculo para animais que partilham as paisagens connosco. Os seus impactos são imensos e passam frequentemente despercebidos.

As estradas, em particular, causam diferentes tipos de problemas para a fauna, sendo o mais direto a morte dos animais atropelados e a consequente redução das populações. No entanto, estas também cortam áreas de habitat e interrompem o movimento dos animais através da paisagem. Portanto os efeitos negativos caem numa de três categorias: mortalidade direta, perda de habitat ou impedimento de movimento. Para além disso, animais de maior porte, como javalis, podem causar acidentes bastante aparatosos.

Só para se ter uma ideia, no âmbito do projeto Life Lines, da Universidade de Évora, registaram-se cerca de 95 mil animais pertencentes a 228 espécies até outubro de 2020 a nível nacional (cerca de 200 no concelho de Silves).

No entanto este deverá ser um valor muito inferior ao da mortalidade real tendo em conta que, na maioria do país, os dados foram obtidos de modo muito disperso, dependendo da boa vontade de cidadãos que voluntariamente registaram atropelamentos na app desenvolvida pelo projeto.

Algumas espécies são particularmente vulneráveis: aquelas que se movem mais lentamente, como répteis ou anfíbios (em particular algumas espécies de rãs, sapos ou cágados) e alguns mamíferos (como o ouriço), ou as que procuram alimento nas proximidades da estrada, como algumas rapinas noturnas, ao voar mais baixo para caçar, são atingidas pelas viaturas (por exemplo as corujas-das-torres). As zonas de maior mortalidade ocorrem em áreas onde preferencialmente os animais atravessam as estradas: próximas de charcos no caso de anfíbios ou de habitats favoráveis, por exemplo matos, no caso de mamíferos como a fuinha, o sacarrabos ou a geneta.

As alternativas para minimizar estes impactos passam, por exemplo, por construir ou adaptar passagens sob a estrada, que se tornarão corredores artificiais para as espécies silvestres ou construir barreiras que condicionem o atravessamento da estrada ou que obriguem as aves a voar mais alto sobre a estrada.

Há épocas do ano particularmente favoráveis: as primeiras chuvas de Outono, quando se inicia a reprodução para as espécies de anfíbios causam um aumento do movimento destas espécies e, consequentemente, da mortalidade. O Verão no caso de espécies que não têm atividade nos meses mais frios, como répteis (cobras, lagartixas, cágados) ou alguns mamíferos (como os ouriços que atravessam a estrada muito lentamente tornando-se mais suscetíveis a serem atropelados). Curiosamente até mesmo a fase da Lua pode ter impacto sobre a mortalidade de algumas espécies de anfíbios: noites mais escuras, de Lua nova, apresentam maior mortalidade de Salamandra-de-costelas-salientes, enquanto noites de Lua cheia têm maior mortalidade de Salamandra-de-pintas-amarelas.

Felizmente todos podemos ajudar. A Universidade de Évora desenvolveu nos últimos anos o já referido projeto Life Lines, no âmbito do qual foi desenvolvida uma app que todos podemos usar para registar os animais que encontramos atropelados nas estradas. Chamo a atenção de que isto deve ser feito com a máxima segurança, parando a viatura só quando for seguro e tendo a máxima atenção quando saímos do carro. Esta aplicação permite que o utilizador tire uma fotografia do animal atropelado e identifica a localização geográfica. Se o utilizador souber identificar a espécie pode fazê-lo, caso contrário pode deixar essa tarefa para os biólogos que vão validar o registo. Toda a informação é reunida num base de dados nacional.

Infelizmente muitos de nós não estamos despertos para este problema. Já presenciei condutores que, propositadamente, se desviam para atropelar coelhos ou cobras. Por isso, da próxima vez que estiver a conduzir e um animal se atravessar no seu caminho faça o seu melhor para, em segurança, evitar matá-lo.

Sim, mesmo se for uma cobra!

 

 

 

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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